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188- 13) Notre-Dame-Sacré-Cœur-Montmartre-Dame-de-Fer

Estar cansado já não significava mais nada.
Apesar de não conseguirmos flutuar, seguíamos nossa sombra…

Após ter andado o dia todo no maior museu do mundo, lá estava eu a bater pernas pela cidade luz.

Eu simplesmente ignorei o cansaço, bloqueei o estímulo da dor.
Liguei as pernas no modo automático e continuei a jornada.

Foi assim que consegui chegar até a Catedral de Notre-Dame e pude ter um vislumbre do que foi a idéia gótica no seu esplendor.

Formidável imaginar sua história!
1163! É muito tempo!

Contornamos a catedral procurando seus ângulos perfeitos.

Quando li “Um livro por dia – Minha temporada parisiense na Shakespeare and Company de Jeremy Mercer”, tudo o que eu mais desenhava na minha mente era essa catedral.
A Notre-Dame era o cenário mais frequente nas aventuras do jornalista canadense.

Incrível como a Shakespeare and Company ficou escondida no meu subconsciente.
Incrível como eu me esqueci dela quando cheguei no cenário do livro.

Só fui me lembrar da famosa livraria quando o meu amigo Esfih@ perguntou pra mim se eu a havia encontrado.

4 noites em Paris é quase nada, acreditem.
Não dá pra se conhecer a cidade nem por cima.

Paris é muito profunda.
Passar por um lugar a noite e revisitá-lo de dia são outros quinhentos. Quando voltar à Paris, preciso me dar pelo menos 30 dias de férias.

Infelizmente visitei essa região às altas horas, sem a luz do grandioso sol.

Contornamos o Sena.
Caminhamos por lugares que mais parecem sair das páginas dos contos de fadas.

Felizmente a essa hora, a boêmia local criava ali uma atmosfera contagiante.
Os artistas, os aventureiros, os vagabundos e os turistas se confraternizavam de uma forma alegre e descompromissada.

Descobrimos as figuras noturnas. Interagimos com todas elas.

A amiga Gabis tinha lido em algum lugar, que haveria uma festa tradicional em algum ponto da cidade.

Oui Oui, como bons turistas em Paris, topamos peregrinar mais um pouquinho em busca da tal festinha.

Fomos caminhando despretensiosamente por ruas estreitinhas, vielas escuras, calçadas charmosas e quando dei por mim lá estava o mundinho de Amélie Poulain!

Montmartre!

Nessa hora vc precisa tomar fôlego, pq há muito em jogo.
Um filme como esse realmente te faz ver as coisas com mais cor.

Foi quando chegamos a Sacré-Cœur…

… e descobrimos que a festinha seria no dia seguinte.

Mas pra quê festa?
Aquilo ali já era o melhor presente!

Fiquei brincando com a câmera e seus diferentes tempos de exposição.

Ver Paris do alto da montanha de Montmartre é casar-se com a cidade.

Demais, não?

Cadê a Amélie?

Foi quando eu entendi pela primeira vez como seria difícil ir embora de Paris.

E a Lua de Mel vem logo em seguida, descendo graciosamente pela Funiculaire.

O mais legal é comprovar que o seu bilhete diário do metrô serve aqui!

Os amigos suíços demoraram, mas finalmente sentiram o cansaço pesar seus calcanhares.
A Gabis já não conseguia mais andar. Descalçou seu sapatos e foi se arrastando.

Nossa energia ainda circulava.
Afundamo-nos no metrô parisiense e fizemos uma grande bagunça pela esteira rolante:

Separamo-nos dos amigos e corremos até o Trocadéro para registrar a Dama de Ferro com suas luzes dançantes.

Para nossa sorte o metrô fechava mais tarde!
Fizemos a festa e ainda deu tempo de comer crepes.

187- 12) Musée du Louvre

Algo que planejei bastante nas roupas que levei e nas que comprei pela Europa, era que elas precisavam ser coloridas: para expressar meu estado de espírito; descontraídas: para exaltar a minha felicidade e confortáveis: para agüentar um dia inteiro de turismo desenfreado.
A sobriedade pastel que esteve presente há tanto tempo nas minhas roupas, eu havia decidido deixar bem guardada em casa.

Vestir-se de brasilidade na França funcionou muito bem.
O verde e o amarelo provocaram em todos os parisienses a docilidade e a simpatia para conosco.
Não importava o que perguntássemos, pra quem perguntássemos, onde perguntássemos, éramos muito bem tratados e recebidos.

Ir colorido à Europa foi muito mais do que vaidade, foi uma sábia escolha.
Não houve um único lugar onde encontramos as portas fechadas.
Não houve um único lugar onde fomos recebidos com descaso ou pouco sorriso.

E nem sou assim tão enaltecedor a ponto de me vangloriar ser brasileiro.
Não sou exemplo de fiel torcedor de futebol, empenhado conhecedor do nosso folclore, freqüentador bronzeado das praias mais tropicais… Não tenho nenhum amor desproporcional pela política do meu país ou longe de mim ser um daqueles defensores das nossas cada vez mais despidas florestas.
Nunca fui de tocar cornetas quando o Brasil fez um gol ou de balançar a bandeira quando ganhamos a Copa do Mundo, mas pela primeira vez, senti a necessidade que as cores com as quais me vesti fossem meu cartão de apresentação, a bandeira que carregaria por onde passasse.

Sou o brasileiro mais fajuto do mundo e acho que isso deve bastar.
Longe de qualquer jactância ou bazófia fashionista, fi-lo porque realmente qui-lo.
Ser um periquito nas ruas de Paris fez todo o diferencial.

Assim, brasileiríssmo, cheguei com a irmã e os amigos ao Arco do Triunfo do Carrossel que nos apresentaria o Louvre.

Logo a frente estava o Jardin du Carrousel e pudermos ter um vislumbre do monstro que é o Palais du Louvre, o colossal complexo de prédios que abriga o museu mais famoso do mundo.

O Palácio do Louvre é uma estrutura quase retangular, composto pela praça do Cour Carrée e duas alas que envolvem o Cour Napoléon a norte e ao sul.
O museu é dividido em três alas: a Ala Sully a leste, que contém a Cour Carrée e as partes mais antigas do Louvre, a Ala Richelieu ao norte e a Ala Denon, que faz fronteira com o Rio Sena para o sul.

Não dá para não se sentir intimidado.
O Louvre é um museu conhecido pela fama de que para se conhecer tudo que há nele, um dia só é pouco.

No coração do complexo, está a Pirâmide de Leoh Ming Pei, acima do centro dos visitantes.

Ela é deslumbrante e celebra muito bem a fase da ampliação do Museu do Louvre.
A Pirâmide e seu átrio subterrâneo foram inaugurados em 1988.

Ficamos pulando de alegria lá do lado de fora.
A Ju foi a única que conseguiu voar.

Nós estávamos tão contentes que esquecemos do que nos esperava.
Após comprarmos nossos bilhetes, afundamo-nos Pirâmide adentro para o subterrâneo do museu, não sem antes contemplar por dentro da grande obra de vidro do arquiteto norte-americano de origem chinesa.

Aquilo tirou meu fôlego.
Eu já podia imaginar as maravilhas da arte que me esperavam naquele museu, mas pra mim, a maior obra-de-arte era a Pirâmide em si.

É raro encontrar alguém que não aprecie a Pirâmide do Louvre nos dias de hoje, mas houve um tempo que ela foi duramente criticada. Os mais conservadores alegavam que ela arruinaria a harmoniosa perspectiva entre o Louvre e o Arco do Triunfo.
Na minha opinião, ela criou a harmonia arquitetônica perfeita entre o moderno e o antigo.

O Louvre passou dos 3 milhões de visitantes anuais de 1989 para os 8,5 milhões em 2008.
Depois da Vênus de Milo e da Mona Lisa, a Pirâmide do Louvre ocupa o terceiro lugar no ranking das obras mais apreciadas pelos visitantes do museu.

Queria muito fotografá-la a noite.
Até pensei que teríamos outra noite para fazer isso nessa Eurotrip, mas não contávamos com as milhares de possibilidades e programas que Paris oferece aos seus visitantes.
Não houve a menor possibilidade de voltar lá.

Eu deixei bem claro para todo mundo, que era meu desejo marcar um horário de encontro e que cada um seguisse solitariamente a sua peregrinação cultural, mas a Ju me acompanhou assim mesmo.

Quando o assunto é museu e obras de arte, cada visitante tem um tempo, uma velocidade de apreciação…
As pessoas tem interesses singulares, preferências distintas…
As obras atingem cada um de nós de maneiras diferentes.

Por sorte, o meu interesse cultural era muito parecido com o da minha irmã e conseguimos não nos perder tanto assim um do outro.

Começamos nossa peregrinação pelo labirinto cultural.

Nem bem começamos e já encontramos ela, a original Vênus de Milo.
A famosa estátua que representa a deusa grega Afrodite (amor sexual e beleza física), ficou tempo demais perdida em informações escolares dentro da minha cabeça.
Lembro-me muito bem da excursão com a escola ao Liceu, onde nos foram apresentadas às estátuas mais importantes do mundo.
A da mulher sem braços foi a mais inesquecível.

E pensar que pela estátua apresentar os braços e as mãos danificados e separados do corpo, quando encontrados em 1820 na Ilha de Milo no Mar Egeu, eram de muito pouco valor para que os atarefados marinheiros voltassem atrás para recuperá-los.
O único consolo é saber que as estátuas gregas dessa época, muitas vezes não recebiam acabamento por igual em todas as partes, o polimento mais fino era reservado apenas às partes mais visíveis.

De qualquer forma, réplica das lembranças escolares ou a original no Louvre, ela causava a mesma impressão que me causou décadas atrás: sua beleza era perfeita e a ausência de braços a deixava mais bela.

No final da monumental escadaria Darú, lá estava ela.
Pra mim, uma das estátuas mais misteriosas e poderosas do mundo: a Vitória de Samotrácia, ou Niké de Samotrácia, a representação da deusa grega Niké.

Desde 1883 ela repousa suas resistentes asas no final da escadaria.
Apesar dos seus significativos danos e de estar bem incompleta, é uma das maiores sobreviventes do Período Helenístico e mostra grande maestria em suas formas e movimento.

Não poderia haver melhor lugar para se colocar tal tesouro.
Por representar uma figura de proa, usada nos navios para afastar os males e cortar os perigos dos mares, ali estava a bela escultura no topo de uma escada, quase voando, molhada, cortando o vento além dos mares desconhecidos…

Lembrei-me de quando eu ia à proa do Costa Victoria no crossing pelo Oceano Atlântico e me perdia em pensamentos.
O bico do navio rasgava aquele mar azul num barulho mais poderoso que mil trovões e nem por isso eu sentia medo.
O vento fazia a pele querer sair do corpo e as lágrimas escapavam pelo canto dos olhos.

Por que essa estátua me fazia lembrar dessa experiência?

Eu quase não fui capaz de descobrir qual de suas asas era fruto de restauração, mas hoje percebo como a Nike foi feliz em adotá-la como inspiração para seu logo em forma de asa.
Eu quase não sentia falta da sua cabeça, mas podia imaginar na sua face, como estariam os cantos dos seus olhos e o movimento de seus cabelos.

Sentei-me em vários bancos.
Se houvesse um lugar pra se sentar, lá estava eu.
Acho que esse é o segredo de resistir aos quilômetros do Louvre.

Lógico que tem uma hora que vc não vai querer ver mais nenhum quadro na sua frente, mas tive Artes Visuais I, II, III… XV na faculdade…
Tudo o que eu via lá no museu, em alguma oportunidade já me fora apresentado em sala de aula nos encardidos slides da nossa doce professora, cujo nome não me vem à cabeça.
Eu e alguns amantes das artes, quando não dormíamos em aula, estávamos atentos a lição do dia do mesmo modo que sonhávamos viajar à Europa para poder ver todas essas obras originais.

Sentar-se além de descanso, era também um bom exercício de reparo. Reparo físico, espiritual. Um momento para reparar nos outros visitantes.
A sortuda população frequentadora do museu era muito curiosa: estudantes rabiscando suas pranchetas, fotógrafos girando suas imensas lentes, amantes de arte discutindo em idiomas que vc nem sequer sabe que existem, velhinhos apaixonados com seus andadores, asiáticos bonitinhos com suas famílias bonitinhas, inglesas magras com blusas gordas, americanos bem comportados, francesas bonitas, estranhos alemães…

Gente simples com guia auditivo, gente sofisticada com guia exclusivo…

Sentado no meio daquele museu, tive noção do tamanho da minha sorte.
Estar cercado por tesouros tão familiares não é para qualquer um.
Eu estava no meio do El Dorado, rodeado pelos tesouros mais fantásticos que o mundo já conhecera.

Seguimos a corrida ao tesouro a passos de tartaruga.
Reparamos uma aglomeração logo à frente e descobrimos o porquê.

La Gioconda.

A maior atração do Louvre também é uma das menores.
Vc não consegue nem estudar o sfumato de tão distante e protegida que a pintura está.

De alguma forma, mesmo sendo tão pequena, ela consegue despertar uma imensa curiosidade.

Seu sorriso enigmático não preenche a sala exclusiva de 200m² e seu valor pode ser bastante questionado.
A verdade é que as pessoas se acotovelam para tentar chegar o mais perto possível da bela dama.
Ela é provavelmente o retrato mais famoso na história da arte, o quadro mais valioso de todo o mundo.

Leonardo da Vinci que me perdoe, mas não vou gastar muito português para detalhá-la com precisão, muitos historiadores, cientistas e até mesmo os computadores da Universidade de Amsterdã já o fizeram e com profundidade.
Fico contente em dizer que ela não me impressionou em nada, já minha irmã…

Se o sorriso da Mona Lisa não conseguiu me impressionar, o olhar por outro lado…
Muito pouca gente olha para o quadro que a Mona olha o dia todo.

O quadro em questão é “As Bodas de Canaã” de Veronese e é o maior quadro existente no Louvre.
É nele que está retratada a transformação da água em vinho por Jesus Cristo.

De um lado a pequena Mona, do outro Jesus.
Os olhares que ambos projetam entre si parece ignorar a orda de turistas que se ondulam como um mar de cabeças.

O quadro de Jacques-Louis David, Consagração do Imperador Napoleão I e Coroação da Imperatriz Josefina na Catedral de Notre-Dame de Paris, é um exemplo claro de hierarquia.
A maneira como estão dispostos os personagens na pintura, encomendada por Napoleão, leva o observador a seguir uma sequência bem definida.
A Jussara pirou com essa obra. Conhecia essa história ao pé da letra.

Seguimos por corredores e salões.
Tetos decorados, afrescos e pinturas…

Foi quando alguém chegou muito perto da coroa e o alarme soou.
Grades surgiram nas saídas e ao redor do tesouro.
Um exército de funcionários aglomeraram-se às portas e tivemos que aguardar a confusão passar.

A Ju pensou estar gravando tudo, mas não havia apertado o botão de REC.
Perdemos!

Seguimos ao Egito antigo.
Depois da Pirâmide de Vidro foi o que mais gostei no Louvre.

Andamos como os egípcios.

Banhei-me nessa rica e antiqüíssima cultura.

A Ju incorporou Cleópatra.

Dá pra entender porque o Egito rompeu vínculos com o Louvre.
Por mais que tudo esteja perfeitamente protegido e bem exposto, é inquietante a sensação de roubo.

O subsolo do Louvre é um lugar sombrio, frio e úmido, onde dá para ver parte da muralha externa do castelo e o fundo do fosso.

Se a pequena Esfinge, isoladinha ali, já era tão magnífica e misteriosa, como seria ver a gigantesca Sesheps no planalto de Gizé?
Algo pra se descobrir num futuro próximo. Ser um pouco mais sortudo…

Entre uma ala e outra, algumas dimensões paralelas.

Influência, referência, repertório…

Assim caímos nos sarcófagos.

O que dizer deles?
Dá pra entender porque são literalmente conhecidos como comedores de carne.
Envolviam o corpo morto e conservado para que o espírito pudesse regressar e juntar-se a ele novamente, numa nova vida.

Havia muitos desenhos talhados na pedra.
Todos os sarcófagos eram ricamente desenhados.
Os desenhos representavam deuses que ajudariam o morto em sua viagem ao outro mundo, além de identificar a classe social da família do falecido.

Mórbida curiosidade.
Não consegui me mover dali sem antes me perder em viagens no tempo.

Estudava-os silenciosamente.

Como os homens podem ser tão fantásticos com seus ritos?

Somos todos do mesmo planeta e ainda assim somos tão diferentes…
Somos todos inspirados por uma força divina e ainda assim acreditamos em coisas tão diferentes…

Era quase inacreditável imaginar o corpo morto dentro desta pedra trabalhada.

Da mesma maneira que ao virar um corredor encontramos os sarcófagos, da mesma maneira a encontramos.
A vida inteira assisti vários filmes sobre ela. Jamais pensei que faria um:

Estar diante de uma múmia do Egito Antigo me fez pensar além da vida, me fez pensar no poder da ressureição.

Fez-me pensar no processo da mumificação osiriana: no cérebro sendo escorrido pelas narinas, do abdômen sendo aberto e todos os órgãos sendo retirados, embalsamados e colocados nos canopos.

Eu podia imaginar aquele pequeno corpo sendo preenchido com saquinhos de natrão em repouso para que seus líquidos escorressem.
Enterrado por 72 dias… O sal absorvendo todo o líquido do corpo.

Depois disso, com o corpo já escurecido e ressecado, o enxerto de resinas, aromas, perfumes, bandagem e pó de serra para dar conformação ao corpo.
A costura do abdômen e a placa mágica.
Enfaixamento com metros e metros de tiras de pano de linho com goma arábica e a cada volta, amuletos e colares.
Só então a múmia está pronta para o enterro.

Claro que o processo não se compara à injeção de essências e de vinhos corrosivos que as múmias mais pobres levavam através do ânus, isso sem falar do tampão! Hehehe…

Mas se fosse Faraó, cozinhava-se a carne até desprender dos ossos. Esses por sua vez, eram pintados de vermelho e enfaixados, fazendo-se uma estocagem na múmia com gesso.

Vida de múmia egípcia não era nada fácil.

Eu mal podia acreditar nos meus olhos! Havíamos conhecido uma múmia de verdade e eu nem me lembrava que já devia estar desidratado.
Eu esquecia de beber água, eu esquecia de comer, esquecia que estava com fome!

“-A gente chegou a comer alguma coisa no Louvre, Ju?” – juro que não lembro.

Fomos seguindo, sempre com passinhos de formiga, nunca sem vontade.

Encontramos painéis fabulosos pelo caminho.

A Ju incorporava o espírito guerreiro.
Eu desejava ter olhos na nuca e nas orelhas.

Atingimos a Ala Sully e pelas antigüidades do Irã encontrei o Chapiteau d l’Apadana.
Baaaaaaaaaaaaaah, pára tudo!
Como pôde existir um lugar no mundo que abrigou em algum momento nessa louca linha do tempo uma coluna assim?

Existiu.
Essa coluna fazia parte das ruínas do colossal templo da Apadana, na antiga cidade de Persépolis.
A construção da majestosa obra foi principiada por Dario, o Grande e concluída no século V a.C. por Xerxes.

Trinta das setenta colunas, juntamente com as duas gigantescas escadas sobreviveram às invasões do filho da puta Alexandre, o Grande e à deterioração do tempo.
Vinte e nove de trinta, porque uma estava lá no Louvre.

Em certos momentos, a Pirâmide de Vidro aparecia lá fora, bela, harmoniosa.
É como se ela olhasse pra mim e dissesse: “-Seu sortudo filho da mãe!”…
Hehehe…

Foi quando me dei conta das horas.

Elas haviam passado sem que percebêssemos.

O cansaço puxou meu corpo pra baixo.
Tomei fôlego, afastei-me da janela e mergulhei na parte do museu que se parece com um jardim de inverno.

A atmosfera é a mesma de se estar ao ar livre.

Encarei dois dos Quatro Cativos.

O eminente escultor holandês Martin Desjardins sabia como gerar impressões colossais.
Cada rótula do joelho desses gigantes era maior do que a minha humilde cabeça.

Como naqueles antigos filmes mitológicos da Sessão da Tarde, eu era capaz de imaginar os Cativos se movendo em Stop Motion.
Cada elemento representando uma das nações vencidas no Tratado de Nimega, expressando uma reação diferente à captura: revolta, esperança, resignação e mágoa.

Fui me arrastando através do Cour Puget até encontrar posada. Só fui perceber o registro em vídeo quando já estava completamente torto.
O cansaço era bem evidente.

Amém.
O resto do museu fica para uma próxima visita.

Não sei como chegamos lá, mas encontramos um corredor cheio de lojas inacreditáveis.
Havia todo o tipo de lojas de lembrancinhas do museu, tudo muito caro e de praxe.
Havia uma loja muito interessante de artigos natureba, gastei um tempão nela.
Havia uma Virgin Megastore… Nos perdemos de verdade lá dentro… A Ju gastou seus euros em canetas caríssimas que estavam baratíssimas, segundo ela. Eu tava quase levando um Wii ou um PSP, mas resisti bravamente, era olhão, nem tava precisando.
Ah, tá certo, a gente sempre tá precisando dessas coisas, deveria ter trazido. Hehehe…
E havia a Apple Store que ainda não tava pronta.

Juntamos toda a força que ainda nos restava e fomos dar uma de Dan Brown.

A segunda fase do plano do Grand Louvre, La Pyramide Inversée (A Pirâmide Invertida), foi concluída em 1993.

A Pirâmide de cabeça pra baixo fez com que eu perdesse o fôlego mais uma vez.
Esqueci-me de tudo. Não havia mais dores.
Fui até ela como criança vai ao brinquedo.

Equilibrei-me. Contorci-me.

Corri com os bolsos cheios de manuais, capa da máquina, documentos…
Posicionei minha mão entre a Pirâmide Invertida e a Pirâmide de Pedra estacionada no chão.

As primeiras fotos fizeram meus bolsos da calça parecerem enorme nádegas. Parecia que eu estava ao contrário!!!

Por sorte constatamos o problema com os bolsos, eu os esvaziei e tiramos outras fotos.
Na realidade, tiramos várias.

Colocar a mão no ponto onde as pontas das duas pirâmides quase se tocam é viciante.
Não dá pra fazer uma única vez.
A energia que aquele espaço gera é pura alegria.

Antes da gente, japoneses, ingleses, americanos e todos os demais aproximavam-se das Pirâmides, em pé, sólidos como rocha enquanto seus conhecidos os fotografavam.

A gente queria interagir com a energia das Pirâmides.
Nem sei se era praxe tirar a foto do jeito que tiramos, mas depois que colocamos a mão lá, os japoneses, os ingleses, os americanos e todos os demais embarcaram na nossa e refizeram suas sessões fotográficas.

O cálice e a lâmina, a união dos sexos. A ficção do autor de O Código Da Vinci podia muito bem confundir a realidade.
A Pirâmide de Pedra pequena, para qualquer pessoa que como eu tem alguma imaginação fértil, realmente lembra o vértice de uma pirâmide maior (possivelmente do mesmo tamanho que a Pirâmide Invertida acima), embutida no chão, como uma câmara secreta. A câmera onde descansaria o corpo de Maria Madalena. Hehehe…

Depois que cansamos de brincar de Robert Langdon e Sophie Neveu, fomos encontrar os amigos.

Ainda havia tanto para se ver…
Nesse momento vc se dá conta de que é impossível ver tudo o que o museu tem.

Fiquei com raiva do Louvre.
Comentei com o amigo suíço esse egoísmo francês de querer concentrar todos os tesouros num único lugar.
Só de pensar que ainda tem tanta coisa lá que não está exposta, simplesmente porque não há mais lugar pra isso…

Tá certo que um negócio desses é uma plantação de árvores com frutos de ouro para a economia do país, o El Dorado para os turistas, mas o Louvre é desproporcional, é um exagero de museu, dá raiva.
A idéia de pedir para Papai Noel distribuir um pouquinho de tesouros para museus menores ao redor do mundo pipocou na minha cabeça. Vou pedir isso neste Natal.

O amigo disse que o “egoísmo” francês poderia ser interpretado pelos franceses como “orgulho”.
Compreendi a colocação.

Eu respirei inspiração, eu voltei no tempo a cada sopro.
Sinto que se pudesse tocar essas peças com a ponta dos dedos, eu poderia de alguma forma ter alguma visão, algum resquício de história que ficou incrustrada em algum sulco da massa ou pedra. Tentei em muitos momentos enxergar a alma dessas obras, alguma atmosfera que brilhasse diferente, uma luz divina…
Encontrei e encontro todos esses fragmentos perdidos olhando agora para as fotos, escrevendo sobre elas, relembrando esta peregrinação.

Ir ao Louvre deveria ser direito de todo ser humano vivente nesse planeta.
Conhecer o Louvre é a peregrinação mais importante que podemos fazer nesse nosso tempo.
Eu espero repetir essa experiência mais vezes.

185- 10) La Ville-Lumière

Caminhamos muito.
Desde o Arco do Triunfo, passando por toda a Champs-Élysées, alcançando o cruzamento da Franklin D. Roosevelt para então entrar na Wiston Churchill e passar no Petit Palais.

O frio era constante e os pés estavam tão doloridos que parecia que eu estava andando descalço.
Por mais doloroso que fosse caminhar, mesmo que em marcha reduzida, o prazer em descobrir lugares perfeitos a cada quarteirão avançado era por demais viciante e o melhor remédio para tanta dor.

Foi assim que me apaixonei por Paris.

Como era possível estar tudo pronto? Tudo construído com maestria e capricho?
Estava tudo pronto, estava tudo lá!

É completamente maluco vc ir descobrindo isso a cada passo dado.
Uma cidade luminosa, cheia de monumentos e construções lindas equilibradas com jardins maravilhosos…
Pra tornar aquilo mais perfeito ainda, o clima de Outono, as folhas de Outono, o humor e o sentimento que essa estação provoca nas pessoas.

Eu estava apaixonado por cada canto descoberto, por cada rua, por cada avenida.

Foi quando a noite nos atingiu.
Estávamos cruzando a belíssima Ponte Alexandre III, que é muito mais que uma simples ponte.

Eu amei andar pela Ponte de Westminster em Londres, mas cruzar a Alexandre III era muito mais especial.

A Ponte Alexandre III é a ponte mais bonita e emblemática de Paris. Com seu estilo Art Nouveau, ela intrega um conjunto arquitetônico maravilhoso do qual fazem parte o Grand Palais e o Petit.
Os três foram construídos para celebrar e abrigar a Exposição Universal de 1900.

Além de linda, foi importante também para o ponto de vista arquitetônico e de engenharia: foi a primeira ponte pré-fabricada a ser transportada para o local, onde foi instalada com guindastes.

Uma das exigências do projeto foi de não interromper as vistas para Invalides e Champs-Elysées, o que resultou numa ponte especialmente baixa e larga, com 107,5 metros de comprimento e altura apenas de 6 metros.

Lógico que eu não tinha todas essas informações ao passar por ela, mas naquele momento isso não era tão importante, ela me impressionou do mesmo jeito.

Era final de um dia comum. As pessoas voltavam para suas casas bem protegidas do frio, dentro de seus carros quentinhos.
Vi um deslumbre da Torre ao fundo e não resisti.

A todo instante ela nos lembrava de que estávamos sob sua proteção. É um enorme amuleto mágico, que de vez em quando, dá uma olhada na gente de longe.

Paramos por um momento pra tentar capturar a atmosfera daquele lugar e eu desejei poder passar por ela numa próxima oportunidade, de dia, ainda nessa Eurotrip. Claro que isso não seria possível.

Parei para contemplar o Rio Sena. Mais um rio famoso pra se lembrar em dias futuros.
Que paz! Que sorte os parisienses tem!

Um Bateaux-Mouches passava no exato momento. Registrei-o, mas não fiquei com muita vontade de navegar o Sena. A experiência em ir até Greenwich pelo Tâmisa foi um tanto quanto cansativa.

Queria mesmo era pegar uma bicicleta e sair pedalando por todos esses lugares, mas isso é uma coisa pra se fazer de dia e no verão. Quem sabe numa próxima Eurotrip… É, definitivamente numa próxima Eurotrip!

A cidade luz faz jus ao seu nome.
A iluminação noturna em Paris é um charme só e um convite para uma gostosa caminhada.

O frio tinha atingido níveis insuportáveis e a Ju estava apenas com aquele vestido fino e nada mais.
Briguei muito com ela. Ela tinha pego todo o frio no topo do Arco do Triunfo… Isso não poderia resultar em boa coisa…
Teimosa como sempre, ela não arredou o pé em dizer que estava tudo bem, assim como não aceitou nosso agasalho.

Fomos caminhando como podíamos e atravessamos a ponte.

Paris é uma declaração de amor aos olhos.
Nossos ouvidos são agraciados com aquele som distante dos tocadores de acordeão nas esquinas.
Nossos narizes são desafiados a todo instante pelos cafés e padarias.
E aquele frio charmoso rasgando nossa pele…

Encontramos uma vitrine muito convidativa do outro lado do Sena.

As meninas não perderam a oportunidade de tirar um sarro.

Sofisticadas e engraçadas, o ensaio foi um dos momentos mais fashion do passeio.

Meninas malucas.
A brincadeira foi tão espontânea, que as pessoas que passavam ao nosso lado aprovavam com interesse.

Afundamo-nos na primeira estação de metrô pra descansar meia horinha no nosso Hotel, desfazer as malas, tomar um banho muito muito quente, apanhar agasalho pra Ju e então sair pra jantar.

O Phil nos levou pra comer carne, como ela deve ser realmente saboreada.

Juro que queria ter tirado uma foto do enfeitado prato, mas me contive, afinal de contas, era nosso primeiro jantar francês e não podíamos cometer deslizes.

O bife tinha um sabor fantástico mas nem de longe superava a carne brasileira. Veio acompanhado por uns molhos deliciosos que eu nem imagino do que foram feitos. Havia ainda uma porção de vagem bem verdinha e temperada suavemente, uma salada espetacular e as originais French Fries, as mais crocantes e saborosas que eu já comi.
Pra não fugir muito do praxe, pedimos Coca-Cola.

Passamos muito tempo para saborear tudo o que nos foi trazido.
A conversa com os suíços foi tão deliciosa quanto os pratos.
Foi um jantar muito agradável e nada barato.
Saímos de lá satisfeitos. Não houve espaço para sorvete e eu resisti em não tirar fotos dentro do restaurante. Só o fiz porque o Phil pediu.

Os suíços não estavam cansados como nós estávamos. Tinham acabado de chegar de Berna, uma cidade completamente serena e cheia de paz. Estavam loucos por diversão.
A gente estava há 4 dias andando loucamente pelo subterrâneo e pela supefície de Londres. Assim sendo, nossas pernas já estavam bem gastas e toda a canseira se acumulou neste dia.
De qualquer forma, depois do jantar, nos pegamos passeando com os amigos pelos arredores do nosso bairro: Strasbourg – Saint-Denis.

Fomos tirar foto perto do pequeno Arco, na Boulevard Saint Denis e nos empolgamos.

Por mais que estivéssemos fechando os olhos, ainda precisávamos entrar em contato com o pessoal daqui do Brasil.

Conversamos mais algumas horas com os amigos sem sono e só então mergulhamos merecidamente numa cama quentinha, num quarto encarpetado e bem protegido do frio lá de fora.
Não houve brecha nem para sonhar.

Créditos Ponte Alexandre III: Arnaldo Interata

184- 09) Paris, Je Suis Brésilien

Chegar a cidade luz pelos trilhos é curioso e nada glamouroso.
Tudo o que vc vê ao entrar na França são subúrbios feios com muros e construções pichadas, edifícios velhos com pinturas descoladas e com suas sacadas cheias de roupas no varal…
Há uma escrachada falta de beleza nas ruas das cidades que margeiam a estrada de ferro…
Não há nada lá fora que seja muito interessante, não pelo menos ao redor dos trilhos.

Impressionante como uma vez que vc sai da escuridão do Eurotunnel pela região do Calais – norte da França, chegar em Paris é realmente muito prático e nada demorado.

Trens poderosos se mostram rasgando os trilhos ao lado na direção contrária e aos poucos, o desinteressante vai deixando de ser desinteressante.

Há uma certa bagunça bem brasileira nas ruas que vemos pipocar pela janela do trem.
Talvez essa observação se dê pelo fato de tudo ser irritantemente perfeito em Londres e estarmos vindo maravilhados demais de lá.
Por mais que a França seja um país de primeiro mundo, há muita distância entre essa impecabilidade urbana londrina, pelo menos nessas cidades que vi passar ao horizonte.

Consigo ler “Paris” nas primeiras placas ao alcance dos olhos próximo aos cruzamentos que cortam os trilhos do trem.
Sinto o poder desse nome de uma forma diferente.

É engraçado quando o nome de um lugar deixa os livros de História e as revistas de turismo para se tornar mais do que isso.
O nome passa a identificar o bilhete aéreo, o portão de embarque no aeroporto, o destino do trem, uma simples placa para a próxima cidade…

Chegamos em Paris.

O trem parou na Gare du Nord pontualmente.

Não deu tempo nem de amassar a roupa do corpo, a viagem fora extremamente confortável e relaxante.
Na hora eu percebi que havia feito a melhor escolha: viajar por todos esses lugares de trem iria valer muito a pena.
Se o Eurostar, o único trem em classe econômica que pegaríamos havia nos proporcionado viagem tão maravilhosa, os outros trens em primeira classe iriam ser simplesmente perfeitos.

Mesmo descansados, saímos do trem com aquele frio na barriga por chegar em uma cidade famosa, mas completamente nova.

A cidade de Londres já estava presa ao nosso passado, já era sonho sonhado.
Ainda estava fresca em nossas mentes, mas agora não era nada além de boas experiências vividas e grandes lembranças.

Chegamos mesmo a esquecer de que encontraríamos nossos amigos suíços.

(Eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho… Mas eu vim de lá pequenininho. Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho…).

Foi como eu me senti ao deixar aquele trem.
Nunca me senti tão pequeno.

A Ju já havia superado a London Eye. Estava maior que eu.

Eu estava realmente preocupado apesar de bastante descansado.

Ainda perturbados em como iríamos sobreviver sem muito francês numa cidade que se recusa a falar inglês, estudamos o gigantesco espaço da nova estação e respiramos fundo antes de deslizarmos nossas pesadas malas pelo solo francês.

No momento em que me lembrei de que iríamos encontrar nossos amigos, comecei a ficar bastante inquieto.
Até então, não havíamos conseguido nos comunicar com eles.
Constatei também que a mala mais pesada já não estava mais 100% segura. A rodinha traseira já não girava mais como antes. Iríamos ter problemas com toda a certeza e o fato de não saber para onde ir não estava ajudando muito.

O bom em se viajar com alguém de confiança, é exatamente poder se desligar um pouco e relaxar. E foi o que fiz, tentei pensar como turista e não como estrategista.
Não estávamos em nenhuma corrida milionária. Havia tempo para respirar fundo.

A primeira coisa que fizemos foi buscar um guichê de informações turísticas.
Fomos bastante receosos ao fazê-lo, porque o tratamento rude parisiense era esperado. Poderia vir já na primeira consulta ou demorar um pouco mais, mas uma coisa era certa, ele viria.

Nossa abordagem para com o primeiro atendente turístico foi à francesa, nossa simpatia à brasileira e acho que esse foi o segredo para que o tratamento rude parisiense não nos atingisse durante toda a nossa passagem pela cidade luz.
Abordávamos as pessoas num francês tímido, apresentávamo-nos como brasileiros deslumbrados e só então usávamos um inglês suave. Funcionou em todos os lugares.

Compramos o bilhete para o metrô e nem nos surpreendemos com o tamanho do sistema metroviário de Paris, já estávamos completamente acostumados com o tamanho e a agradável confusão do metrô londrino.

Gare du Nord, Gare de l’Est, Château d’Eau e finalmente Strasbourg Saint-Denis, a nossa estação.

Desembarcamos no meio de um filme francês.
Aquelas típicas ruazinhas com seus bistrôs bonitinhos, senhores velhinhos jogando e esperando a tarde passar, cafés preguiçosos espalhados caprichosamente nas esquinas, restaurantes enfeitados com suas lousinhas numa caligrafia bem escrita anunciando o prato do dia…
O sol e a cortina de uma garoa cheia de bossa nos saudaram ao mesmo tempo. Cheguei a sentir um pouco de calor.

Sim, havia aqueles senhores que dominavam a saída das estações do metrô e que lhe abordavam sem a menor educação (bem parecido com Lisboa), mas fora isso, todo o resto era muito cinematográfico.

Não havia aquela beleza londrina que encontramos nas ruas mais comuns de Londres, mas havia uma poesia típica que o mundo conhece muito bem e que nasceu aqui mesmo nessas ruas comuns de Paris.
Foi então que compreendi que realmente precisaria me desligar de Londres para aproveitar Paris.

Percorrer essas ruas foi um enorme prazer.
Bom, o prazer não durou muito, pois a rodinha filha da puta da mala deu “piti” e morreu muito antes de encontrarmos a rua do nosso hotel. Ela despirocou da mala, engasgou, deu um giro sobrenatural e a cena foi estrondosa. A pesada mala virou de cabeça pra baixo e o puxador quebrou-se como se fosse feito de isopor.

O filme francês se transformou em cena de férias frustradas americanas.
A mala bailou para um mergulho mortal e os parisienses sofisticados riram com muita elegância.

Alguns senhores, ainda assim, tentaram nos ajudar.
A gente ficou com um pouco de vergonha, talvez isso explique a enorme onda de calor que eu senti, mas o mais embaraçoso não era se curvar para transportar aquela “geladeira” de três rodinhas. O fato mais chato foi passar com ela, umas três vezes pelo menos procurando o caminho… Hehehe…

Como estávamos vindo carregados de Londres com outras mochilas, com sacolas de compras e a mala menor, empurrar a dita cuja por aquelas ruas de paralelepípedos foi uma prova de força e resistência.

Nem sei como finalmente encontramos a rua do nosso hotel, mas a única coisa que me lembro bem foi de ver a Gabis e o Phil esperando por nós com sorriso de orelha à orelha.

Encontrá-los foi maravilhoso.
Não deu tempo nem de me sentir envergonhado.

Foi o tempo de fazer o check in, passar uma água no rosto e sair pra saborear a cidade.

A Gabis eu já conhecia há tempos, é amiga de faculdade da minha irmã e freqüentava minha casa.
O Phil eu só conhecia através do Skype, nas longas conferências que tivemos pra discutir os preparativos da viagem, meses antes.

Os dois se conheceram aqui em São Paulo e o amor foi à primeira vista.
Eles casaram e foram pra Suíça onde vivem desde então.
A Gabis sempre chamava a Ju pra ir visitá-la, mas nunca dava pra conciliar as férias latinas com as férias européias.
Foi quando resolvi ir à Europa.
A idéia original nasceu como uma viagem solitária de uma semana nos arredores de Paris, nesse meio tempo convenci a irmã a me acompanhar e acabamos incluíndo Londres, Suíça e finalmente a Itália.

Bastou o casal saber que incluiríamos a Suíça na nossa Eurotrip para nos oferecer hospedagem.
Já estávamos felizes demais com esse presente, ficamos mais ainda quando eles disseram que nos encontrariam em Paris.

E lá estavam eles como prometeram.
Hospedaram-se no mesmo hotel, ficariam com a gente por toda nossa passagem pela cidade luz.

Fomos andando até a Gare du Nord e descobrimos como a nossa estação Strasbourg era muito bem localizada.
Comemos um sanduba de fondue (exótico) e nos perdemos por ruas charmosas.

Havia muito tempo que as amigas não se encontravam pessoalmente, então dá pra imaginar que assunto entre elas não faltou.
Eu por outro lado, não tinha qualquer intimidade com o suíço, mas se olhassem de longe, não dava pra dizer quem falava mais com quem, se os meninos ou as meninas.

A amizade foi instantânea e a admiração também. O Phil, como eu suspeitava, se mostrou uma pessoa incrível.
Por mais que eu não tivesse qualquer vínculo com o guri, ele era um eterno apaixonado pelo Brasil e eu pelo país dele. Isso já era suficiente para que não faltasse assunto.

O forte sotaque não impedia o suíço de nos humilhar com o seu fluente português.
Povo suíço já nasce falando três línguas! Gente inteligente do caramba.

Oras falávamos em português e na maioria das vezes em inglês, porque ainda há coisas que funcionam melhor no idioma universal.

O Phil já havia morado um tempo em São Paulo e aprendeu o português só de ficar entre os paulistas.
Já casado, na Suíça, tudo o que ele teve de estímulo foram as conversações com a Gabis, ou seja, o cara mandava muito bem.

E enquanto andávamos sem destino certo, conversávamos e ríamos.
Então nos tocamos de que estávamos andando sem rumo e como o Phil era o único que já conhecia Paris e falava fluente o francês, ele nos guiou até à Champs-Élysées.

E lá estávamos na avenida mais famosa de Paris.
Fomos presenteados com trilha sonora bem brasileira, numa roda de capoeira logo ali ao lado.

O primeiro cartão postal não demorou para aparecer.

O Arco do Triunfo surgiu na nossa frente.

Esse lugar é tão bem localizado.
Ele está situado no centro da praça Charles de Gaulle, de onde partem as doze principais avenidas da cidade.

A praça e suas doze avenidas formam uma estrela, une Etoile.
E é do alto do Arco que temos a visão desta formação que torna o trânsito absolutamente caótico.

O monumento construído em comemoração às vitórias militares de Napoleão Bonaparte, teve sua construção em 1806 e sua inauguração em 1836.
A monumental obra detém, gravados, os nomes de 128 batalhas e 558 generais.

Decidimos ali mesmo subir o Arco.
Por mais fechado que o tempo estivesse, provavelmente não teríamos outra oportunidade de estar ali.

Nos encarapitamos pelas escadas circulares sem fim e o mais engraçado era que mesmo lá, eu era capaz de jurar que conseguia ouvir um coro de vozes cantando músicas brasileiras lá embaixo.

Não demorou muito pra que um grupo de turistas animados que estavam vindo de Roma nos alcançasse. Eles estavam completamente felizes por estarem em Paris e subiam as escadas cantando e rindo alto.
Quando nos alcançaram foram extremamente simpáticos. Nos disseram que foram massacrados pelo mau humor dos romanos e que estavam adorando Paris.

Após as escadas circulares, saímos num enorme salão com um pé direito muito alto, nele, uma exposição fixa sobre a construção do Arco.

Uma funcionária nos abordou pra responder um questionário em francês. A Gabis se prontificou a responder. Queria botar em uso as aulas de francês que está tendo.

Mais algumas escadas e atingimos o topo do Arco.
Que vista!
Que beleza de cidade se abriu aos nossos olhos.

O frio era intenso, mas dava pra ser dominado.
A Ju quase congelou, pois foi a única que esqueceu agasalho.

Vimos a Dama de Ferro pela primeira vez apontando para o céu.

Um prazer imenso invadiu e aqueceu o coração.

Um puta frio!

Para todos os lados que vc observa, lá estão as avenidas mais famosas de Paris, sempre bem arborizadas e com seus telhados cheios de chaminés.
As cores das folhas das árvores são um espetáculo a parte. Estamos no Outono!

Os caminhos são facilmente identificados pelas árvores que os cortam.

É como se a cidade pedisse permissão para coexistir entre as árvores.

Descemos das alturas para passear pela avenida mais famosa.
Caminhar pela Champs-Élysées é bem gostoso, mas não é muito mais magnífico do que passear pela Oscar Freire.
Sério, juro que não vi nada demais.
Grandes lojas, muito glamour, mas depois do tanto que passeamos por Londres, a Champs-Élysées realmente não me impressionou.

Em todos os momentos eu tentava reparar nas pessoas que passeavam/compravam por lá e elas eram normais.

Algo que me chamou a atenção:

Perdi-me numa loja inacreditável da Adidas, mas não havia nada lá que valesse meus euros. Tudo era muito caro e pouca coisa era exclusiva.
Gamei numa camisa oficial do time de futebol da casa. Ela era meio cor-de-rosa e tinha uma colagem interessante de imagens explodindo, mas seu preço não justificava seu real valor. Foi fácil deixá-la.

Andamos muito, muito, muito.

Os pés já não seguiam mais a cabeça.

Entrei no Petit Palais apenas para acompanhar os amigos, pois eu já não funcionava mais.

Doia dar um único passo e eu não tinha a menor idéia da onde eu estava, se demoraria pra chegarmos ao hotel… Eu não fazia a menor idéia.

Mal sabia eu que a noite estava apenas começando…

171- Fui

Hahaha… Família…
A vontade que eu tinha era levar todo mundo junto…

Tudo bem, eu vou puxando um de cada vez…
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Tá tudo pronto, não falta mais nada!
Até o cofrinho da minha mãe a gente quebrou!

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moedas

Meu Deus, quanta ansiedade.
Chega até a afundar o corpo.
É tanta coisa que nem os olhos aguentam… Parece que a visão tá fora de foco, que o dente dói, a garganta seca, a barriga ronca mesmo com comida dentro…
Caos total! Delícia pura.

Eu chamo isso de estar vivo! É indescritível.

Pois é, só fui conseguir meus euros e minhas libras hoje.
Depois de tanta confusão, desde ontem tentando resolver essas paradas, finalmente eles estão aqui e bem guardados.

Tudo separadinho.
As libras do albergue em Londres, os euros do hotel de Paris e do albergue em Veneza…
Na Suíça ficaremos hospedados na casa da Gabis e do Phil em Berna. Tratamento e acompanhamento VIP por toda rede ferroviária do belo país.
Em Roma já tá tudo certo.

Muito trabalho.
O meu sábado começou muito cedo com o aviso de que a Eletropaulo iria cortar a energia das 8hs30 até às 14hs30.
Deixei todas as baterias pra carregar na última hora…
Acordei muito cedo pra garantir o banho quente…
Terminei a lição de japa minutos antes de sair pro curso.
De lá, fui pro Shop. Paulista na casa de câmbio.

Good Save The Queen!

Libras

Até o dinheiro dos ingleses é mais charmoso que os euros da comunidade.

Cheguei em casa exausto e estou até agora ligado no 220v.
É incrível como este dia foi imensuravelmente cansativo.

O dia antes da viagem é sempre surreal.
Uma mistura de adrenalina com anestesia e olhos tensos…
Um frio na barriga que não cessa nunca. Uma canseira tão monstruosa…

Passei o dia todo flutuando.
Da hora que voltei do Shop., quase desmaiando no banco do metrô… Imaginando que daqui algumas horas eu estaria desmaiando no banco dos trens europeus…
Subindo a ladeira da Parada Inglesa com meus poderosos fones de ouvido, ouvindo o Top Ten London, Rome & Paris e me desenhando entre a Torre de Londres e o Coliseu…

Memory Stick, mapas, ipod, fones, protetor labial, tripé, cartões, boa caneta, agasalho, inspiração, pernas e boa companhia.
Amanhã vou arriscar uma missa pela manhã…
É engolir algo leve no almoço, agarrar os penduricalhos, separar a máscara para os olhos e ir para o aero.

10 minutos para o dia 4 de Outubro de 2009. Como sonhei com esse dia!

Eis que anuncio o começo oficial das minhas melhores férias.
Ouso dizer que esta será a primeira de uma série de grandes viagens fantásticas que irei fazer. Daquelas que sempre desejei e que agora ganham cor e sabor.

Como disseram há pouco pra mim, é bacana demais olhar pra tudo isso e compreender que cada parte desse sonho é resultado de uma coleção de sacrifícios pessoais. Por mais bacana que isso possa soar, é muito mais gostoso quando é fruto do nosso esforço.
Desejo isso pra todos que por aqui passarem, do fundo do meu coração.
Nada traz mais experiência de vida do que viajar pelo nosso planeta.

Estarei sem celular, mas resgatando meu email (joaoeliasdebrito@gmail.com).
Isso não quer dizer que não darei notícias.
Entre uma cidade a outra, entre uma estação de trem a outra, tentarei dar notícias.

Vou ficando por aqui, completamente esgotado, mas totalmente fora do corpo de tanta felicidade.

Fui.
E volto!

Ps1: Na busca pelo sagrado, nada pode dar errado!
Ps2: Gabis e Phil, nos encontramos em Paris!
Ps3: Até quando não há mais no que ajudar, vc encontra uma maneira de ajudar e faz toda a diferença! Muito obrigado!