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184- 09) Paris, Je Suis Brésilien

Chegar a cidade luz pelos trilhos é curioso e nada glamouroso.
Tudo o que vc vê ao entrar na França são subúrbios feios com muros e construções pichadas, edifícios velhos com pinturas descoladas e com suas sacadas cheias de roupas no varal…
Há uma escrachada falta de beleza nas ruas das cidades que margeiam a estrada de ferro…
Não há nada lá fora que seja muito interessante, não pelo menos ao redor dos trilhos.

Impressionante como uma vez que vc sai da escuridão do Eurotunnel pela região do Calais – norte da França, chegar em Paris é realmente muito prático e nada demorado.

Trens poderosos se mostram rasgando os trilhos ao lado na direção contrária e aos poucos, o desinteressante vai deixando de ser desinteressante.

Há uma certa bagunça bem brasileira nas ruas que vemos pipocar pela janela do trem.
Talvez essa observação se dê pelo fato de tudo ser irritantemente perfeito em Londres e estarmos vindo maravilhados demais de lá.
Por mais que a França seja um país de primeiro mundo, há muita distância entre essa impecabilidade urbana londrina, pelo menos nessas cidades que vi passar ao horizonte.

Consigo ler “Paris” nas primeiras placas ao alcance dos olhos próximo aos cruzamentos que cortam os trilhos do trem.
Sinto o poder desse nome de uma forma diferente.

É engraçado quando o nome de um lugar deixa os livros de História e as revistas de turismo para se tornar mais do que isso.
O nome passa a identificar o bilhete aéreo, o portão de embarque no aeroporto, o destino do trem, uma simples placa para a próxima cidade…

Chegamos em Paris.

O trem parou na Gare du Nord pontualmente.

Não deu tempo nem de amassar a roupa do corpo, a viagem fora extremamente confortável e relaxante.
Na hora eu percebi que havia feito a melhor escolha: viajar por todos esses lugares de trem iria valer muito a pena.
Se o Eurostar, o único trem em classe econômica que pegaríamos havia nos proporcionado viagem tão maravilhosa, os outros trens em primeira classe iriam ser simplesmente perfeitos.

Mesmo descansados, saímos do trem com aquele frio na barriga por chegar em uma cidade famosa, mas completamente nova.

A cidade de Londres já estava presa ao nosso passado, já era sonho sonhado.
Ainda estava fresca em nossas mentes, mas agora não era nada além de boas experiências vividas e grandes lembranças.

Chegamos mesmo a esquecer de que encontraríamos nossos amigos suíços.

(Eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho… Mas eu vim de lá pequenininho. Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho…).

Foi como eu me senti ao deixar aquele trem.
Nunca me senti tão pequeno.

A Ju já havia superado a London Eye. Estava maior que eu.

Eu estava realmente preocupado apesar de bastante descansado.

Ainda perturbados em como iríamos sobreviver sem muito francês numa cidade que se recusa a falar inglês, estudamos o gigantesco espaço da nova estação e respiramos fundo antes de deslizarmos nossas pesadas malas pelo solo francês.

No momento em que me lembrei de que iríamos encontrar nossos amigos, comecei a ficar bastante inquieto.
Até então, não havíamos conseguido nos comunicar com eles.
Constatei também que a mala mais pesada já não estava mais 100% segura. A rodinha traseira já não girava mais como antes. Iríamos ter problemas com toda a certeza e o fato de não saber para onde ir não estava ajudando muito.

O bom em se viajar com alguém de confiança, é exatamente poder se desligar um pouco e relaxar. E foi o que fiz, tentei pensar como turista e não como estrategista.
Não estávamos em nenhuma corrida milionária. Havia tempo para respirar fundo.

A primeira coisa que fizemos foi buscar um guichê de informações turísticas.
Fomos bastante receosos ao fazê-lo, porque o tratamento rude parisiense era esperado. Poderia vir já na primeira consulta ou demorar um pouco mais, mas uma coisa era certa, ele viria.

Nossa abordagem para com o primeiro atendente turístico foi à francesa, nossa simpatia à brasileira e acho que esse foi o segredo para que o tratamento rude parisiense não nos atingisse durante toda a nossa passagem pela cidade luz.
Abordávamos as pessoas num francês tímido, apresentávamo-nos como brasileiros deslumbrados e só então usávamos um inglês suave. Funcionou em todos os lugares.

Compramos o bilhete para o metrô e nem nos surpreendemos com o tamanho do sistema metroviário de Paris, já estávamos completamente acostumados com o tamanho e a agradável confusão do metrô londrino.

Gare du Nord, Gare de l’Est, Château d’Eau e finalmente Strasbourg Saint-Denis, a nossa estação.

Desembarcamos no meio de um filme francês.
Aquelas típicas ruazinhas com seus bistrôs bonitinhos, senhores velhinhos jogando e esperando a tarde passar, cafés preguiçosos espalhados caprichosamente nas esquinas, restaurantes enfeitados com suas lousinhas numa caligrafia bem escrita anunciando o prato do dia…
O sol e a cortina de uma garoa cheia de bossa nos saudaram ao mesmo tempo. Cheguei a sentir um pouco de calor.

Sim, havia aqueles senhores que dominavam a saída das estações do metrô e que lhe abordavam sem a menor educação (bem parecido com Lisboa), mas fora isso, todo o resto era muito cinematográfico.

Não havia aquela beleza londrina que encontramos nas ruas mais comuns de Londres, mas havia uma poesia típica que o mundo conhece muito bem e que nasceu aqui mesmo nessas ruas comuns de Paris.
Foi então que compreendi que realmente precisaria me desligar de Londres para aproveitar Paris.

Percorrer essas ruas foi um enorme prazer.
Bom, o prazer não durou muito, pois a rodinha filha da puta da mala deu “piti” e morreu muito antes de encontrarmos a rua do nosso hotel. Ela despirocou da mala, engasgou, deu um giro sobrenatural e a cena foi estrondosa. A pesada mala virou de cabeça pra baixo e o puxador quebrou-se como se fosse feito de isopor.

O filme francês se transformou em cena de férias frustradas americanas.
A mala bailou para um mergulho mortal e os parisienses sofisticados riram com muita elegância.

Alguns senhores, ainda assim, tentaram nos ajudar.
A gente ficou com um pouco de vergonha, talvez isso explique a enorme onda de calor que eu senti, mas o mais embaraçoso não era se curvar para transportar aquela “geladeira” de três rodinhas. O fato mais chato foi passar com ela, umas três vezes pelo menos procurando o caminho… Hehehe…

Como estávamos vindo carregados de Londres com outras mochilas, com sacolas de compras e a mala menor, empurrar a dita cuja por aquelas ruas de paralelepípedos foi uma prova de força e resistência.

Nem sei como finalmente encontramos a rua do nosso hotel, mas a única coisa que me lembro bem foi de ver a Gabis e o Phil esperando por nós com sorriso de orelha à orelha.

Encontrá-los foi maravilhoso.
Não deu tempo nem de me sentir envergonhado.

Foi o tempo de fazer o check in, passar uma água no rosto e sair pra saborear a cidade.

A Gabis eu já conhecia há tempos, é amiga de faculdade da minha irmã e freqüentava minha casa.
O Phil eu só conhecia através do Skype, nas longas conferências que tivemos pra discutir os preparativos da viagem, meses antes.

Os dois se conheceram aqui em São Paulo e o amor foi à primeira vista.
Eles casaram e foram pra Suíça onde vivem desde então.
A Gabis sempre chamava a Ju pra ir visitá-la, mas nunca dava pra conciliar as férias latinas com as férias européias.
Foi quando resolvi ir à Europa.
A idéia original nasceu como uma viagem solitária de uma semana nos arredores de Paris, nesse meio tempo convenci a irmã a me acompanhar e acabamos incluíndo Londres, Suíça e finalmente a Itália.

Bastou o casal saber que incluiríamos a Suíça na nossa Eurotrip para nos oferecer hospedagem.
Já estávamos felizes demais com esse presente, ficamos mais ainda quando eles disseram que nos encontrariam em Paris.

E lá estavam eles como prometeram.
Hospedaram-se no mesmo hotel, ficariam com a gente por toda nossa passagem pela cidade luz.

Fomos andando até a Gare du Nord e descobrimos como a nossa estação Strasbourg era muito bem localizada.
Comemos um sanduba de fondue (exótico) e nos perdemos por ruas charmosas.

Havia muito tempo que as amigas não se encontravam pessoalmente, então dá pra imaginar que assunto entre elas não faltou.
Eu por outro lado, não tinha qualquer intimidade com o suíço, mas se olhassem de longe, não dava pra dizer quem falava mais com quem, se os meninos ou as meninas.

A amizade foi instantânea e a admiração também. O Phil, como eu suspeitava, se mostrou uma pessoa incrível.
Por mais que eu não tivesse qualquer vínculo com o guri, ele era um eterno apaixonado pelo Brasil e eu pelo país dele. Isso já era suficiente para que não faltasse assunto.

O forte sotaque não impedia o suíço de nos humilhar com o seu fluente português.
Povo suíço já nasce falando três línguas! Gente inteligente do caramba.

Oras falávamos em português e na maioria das vezes em inglês, porque ainda há coisas que funcionam melhor no idioma universal.

O Phil já havia morado um tempo em São Paulo e aprendeu o português só de ficar entre os paulistas.
Já casado, na Suíça, tudo o que ele teve de estímulo foram as conversações com a Gabis, ou seja, o cara mandava muito bem.

E enquanto andávamos sem destino certo, conversávamos e ríamos.
Então nos tocamos de que estávamos andando sem rumo e como o Phil era o único que já conhecia Paris e falava fluente o francês, ele nos guiou até à Champs-Élysées.

E lá estávamos na avenida mais famosa de Paris.
Fomos presenteados com trilha sonora bem brasileira, numa roda de capoeira logo ali ao lado.

O primeiro cartão postal não demorou para aparecer.

O Arco do Triunfo surgiu na nossa frente.

Esse lugar é tão bem localizado.
Ele está situado no centro da praça Charles de Gaulle, de onde partem as doze principais avenidas da cidade.

A praça e suas doze avenidas formam uma estrela, une Etoile.
E é do alto do Arco que temos a visão desta formação que torna o trânsito absolutamente caótico.

O monumento construído em comemoração às vitórias militares de Napoleão Bonaparte, teve sua construção em 1806 e sua inauguração em 1836.
A monumental obra detém, gravados, os nomes de 128 batalhas e 558 generais.

Decidimos ali mesmo subir o Arco.
Por mais fechado que o tempo estivesse, provavelmente não teríamos outra oportunidade de estar ali.

Nos encarapitamos pelas escadas circulares sem fim e o mais engraçado era que mesmo lá, eu era capaz de jurar que conseguia ouvir um coro de vozes cantando músicas brasileiras lá embaixo.

Não demorou muito pra que um grupo de turistas animados que estavam vindo de Roma nos alcançasse. Eles estavam completamente felizes por estarem em Paris e subiam as escadas cantando e rindo alto.
Quando nos alcançaram foram extremamente simpáticos. Nos disseram que foram massacrados pelo mau humor dos romanos e que estavam adorando Paris.

Após as escadas circulares, saímos num enorme salão com um pé direito muito alto, nele, uma exposição fixa sobre a construção do Arco.

Uma funcionária nos abordou pra responder um questionário em francês. A Gabis se prontificou a responder. Queria botar em uso as aulas de francês que está tendo.

Mais algumas escadas e atingimos o topo do Arco.
Que vista!
Que beleza de cidade se abriu aos nossos olhos.

O frio era intenso, mas dava pra ser dominado.
A Ju quase congelou, pois foi a única que esqueceu agasalho.

Vimos a Dama de Ferro pela primeira vez apontando para o céu.

Um prazer imenso invadiu e aqueceu o coração.

Um puta frio!

Para todos os lados que vc observa, lá estão as avenidas mais famosas de Paris, sempre bem arborizadas e com seus telhados cheios de chaminés.
As cores das folhas das árvores são um espetáculo a parte. Estamos no Outono!

Os caminhos são facilmente identificados pelas árvores que os cortam.

É como se a cidade pedisse permissão para coexistir entre as árvores.

Descemos das alturas para passear pela avenida mais famosa.
Caminhar pela Champs-Élysées é bem gostoso, mas não é muito mais magnífico do que passear pela Oscar Freire.
Sério, juro que não vi nada demais.
Grandes lojas, muito glamour, mas depois do tanto que passeamos por Londres, a Champs-Élysées realmente não me impressionou.

Em todos os momentos eu tentava reparar nas pessoas que passeavam/compravam por lá e elas eram normais.

Algo que me chamou a atenção:

Perdi-me numa loja inacreditável da Adidas, mas não havia nada lá que valesse meus euros. Tudo era muito caro e pouca coisa era exclusiva.
Gamei numa camisa oficial do time de futebol da casa. Ela era meio cor-de-rosa e tinha uma colagem interessante de imagens explodindo, mas seu preço não justificava seu real valor. Foi fácil deixá-la.

Andamos muito, muito, muito.

Os pés já não seguiam mais a cabeça.

Entrei no Petit Palais apenas para acompanhar os amigos, pois eu já não funcionava mais.

Doia dar um único passo e eu não tinha a menor idéia da onde eu estava, se demoraria pra chegarmos ao hotel… Eu não fazia a menor idéia.

Mal sabia eu que a noite estava apenas começando…

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183- 08) London Paris

O despertador tocou bem cedo.

A noite anterior havia terminado bem tarde.
Em meio a preocupação de fazer o menor ruído possível para as pessoas do andar debaixo, socando compras desprogramadas malas adentro, adormecemos na metade da madrugada.

Acordar no último dia londrino preencheu meu coração com uma confusão sem solução.
A vontade de viver ali para sempre, contrastava com o desejo de chegar logo a Paris e continuar a Eurotrip que estava apenas começando.

Ainda com cara de sono, registramos um pouco do nosso belo quartinho no Astor Hyde Park e descemos para um rápido café da manhã.

O próximo passo foi voltar ao quarto e carregar as benditas malas escadaria abaixo.
As velhas escadas rangiam com o peso das inacreditáveis malas.
Desci com muito cuidado.

Vai ser difícil esquecer aquela nossa entradinha VIP:

Fizemos o check out rapidamente.
A Brooke não estava. Deixamos um abraço pra ela, agradecemos a australiana que a substituia e nos despedimos do impecável hostel.
Olhar aquele corredor com aqueles guarda-chuvas ainda secando, novos hóspedes chegando…

Por mais que estivéssemos ali, respirando aquele ar geladinho e caminhando naquelas ruas reais, era certo que demoraríamos um bocado para estar ali novamente e infelizmente, neste momento, era tudo o que eu podia pensar.

Adeus, Astor Hyde Park.
Voltamos em 2012 para os jogos olímpicos.

Caminhamos pela nossa linda avenida sob um sol amarelinho, envergonhado…
As pessoas já passavam por nós para irem trabalhar, os estudantes caminhavam em grupos para suas escolas, mamães empurravam lindos carrinhos de bebê…

A vontade de fazer parte daquilo tudo era muito forte e machucava um pouco.
Uma sensação de querer ficar, de construir alguma relação com aquilo tudo se deu em mim.

Se eu estava assim, minha irmã estava elevada à décima potência.
Ela formulava planos enquanto empurrava a mala – que já apresentava problemas na rodinha traseira: “-Se conseguirmos mudar o trem para um horário mais tarde, podemos ficar passeando o resto do dia, não me importo de sacrificar Paris”.

Eu sabia que ela queria subir a London Eye.
Ok. Poderíamos tentar mudar o horário, mas por se tratar do Eurostar, fiquei pouco otimista.

Tomamos o metrô até a linda St. Pancras.
Carregar as malas pesadas pelo metrô de Londres, mais uma mochila nas costas e uma bolsa lateral não é muito legal.
Em algumas baldeações, há grandes corredores subterrâneos para se percorrer. As estações londrinas são verdadeiros labirintos. Anda-se demais por elas. Estar carregado com malas torna a coisa quase surreal. Há caminhos que não possuem escadas rolantes ou elevadores e vc precisa literalmente ter muque.

A estação St. Pancras é um lugar difícil de descrever.
Organizada e confusa, cheia de vida, de risos e sorrisos.
Viajantes de todas as partes do mundo se reunem para continuarem suas aventuras.
Dá pra se ouvir um idioma diferente a cada dez passos.

Lá encontramos o guichê do Eurostar, localizamos o primeiro atendente disponível e com muita dificuldade, tentamos explicar-lhe britanicamente a nossa situação.
Depois de muitos phrasal verbs mal colocados, o atendente pede nosso passaporte e vê que somos brasileiros.
Hahaha… Na hora, ele mudou o idioma!

Foi então que o simpático brasileiro nos atualizou de como poderíamos conseguir mudar nosso horário. Não seria fácil, mas era possível.
De qualquer forma, precisaríamos pegar uma outra fila e falar com um outro atendente, que provavelmente não usaria o português como língua comum.

Num primeiro momento até vi faíscas saltarem dos olhos da Jú, mas logo depois o outro atendente veio com a confirmação de que não seria possível fazer a mudança.

Voltamos um pouco cabisbaixos para a fila do atendente brasuca, mas eu tratei logo de lembrar a irmã de que a cidade luz esperava por nós.
Ora bolas! Não podemos nos apegar tanto assim por uma cidade!
É apenas primeira! Faltam tantas outras!

E foi com esse pensamento que nos deslumbramos com a explosão de viajantes no galpão de espera da St. Pancras.
A variedade de pessoas bem humoradas era tão colorida que era impossível não se empolgar.

Havia um dúzia de tiazinhas com cabelos brancos, com carinhas de rainha da Inglaterra que pareciam crianças em sua primeira excursão escolar.
Velhões de barba branca com aspecto de Dom ou Sir, sérios em seus pensamentos nublados e suas malas centenárias…
Jovens com mochilas esquisitas, crianças bem comportadas vestidas como pequenos príncipes e princesas, ingleses indo, franceses vindo…
Havia também alguns brasileiros metidos… Mas esses, a gente fez questão de evitar.

Faltava pouco para deixarmos Londres.
Nosso trem já havia parado na plataforma.
Não tardou muito para se formar uma bonita fila.

Estávamos um pouco receosos de como seria passar pelos policiais da imigração francesa ao sair de Londres.
Novamente deixamos a pastinha de documentos ao alcance das mãos…
Não nos pediram mais que nossos passaportes e nossos tickets…

Foi muito sossegado.
Os funcionários da Eurostar tem uma educação impecável, mesmo o pessoal da imigração.
O processo foi muito rápido.

Como já tínhamos passado pela vistoria em Zurique, na Suíça (onde a Jú teve que descalçar literalmente suas botas) e no desembarque de Londres (simpático e caloroso), já tínhamos um pouco de experiência do que esperar, de como se portar e do que levar nas bagagens de mão para evitar atrasos e constrangimentos.

Bagagem de mão pela esteira do Raio X e as pesadas malas por outra vistoria (muito mal feita).
Em poucos minutos estávamos subindo à plataforma.

Ver aqueles velozes trens descansando suas modernas carcaças sob aquela estrutura de aço, por onde vazavam os primeiros raios de um dia promissor de muito sol, causou frio na barriga.
Aquela sensação boa que antecede uma viagem fantástica estava agora se revirando dentro minha barriga.

Ver um bichão daqueles parado numa plataforma tão deslumbrante como aquela era o presente de despedida mais singular que poderíamos receber de Londres.

Não foi muito difícil encontrar nosso vagão.
Que divertido fazer esse procura.

É como nos filmes.
Tudo é muito cinematográfico.

Por mais simples que sejamos, não há como não se sentir especial.
Vc está prestes a embarcar numa jornada que tem como estrada uma das sete maravilhas do mundo moderno da engenharia.
Por mais tapado que vc possa ser, por menos informação sobre isso que vc possa ter, tudo é muito futurista e cheio de rituais.

Não há como não se sentir bem, importante ou parte de algo grandioso.
É como embarcar num portal dimensional. Cá estamos em Londres, já já em Paris.

O medo que invade o corpo momentos antes de embarcar num carrinho de uma montanha-russa é o mesmo que antecede embarcar num trem que irá cruzar parte do oceano.
Imaginar este belo trem abaixo do fundo do mar é no mínimo um exercício de ficção científica real. É surreal!

Pensando tudo isso, seguimos até o nariz do Eurostar.

Para minha surpresa, vi que ali, na superfície daquele nariz, vários passarinhos, mariposas, morcegos e outros insetos e bichos de pequeno porte voadores haviam sido simplesmente massacrados.
As manchas de sangue eram bem visíveis e transformavam a frente do trem numa tela impressionista com explosivas manchas vermelhas.
Pobres voadores. Não havia a menor chance de sucesso cruzar o caminho daquele trem.

Só após estudarmos muito, entramos no Eurostar.

O Eurostar era o único trem que pegaríamos na classe econômica.
Fiquei pensando como deveria ser a primeira classe, já que a classe econômica era simplesmente perfeita para nós.

Colocamos nossas pesadas malas numa área reservada próximo a entrada do nosso vagão, ultrapassamos as portas automáticas e encontramos o conforto de nossas largas poltronas.

O trem não atrasou a partida nem por um segundo. Pontualidade britânica!

Ele simplesmente começou a andar sem que percebêssemos.
Ficou por um bom tempo andando muito muito devagar e então foi ganhando velocidade delicadamente.

Fomos deixando o centro de Londres enquanto um sol quente fazia fusquinha pra gente através do vidro.
Londres ia ficando pra trás…
Toda aquela aventura ia ficando pra trás…

No Ipod, dois fones compartilhados. Ainda dá pra se ouvir o tema de Londres que acompanhou-nos por toda a nossa passagem pela terra da rainha. We are in London by Pet Shop Boys.

Na lista de músicas, as canções mais tocadas pela principal rádio Londrina. Air (banda francesa de eletrônico atmosférico) era Top 10. Sempre que ouvir essas músicas me lembrarei desse trecho da viagem.

No horizonte, olhando através da janela, novas aventuras se mostravam…
Os olhos tentavam enxergar além dos trilhos, mas éramos engolidos por túneis e mais túneis. Nossos ouvidos sofriam com a forte pressão, mesmo na superfície. E ficamos assim, de túneis em túneis até sermos devorados pela escuridão profunda do verdadeiro túnel que atravessa o Canal da Mancha, o Eurotunnel.

O aumento de velocidade era um processo muito vagaroso.
A mudança era quase que imperceptível.
Foi quando percebemos que estávamos a quase 300 km/h.

O conforto é o ponto alto.
Não há movimentos bruscos. O trem flutua pelo trilho.

O Eurotunnel é escuro e silencioso.
O trem vibra muito pouco e o serviço de bordo é fabuloso.
Além dos croissant franceses mais delicados de toda a Eurotrip, revezamo-nos um de cada vez, uma visita ao vagão restaurante.
Lá, conversei muito com um francesinho tagarela que me serviu mais um croissant e me mostrou um rápido panorama cultural sobre a Paris que estávamos a descobrir.
Ele era muito divertido e eu fiz bem em gastar meu pobre francês com ele.
Na volta, trouxe algumas batatas e uma Coca pra Jú.

A escuridão e o silêncio do túnel provocavam a ausência de paisagem, a falta de uma atmosfera.
A claustrofobia era dominante.
Nesse momento, a Inglaterra foi ficando pra trás, tornando-se lembrança recente, adquirindo seu espaço físico dentro dos compartimentos do meu cérebro.

A falta da luz e do som transformam-se em reflexão.
A velocidade é a única arma que distorce a claustrofobia.

London Paris pra mim sempre fora um EP do Pizzicato Five.
Agora era muito mais que isso.