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18- Santa Cruz de Tenerife “Ilhas Canárias” (Espanha)

Sair de um paraíso e cair em outro é típico nessas ilhas do Atlântico.

Ir dormir na Itália, acordar na Espanha, almoçar em Portugal, jantar no Reino Unido…
As coisas não pareciam mágicas, elas realmente eram!

Essa era a parte boa.
Por mais rápido que fosse passar por todos esses lugares maravilhosos, por mais sozinho que eu estivesse, bastava pisar o pé nessas terras para poder flutuar.

O trabalho, de forma alguma não era a pior parte da minha vida a bordo. Não era a melhor, mas nem de longe era o pior pesadelo.

O pior pesadelo era o meu horário maluco de trabalho, das 7hs às quase 23hs.
O que nos foi proposto é que apesar do trabalho duro e de ter a certeza de nunca ter um dia inteiro de folga, teríamos um horário justo e a oportunidade de descer e conhecer os lugares.
O contrato dizia que se meu turno fosse do dia, eu trabalharia do meio-dia à meia-noite; se meu turno fosse da noite, eu trabalharia da meia-noite ao meio-dia.

Era um pouco frustrante ver os amigos trabalhando 3x menos e tendo 3x mais tempo pra curtir as cidades.
Talvez o fato de ter sido o único Pool Atendent brasileiro fizesse minha voz não ser ouvida.
Meu chefe não era ruim, mas pouco se importava se o meu horário maluco de trabalho era injusto.

Tentei de tudo para conseguir conciliar meu horário com os demais brasileiros. Tentei explicar o que me foi proposto, levei o contrato, fui atrás de supervisor do supervisor… Quanto mais tentava, mais compreendi que ninguém me ouvia.

Por outro lado, a vida a bordo tem suas vantagens.
Uma vez que vc se adapte ao trabalho, ao balanço do navio, a comida do refeitório, a dor no corpo, ao surto de diarréia, as máfias, aos trotes dos veteranos, ao pouco caso dos bam bam bans e a insegurança que é cada dia mais evidente, vc descobre que o que pega mesmo é o tal do Crewbar.
A vida para quem gosta de fumar, beber e pular de galho em galho é nota mil.
Como eu não fumava, não bebia e não era tão “dado” assim, a melhor parte da vida confinada pra mim, foram as amizades.
Num lugar tão maluco quanto este, onde a maioria das pessoas não estão nem æ para as outras (não pelo fato de elas serem más ou insensíveis – tirando a guria do bico – mas por realmente não haver tempo nem para olhar pro lado), ainda assim eu encontrei pessoas formidáveis, que apesar de tantas atribulações, se preocupavam com a gente.
Tirando a guria do bico (a única fingida falsa) e dois ou três caras de bunda, as pessoas que eu conheci, digo, as pessoas que eu cativei e as que manterei contato a minha vida inteira, foram a parte mais compensadora dessa vida.

Várias pessoas me salvaram.
Os meus queridos “anjos”.
Mas vários desses anjos eu acabei não conseguindo fotografar. Minha câmera me pregava várias peças.

A Dany era coisa de louco, sorriso de orelha a orelha. Salvou-me em várias situações com seu alto astral. Seu abraço era reconfortante e vinha sempre no momento certo. Ela se preocupou comigo desde o dia que eu entrei no navio até o dia que eu sai. No dia que ela vestiu seu uniforme oficial todo branco, ela se tornou mais angelical do que já era. Nesse dia ela se tornou irresistível! Não havia um único ser humano que não pagasse pau pra guria. Não posso esquecer que ela foi quem começou a vender e comprar minhas ilustrações vetoriais lá no navio.
O Breno sempre foi muito bacana comigo, mas quando eu recusei o pedido dele, pois ele queria que eu me mudasse pra cabine dele, ele nunca mais foi o mesmo.
O Vinícius “capoeira” foi o amigo mais nobre. Ajudou-me, certa noite, a mandar um sinal de vida para meus pais, enquanto todos os outros evitavam ensinar o procedimento. Nunca mais o perdi de vista. O esportista também era designer, e uma vez que ele conferiu meus trabalhos e ilustrações, nos tornamos fãs um do outro. Eu, dele, por sua amizade impecável; ele, meu, pelos meus trabalhos e deslumbramento para com tudo ao meu redor. Sempre nos encontrávamos no Crewbar pra bater longos papos e escrever os emails diários.
Meus amigos indonesianos eram todos boa gente: o meu roommate, Lanang (tatoo no braço) era educadíssimo, um pouco barulhento, mas totalmente confiável e extremamente atencioso. Por essas e outras que mudar de cabine e trocar de roommate estava totalmente fora de questão.
E tinha aqueles anjos que a gente não sabia nome, muito menos função. Aqueles que a gente encontrava uma única vez, como o caso dos aniversariantes. Pessoas realmente que engrandecem qualquer ambiente. Alguns eram tão angelicais (independente de posição, grupo ou nacionalidade) que dividiam o próprio bolo de aniversário com a gente:

As festinhas do Crewbar também eram uma boa oportunidade pra encontrar os queridos que a gente via pouco e conhecer os que a gente não conhecia.
A mineirinha Michele do spa e meu querido Agus vão morar no meu coração até o fim dos meus dias.
Alisson e sua cervejinha na mão, quase não conseguia conversar de tanta canseira…
A italiana gordinha da padaria que trazia os doces mais gostosos do mundo, me ensinava italiano, a italiana egípcia que falava fluente mais de seis línguas se apaixonou pelo meu portifólio, a sempre Dany que estava em todas e o alto astral do Thiago:

O professor de português da tripulação era o cara mais literário do mundo. Apesar da pouca idade, o guri era um desses prodígios. Mineirinho como a Michele, eles eram a simpatia e a alegria. Professor a bordo tinha certas prioridades, horas de internet, notebook, salinha de aula… Era ele quem salvava meus cliques no pen drive…
O Adaucto era o guri do restaurante, sempre presente no deck da piscina:

Os amigos eram fantásticos.
Claro que não dava pra decorar o nome de todos, mas tenho cada um deles registrados na minha mente: a anja baiana que me guiou pelo labirinto que eram os corredores do navio no meu primeiro dia, a japonesa com a tatoo de sakurá no braço que literalmente iluminou o meu caminho, a Beatriz, a cabinista que me pegou pela mão e me levou até sua cabine para compartilhar os brownies de chocolate, o italiano dos olhos claros que não falava nem inglês e se interessou pelos meus vetores, os peruanos que contavam histórias mágicas de Machu Pichu, as filipinas do bar que me contavam suas histórias de vida, o povo da animação que comprou meus vetores, o banho que eu tomei na cabine de um por estar com meu chuveiro quebrado, as frutas que as indonesianas dos restaurantes me davam, os sucos que as búlgaras da cozinha me abriam…
Isso sem falar no pessoal do shopping, as minhas meninas queridas, o romeno brasuca, as tiazonas italianudas do spa, o maluco do Safety Officer, os carinhas incompreendidos do Crew Office, o acessível Enviroment Officer…

Mas lá estava eu em Tenerife.
O navio iria partir muito cedo. Novamente aquela minha folga no meio da tarde não serviria para nada.
Sacrifiquei meu almoço! Quem precisa almoçar com aqueles meus queridos amigos indonesianos guardando alguma coisa pra mim?

Desci naquele paraíso no meio do Atlântico e quase caí pra trás! Coisa linda!
As montanhas pareciam desérticas, o mar era tão profundo e azul que dava até vertigem. O céu, invejoso que só ele, competia com o azul do mar.
Ao fundo, o melhor lugar que se podia imaginar para comprar eletrônicos. Dizem que nem em Miami é assim. As taxas aqui inexistiam:

Aproveitei minha uma hora e voei.
Não daria pra fazer muita coisa. Dinheiro eu não tinha, tempo eu não dispunha, mas eu iria andar até onde pudesse. Pelo menos encontrar uma lan house, comprar um postal… (doce engano)…
O Victoria estava sendo abastecido:

Eu estava registrando a fila de navios, quando um grupo de passageiros brasileiros me abordou:

O porto estava apinhado de pessoas do mundo todo e eu estava de costas para o grupo. Nem havia percebido que era comigo.
Os brasileiros (cada um carregando duas caixas de Sony Vaio), pararam apenas para bater esta foto de mim:

Esse era o poder de ser reconhecido fora do navio. Ainda mais por brasileiros. Era sempre uma demonstração de carinho.

Por estarem com pressa (estavam voltando ao navio pra deixarem os laptops e correr de novo a cidade para comprar mais), nem deu tempo de tirar uma foto com eles, mas depois eu os encontraria no navio (doce engano…). Eles me disseram para subir as escadas lá no final do porto e contemplar o mar, que com uma hora apenas não daria tempo de ir até o centro da cidade e voltar para o navio.

Continuei meu caminho até a ponta da tal escada:

Tenerife pra mim seria apenas o porto.
Podia parecer triste, mas ao subir a tal escada que os brasileiros haviam me indicado, não desejei mais nada:

Fiquei bestificado com a beleza do mar.
O barulho da arrebentação me hipnotizou.
Fiquei parado, eletrocutado, encantado.

Pensei em casa, nos amigos, na minha avó.
Como era incrível poder ser levado para esses lugares inacreditáveis, mas como era duro ter apenas a embalagem desses lugares.

Tirar fotos sozinho já era difícil, tirar boas fotos sozinho então, era mais difícil ainda.
Acho que tive muita sorte com as fotos.
A máquina estava com algum tipo de conflito com a bateria, que mesmo cheia e carregada, durava apenas 10 cliques.
Eu ligava o temporizador, corria pra foto e a câmera se desligava…
Sinceramente não sei como consegui bater tanta foto bacana:

Por mais que eu pudesse ser levado para lugares lindos como esse, mais e mais eu percebia as coisas sobre outra forma.
Quanto mais eu tentava me convencer que esses lugares maravilhosos bastavam para tentar apagar as promessas esquecidas que nos foram prometidas, mais eu me convencia de que esse não era o jeito correto de se fazer as coisas.
Estava muito pensativo, porém calmo. Eu precisava aproveitar as coisas e cuidar de mim. Eu precisava encontrar a felicidade, onde ela estivesse. Afinal de contas, eu já tinha me decidido:

Só foi o tempo de correr até o vermelhinho, bater esta foto e voltar para o navio:

O Victoria partiu imediatamente. Começou a contornar a fila de navios:

Nessa hora os navios se dão adeus. É a coisa mais linda do mundo.
Oficiais, tripulantes e passageiros se juntam nas sacadas e varandas para acenar.
Encontrei outra shopgirl perdida por lá:

Ver as pessoas dando tchau pra nós é inexplicável. Não dá pra não se emocionar com isso:

O capitão rompe o silêncio com um apito longo e grave. A emoção queima nossos corações e o som nos faz vibrar por dentro:

De repente, os navios respondem com seus apitos em uníssono. A emoção se multiplica:

A gente ultrapassa o gigantão:

E assim, deixamos Tenerife rumo a Mindelo (Cabo Verde – África), a última parada antes de dar início ao Crossing (Travessia Transatlântica).

14- Savona (Itália) – Málaga (Espanha)

Dry Dock é o nome que se dá para o período de manutenção de um navio. É quando ele fica no estaleiro, completamente sem água, pra reparos, reformas, revisão…
Geralmente trabalha-se muito nesse período, pois o navio literalmente troca de pele.

Cheguei no Victoria em dia de Dry Dock. Encontrei o navio sendo lixado, pintado, montado, arrumado, encarpetado, polido…

Dizem os tripulantes que Dry Dock é prova de fogo.
Para eu e meus amigos que caímos de pára-quedas lá no navio, Dry Dock ou não, tudo já era um grande desafio.

O primeiro dia ainda estava longe de terminar.
Os olhos já não funcionavam direito, o corpo já não respondia.

Sem descanso, encontrei o 6º deck e fui apresentado para a minha equipe de trabalho. Uns dez indonesianos marombados me mediram com seus olhares distantes. Meu chefe, um indiano com o sotaque mais incompreensível do mundo me deu as boas vindas.
Toda noite após finalizar o trabalho, esticávamos nossos corpos nas cadeiras confortáveis do spa esperando o chefe trazer a lista de assinaturas. Eu e meus amigos literalmente desmontávamos nas cadeiras:

Essas fotos retratam a grande amizade que esses queridos indonesianos tinham por mim. No começo eu fiquei bem receoso. A minha primeira experiência com limpeza foi um desastre. Fomos todos fazer o setup da recepção. Um mundo de cadeiras e mesas precisavam ser libertadas de seus plásticos protetores. O silêncio imperava no ambiente. Fizemos esse trabalho nas próximas duas horas e então nos reunimos com o chefe novamente.
Fiquei sabendo que ajudaria um dos indonesianos no spa e na academia. Mal sabia eu que essa seria a minha rotina diária na parte da noite:

Pasek foi o primeiro indonesiano a falar comigo.
Lembro-me do meu pânico. Eu evitava ficar no mesmo ambiente que o amigo, com medo que ele puxasse assunto.
Por mais que eu não conseguisse me expressar, com o passar dos dias a comunicação se torna mais fácil.
Bastaram apenas alguns dias para que eu entendesse a magnitude desses indonesianos na minha vida.
Felizmente eu tenho uma sorte incrível com amigos. O Pasek foi um irmão. Ensinou-me o serviço, me contou histórias da sua distante Bali… Falava com tanta calma que era possível entendê-lo perfeitamente:

Com o passar dos dias, pude perceber que os outros nove indonesianos tinham a mesma luz do Pasek.
Aquela primeira impressão que eu tive deles na primeira reunião, de serem caras durões, impessoais e que não se importariam comigo me surpreendeu.
Todos eles eram incríveis professores, todos eles tinham essa calma ao falar. Eu os compreendia e eles me compreendiam.

E esses foram os meus companheiros nessa árdua jornada.
Aprendi tudo com esses pequenos príncipes. Se por um lado eu perdi pela falta de brasileiros, do outro lado eu ganhei pelo excesso de gentilezas, de atenção, disposição e paciência. Sem contar que dias depois, eu já estava contando minhas histórias em inglês.

O trabalho era muito árduo e era difícil eu acompanhar os guris. O mais fraquinho entre eles tinha um muque de fazer inveja para pitboy nenhum botar defeito.

Uma vez que eu me propus a fazer esse tipo de trabalho, e isso eu tinha bem definido pra mim, eu era capaz de fazer de tudo.
Claro que no final do dia eu era só o pó da rabiola, mas se meus amigos me conquistaram pela gentileza, eu os conquistei pelo meu trabalho.

Por mais difícil que fosse lavar as mil cadeiras de sol, varrer todo o convés, polir o infinito corrimão do deck principal, lavar todas as jacuzzis, cobrir as piscinas, enrolar, distribuir e coletar as milhares de toalhas, montar as mesas, carregar cadeiras, limpar os equipamentos da academia, lavar parede, remover os restos de carpete, lavar as sacadas de todas as cabines superiores, limpar cinzeiros, jogar lixo nas caçambas, preparar os produtos de limpeza, fazer o setup das áreas das piscinas… Eu conseguia sorrir no final do dia.
O trabalho nunca foi problema, pelo contrário, ele sempre foi a solução. Ele era tão intenso que te destruía de uma forma, que bastava deitar na cama para adormecer num sono profundo acordando apenas no outro dia.

Ainda estávamos em Dry Dock. O navio ainda estava paradinho, paradinho e eu já me sentia enjoado.
Nos meus horários de folga eu tentava me adaptar a rotina do tripulante.
A todo instante eu olhava pelas janelinhas do navio para ver se eles estavam enchendo de água o Dry Dock.
Eu estava doido para dar notícias para meus pais, mas era impossível sair do navio nesses dias.

Voltei novamente para a interminável fila de uniformes para pegar uma jaqueta show de bola – depois de um tempo descobri que o motivo dela ser tão gigantesca e pesada é que ela era duas, uma conectada internamente à outra – e senti o Dry Dock enchendo de água.

Lembro-me de estar preocupado demais, pois faltava pouco para o navio navegar até Savona, onde pegaríamos finalmente os passageiros para dar início ao cruzeiro.
Naquela noite, antes do jantar, fui na recepção e peguei as famosas pastilhas que evitam o enjôo.
O navio faria uma navegação teste de dez minutos pela região do porto de Gênova.

A sensação de navegação me amoleceu as pernas. Trabalhar com aquele vai e vém não iria prestar. A dor não tardou a invadir a parte de trás da minha cabeça. Foi quase impossível trabalhar nesse dia.
Mesmo sem vontade, jantei muito nessa noite, seguindo as recomendações do treinamento: barriga cheia evita enjôo.
Comi muito pão, arroz, mas bebi pouco.
Confesso que a sede era algo quase insuportável. Mas como disseram que o inimigo número um do mareado eram os líquidos, evitei tomar qualquer coisa aquela noite.

Fui dormir com medo de passar mal.
Apanhei meu saquinho de bolachas e o escondi debaixo do travesseiro. As bolachas forravam o estômago, inchando-o em questão de minutos. Isso garantia um sono tranqüilo.

Acordei em Savona.
Como explicar Savona com palavras, já que não pude registrar fotograficamente?
Savona vai sempre habitar minha mente. Uma cidade inteira num imenso morro. Medieval, com o sol nascente iluminando seus muros e suas árvores com um dourado sagrado.
Gaivotas, ciclistas e uma linda marina cheia de veleiros e barquinhos coloridos.

Nessa manhã descobri os decks mais elevados do navio. O 12º e o 14º. Acho que o 13º não existe por motivo de superstição.
Um frio cortante lutava contra os fracos raios daquele sol preguiçoso.
Trabalhamos até o sol atingir o meio dia.
O navio ainda estava um caos e os passageiros já entravam…

Esses dias se arrastaram com dificuldades. O fato de não poder dar notícias para a família me deixou muito mal.
O trabalho era a fuga, era a ocupação que me mantinha na linha para não pirar. O resto era sonho que se tornava pesadelo. Com o passar dos dias vi o quão desorganizada, complicada e confusa era essa companhia. Sentir na pele que a companhia só precisa de vc para poder entrar no país – já que para o navio entrar no Brasil é preciso ter 15% de tripulação brasileira – faz com que vc entenda o pouco caso que os italianos fazem de vc.

Mas falemos de coisas boas.
Málaga na Espanha foi o primeiro lugar que eu desci.
A primeira impressão é que vc está entrando num porto colossal, com aqueles guindastes robóticos a perder-se de vista:

É impossível esconder a excitação.
O navio dança em todas as direções para atracar-se.

Descobrir que eu teria apenas uma hora para conhecer os lugares foi uma facada no coração.
Eu trabalhava das 7hs às 11hs, tinha uma hora de almoço, voltava a trampar das 12hs às 15hs, tinha duas horas de descanso, voltava a trampar às 17hs até às 18hs, uma hora pra jantar, voltava a trampar das 19hs até quase às 23hs.
Como disse anteriormente, era muito difícil trabalhar tantas horas por dia, mas isso era uma constante, eu sabia que seria assim. A facada foi descobrir que essas horas de folga não podiam ser conectadas para formar uma longa hora de folga…
Como o navio atracava de manhã e partia lá pelo meio-dia, era quase impossível ter mais que uma hora em cada parada.

Pensei seriamente em abrir mão do passeio em Málaga, mas aproveitei a companhia da Beatriz – a anja que havia me salvado na noite passada – e junto com uma turma de brasileiros fomos passear pela cidade.

Descer do navio para conhecer essas cidades foi maravilhoso:

Só não tirei mais fotos, pois minha máquina estava com dor de barriga e desligava-se a cada clique:

Málaga é uma cidade cosmopolita, muito florida e cheia de montanhas ao fundo, árvores coloridas e muitas lojas:

Os brasucas desciam para comprar laptop.

Passeamos por calçadões e avenidas imponentes:

O barato aqui era atravessar uma rua. Os carros paravam quase que automaticamente.
Fomos direto àquelas cabines telefônicas e ligamos para o Brasil. A minha sorte fez ouvir a minha gravação na secretária eletrônica de casa e tudo o que eu consegui foi deixar um sinal de que eu estava vivo. Conectamos 15 minutos de internet – pra quem tem uma hora de visitação, 15 minutos é uma eternidade – e fomos procurar postais e um correio.
Não achamos os postais, mas acabamos achando o prédio dos correios, que também não vendiam postais. Aproveitei para tirar uma foto pra minha mãe:

Então fomos a um desses grandes shoppings. Santo Deus, imaginem um shopping center que só vende coisas fantasticamente européias por um precinho de 25 de março! Assim era o comércio nesse shopping.
Passei por todas essas ofertas e promoções com muita classe… Hehehehe… Fomos até um Mc Donald´s.

Não me lembro de muita coisa além disso. Lembro-me que quando estava começando a ficar bom, já estávamos no táxi rumo ao porto.

Olhar para aquele gigante branco quietinho lá no horizonte e saber que lá dentro é aquela confusão de gente indo e vindo é terrivelmente engraçado:

Como primeiro destino, voltar são e salvo para o navio era por si só uma conquista:

Por termos voado em Málaga, sacrificado o horário de almoço, andado quilômetros num pique de maratonista, voltar ao trabalho aquele dia não foi moleza.
E foi exatamente na hora de voltar para o navio que eu vi uma cena que ficou gravada na minha cabeça: o desembarque de um grupo grande de tripulantes desesperados que não agüentavam ficar mais um minuto a bordo.