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26- Santos “São Paulo” Parte 2 (Brazil)

Acordei às 6hs da manhã.

Não lembro bem o que eu fiz primeiro: se eu tomei café, se eu fui levar minhas bagagens pro indiano que definitivamente não iria conferir, se encontrei o Felipe e a Simone.

Sei que de hora em hora, eu dava uma espiada pelas escotilhas do navio. Estávamos complicadamente atrasados. Chegaríamos com umas três, quatro horas de atraso.

Chegar ao porto de Santos foi uma experiência diferente.
Em nenhum outro lugar eu vi tanto movimento marítimo.
Era frota de navios de todos os tipos, tamanhos, procedência…
Eles ficavam lá no meio do mar fazendo hora.
Os cargueiros com aqueles seus containeres coloridos e empilhados vertiginosamente eram os mais numerosos.
Acho que o Costa Victoria devia ter algum tipo de concessão, pois ultrapassamos todos os navios.

De repente, começamos a avistar os primeiros contornos da cidade de Santos.
Apesar do dia extremamente fechado e nublado, a emoção tomou conta dos tripulantes, dos passageiros, de quem fica, de quem vai…

Santos significa o fim e o começo.

O meu fim.
O meu e o de todos aqueles passageiros que pegaram o navio em Savona.

O começo.
O começo de um novo cruzeiro. Novos passageiros esperando no porto lá embaixo, ansiosos pra embarcarem.

Santos é o local onde tudo começou: as primeiras viagens até a agência, a semana de treinamento Costa, o curso do STCW…
Santos é onde o bicho pega fogo: a temporada brasileira oficialmente se inicia aqui.
Santos representa trabalho dobrado para os que ficam: é preciso deixar o navio tinindo de limpeza e se preparar para a temporada brasileira.
Santos significa adeus: é onde todos se despedem.

Após grudar o crachá cor-de-rosa de desembarque no colarinho, apanhei minha pesada mochila e comecei a peregrinar pelo navio pra me despedir dos que, provavelmente, eu nunca mais encontraria:

Procurei primeiramente meus amigos indonesianos. Encontrei o Zaldy:

Foi bem emocionante. Acho que nunca vou esquecer esses guerreiros de Jacarta, Sumatra e Bali dizendo pra eu me cuidar, pra mandar notícias…
Os caras foram impecáveis do começo ao fim. Pessoas simples, dignas de impecabilidade real.

Vasculhei os corredores das cabines dos passageiros. Encontrei os meus outros camaradas.
Despedi-me de todos: filipinos, peruanos, colombianos, argentinos, italianos, franceses, espanhóis…
Vasculhei os arredores da cozinha.
Despedi-me dos cearenses, dos gaúchos, dos baianos, dos catarinenses, dos cariocas, dos capixabas, dos santistas, dos conterrâneos…
Comprovei, momentos antes de abrir mão dessa vida, o maior tesouro que eu havia conquistado ali: eu havia feito amizade entre todos os povos do navio.

Subi aos andares superiores:

Lá estava Santos numa manhã chuvosa.
Todos os europeus se preparando pra desembarcar:

O deck da piscina era uma tristeza só:

Caminhei como um louco pra poder registrar cada cantinho das partes onde eu trabalhava:

Lembrei-me da primeira vez que eu caminhei ali: estava um frio cortante. Navegávamos pelo Mar Mediterrâneo, o navio balançava de um lado para o outro e eu tentava me equilibrar, ao mesmo tempo em que protegia meus ouvidos daquele vento imperdoável…

Finalmente havia chegado o dia 13 de dezembro! Eu havia entrado dia 23 de novembro e parecia ter vivido meses lá dentro.
Era divergente aquele ar quente de Santos com aquele clima cinza típico de céu de inverno europeu.
Essas confusões climáticas ainda são a assinatura do estado de São Paulo:

Comecei a perceber os edifícios tortos de Santos:

Foi difícil esconder a alegria:

O anúncio da chegada vibrou os sentidos: “-Hei! Estou aqui!”. – eu gritava por dentro.
O poderoso apito do navio ecoou pela cidade:

O coração saltou a boca:

Todos os hóspedes e tripulantes estavam em algum lugar com uma boa vista:

Muita, muita gente:

“A uma hora dessas, meus pais já tinham chegado em Santos!”. – pensei eu.
Rapidamente liguei pra eles e disse estar chegando ao porto. Haja coração!
Passamos pelos canais de Santos. Tentei imaginar a Fonte do Sapo e o edifício da minha tia Vera, mas quando dei por mim estava passando em frente a balsa:

A todo instante, barcos menores passavam por nós acenando boas vindas:

Alcançamos a balsa. Os carros tão pequeninos… Tudo tão perto e ao mesmo tempo tão inacessível:

Finalmente entramos no Porto de Santos!
Aquilo lá parece cenário de ficção científica.
O porto é imenso, descomunal!
Lembrou-me alguma fase industrial do game Sonic The Hedgehog:

Corri. Atravessei pela última vez o deck da piscina, local de tantos esforços, de tantas histórias… Nem bem cheguei às mesinhas do bar e encontrei com a vovozinha dinamarquesa.
Ela também já estava com tudo pronto pra desembarcar.
Ela me desejou sorte, me abraçou e me deu alguns dólares.
Eu recusei sem graça. Hahaha… Mais tarde meus amigos do bar me diriam que isso era uma gafe horrorosa… Hahaha… Mas é que eu realmente não estava acostumado a ganhar gorjetas.
Ela enrolou o montinho de notas e enfiou no meu bolso.
Agradeci sem graça.
Ela pediu meu endereço…
Para a sorte dela, eu estava com meus cartões dentro da mochila.
Pedi um momento. Escolhi um cartão bem bonito, escrevi uma dúzia de palavras, anotei o endereço e entreguei.
Apertei a mão da senhora e do seu marido, desejando ótimo regresso à Dinamarca e prometi que quando passasse pelo país escandinavo, visitaria o casal.
Continuei correndo pelo deck da piscina até tomar o elevador.

Reencontrei-me com o Felipe e a Simone e contei pra eles o acontecido.
Precisávamos ir até o 6º deck:

Saímos de frente pro terminal marítimo de passageiros:

De cara vi minha mãe, meu pai, minha tia Vera e meu primo Ricardo:

Não há palavras pra descrever tamanha emoção.
Não sei o que minha família sentiu nessa, hora, mas sei o que eles viram (pois eles fotografaram):

Por mais que eu tivesse cativado pessoas queridas nessa minha jornada, poder ver fisicamente a minha família, depois de ter navegado quase um terço do planeta foi de amolecer o coração:

Tentei chamar a atenção deles, mas eles estavam impressionados com a grandiosidade do Victoria:

Jamais reparariam num pontinho azul pulando pulando (eu), bem no rumo de suas visões:

Eu estava exatamente à frente deles, mas eles estavam focando seus esforços para me encontrar em qualquer outra parte do navio, exceto aquele que eu realmente estava.

O desembarque foi montado:

Liguei pro celular do meu pai. Vi ele apanhar o dito cujo no bolso e então falei:
“-Paaaaaaaaaaaaaaaai! Tô bem em frente!

Não tão me vendo não?” – eu tremia de alegria.

Ele ergueu a cabeça, procurou um pouco e finalmente o olhar dele se encontrou com o meu. Hahahhaa… Indescritível…

Os momentos seguintes foram embaraçosos, pois aqueles quatro ali: pai, mãe, tia e primo, começaram a acenar calorosamente e tentar comunicação através de sinais… Foi mais divertido que rodada em jogo de mímicas.

Eles ligavam pro meu celular a todo instante.
Apresentei meus amigos dessa forma e eles me apresentaram a mãe do Felipe…
Eles pediam pra gente se juntar, pra gente ir mais pra cá, ir mais pra lá, fazer pose na escotilha, se abraçar… Eram fotos daqui pra lá, fotos de lá pra cá… Uma chuva de flashes…

Ficamos umas boas horas ali. Enquanto eu conversava com alguns filipinos e indonesianos, que também estavam voltando pra suas casas, meus pais registravam tudo. Desde o desembarque dos primeiros oficiais:

Até a entrada do carequinha neozelandês, Wallace, que fez o treinamento comigo:

Já havia passado das 14hs:

A demora estava se tornando insuportável:

A turma estava quase pulando de desespero:

Eu tentava manter o controle:

Santa burocracia da Receita Federal!
A espera pra sair do navio foi tão grande, tão maçante, tão desnecessária, que a todo instante, mais e mais tripulantes que iriam desembarcar se juntavam ao nosso time.
Pensávamos que iríamos desembarcar às 8hs da manhã, por isso havíamos madrugado.

O Giovanni (italiano responsável por nosso desembarque) tava mais perdido que agulha em palheiro. Ele ia e vinha. Passava na nossa frente e bufava. Pelo jeito, havia coisa errada com algum passaporte filipino.
E assim, com medo de ir até o refeitório almoçar, tomar uma água, ir até o banheiro ou correr qualquer risco de perder o desembarque e as bagagens, fomos ficando pela região da Gangway:

Não havia a menor previsão de que horário desembarcaríamos. A Simone começou a se desesperar, pois ela estava com um caso extremamente delicado em sua família. O Felipe estava inflamado de tanta desilusão.
Uma brasileira que tinha vôo marcado armou um barraco gigantesco com os seguranças. Quase que a Receita Federal a bota no xilindró. Sem contar os indonesianos, os filipinos, o grande amigo francês, a italiana doida, o peruano gente boa e todos aqueles que estavam com seus vôos agendados para voltar aos seus países…
Acho que a brasileira escandalosa e o peruano gente boa devem ter saído por outro lugar, pois não os encontrei mais.

Enquanto isso, lá fora, meus familiares ocupavam o tempo como podiam:

Até foto com a mãe do Felipe tiraram:

Após horas intermináveis, o Giovanni chegou ligeirinho e finalmente nos disse para segui-lo.
Com nossos passaportes em suas mãos, ele pediu para fazermos uma fila.
Apanhei minha mochila pesada e encabecei a fila.

Pisar o solo de Santos foi meio que sagrado:

A família lá de cima não parava de nos dirigir fotograficamente com mímicas:

Até o francês tava confuso com esses idiotas da Receita:

O Giovanni (de branco) estava perdido. Parecia estar com um problemão nas mãos. Ele tentou disfarçar, tentou falar baixinho, pedia para esperarmos mais um pouco…

Por ser o italiano que falava melhor o português com os brasileiros da Receita, a gente conseguiu pescar alguma coisa.

Fomos levados como bois para uma sub parte externa do Porto.
Um ônibus ao nosso lado expelia drasticamente fumaça em nossa direção.
Ficar ali por meia hora conseguiu ser mais insuportável do que ficar dentro do navio.
Estávamos perdidos. Sabíamos disso.

A confirmação veio via celular, o caso extremamente delicado da família da Simone se transformou em um grande pesadelo. Ela não resistiu e desabou em prantos.
Todos que estavam ali, dos italianos aos indonesianos, estavam esgotados, desapontados, infeccionados com tanto descaso. Até os funcionários da própria Receita estavam espantados com tanta ineficiência por parte de seus supervisores.

Após muita canseira e fumaça, o Giovanni nos entregou nossos passaportes.

“-O abraço com os familiares está próximo!”.- pensei eu.

Que nada! Ainda entraríamos, um a um, numa sub parte interna da Receita para algumas declarações.
No meu caso as declarações não levaram nem um minuto, mas na vez dos filipinos e indonesianos a coisa se complicou.
E corre pro navio achar o Giovanni…

Situação ridícula!
Não há outra forma de avaliar o tratamento dado pelos funcionários do Porto de Santos.
Que vergonha de descaso para conosco!

Horas depois, quando as pernas já não respondiam de canseira, quando o estômago estava ácido de fome, a garganta seca de sede e a cabeça latejante de dor, a mocinha da Receita nos chama.

Seguimos em procissão pelo meio do caótico saguão principal. Não deu nem pra chamar a atenção dos meus familiares que estavam sentados logo ali!
Que coisa mais mal organizada! Tentei chamar a atenção deles, pulando, agitando os braços, mas eles estavam distraídos demais e apesar de próximos, o barulho no saguão abafava qualquer tentativa de me ouvirem…

Entramos no saguão com a mesma rapidez que saímos e percorremos a frente do Porto.
Eu não conseguia entender!
Que procedimento mais doido!
Saímos com nossos passaportes na mão, fila indiana, cruzamos o estacionamento debaixo de uma garoa marota…

Percorremos uma espécie de campo de concreto…
Andamos, andamos e andamos…
Saímos num outro campo com containeres emferrujados caídos ao lado…
Ultrapassamos um largo portão e só então entendemos para onde estávamos indo…
Chegamos num outro grande galpão, cheio de funcionários da Receita e cheio de malas e bagagens.

Na hora liguei para meus pais pra informar-lhes a nova situação.
Falei que onde estávamos já era lugar comum, ou seja, a presença deles já era permitida.

Após alguns minutos, vi meu pai se aproximando, vindo lá ao fundo.

Puxa! Eram eles! Não dava nem pra acreditar!

Minha mãe veio logo em seguida, minha tia, meu primo, a mãe do Felipe…

O reencontro foi aquela coisa bem brasileira, cheia de demonstração de carinho, beijos e abraços…
Aquela sensação de finalmente chegar em casa já se dava ali mesmo.

Como é bom reencontrar as pessoas mais importantes da nossa vida.
Por mais que eu tentasse mostrar que eu estava bem, mais eles perguntavam se eu estava bem… Loucura!

Apresentei fisicamente a Simone e o Felipe pra todos, meu primo foi pegar o carro, minha tia queria tirar mais e mais fotos… Todo mundo conversou com todo mundo!

Nem os internacionais amigos tripulantes escaparam das gentilezas da minha família.
Meu pai foi comprar água e batatinha Ruffles pra todo mundo…
Minha mãe foi cumprimentar os indonesianos, os filipinos… Arriscou um inglês macarrônico, desejou boa viagem ao francês…
Pequenas ações carinhosas, marca registrada dos meus velhinhos!

Tinha me esquecido de como isso era bom, de como meus pais são os melhores pais do mundo.
Senti o quanto foi bacana meus amigos conhecerem minha família. Ficou bem claro pra eles o quanto meus pais são a extensão da minha gentileza ou vice e versa.

Estava tão preocupado com meus familiares!
Desde que meus pais disseram que estariam no Porto para meu desembarque, até a confirmação de que minha tia e meu primo tirariam o dia inteiro de folga pra me recepcionar… E não consegui ficar despreocupado.
Durante este dia, em todos os momentos de espera dentro do navio, dentro do porto, eu só pensava neles. Se tava insuportável pra mim esperar aquele desembarque encantado, imagina pra eles!

Era tanta atenção empregada em alguém que não estava trazendo boas novas…
Senti-me muito feliz com a presença deles ali, mas pouco merecedor de tanto carinho…

Nossas bagagens foram liberadas às 16hs, mas estar com a família fez da espera um momento agradável.

Olhei com muito carinho aqueles amigos que nunca mais veria na vida. Despedi-me dos que ainda teriam que fazer aquele longo vôo até o velho continente, dos que iriam voltar para aquelas ilhas asiáticas paradisíacas…
Apesar de estar morto de cansaço, eu teria apenas que dar uma passadinha no apartamento da minha tia em Santos e no finalzinho da noite eu já estaria no conforto do meu pequeno, mas doce lar. Não conseguia imaginar os amigos com uma viagem tão punk dessas pela frente…

E assim se deu meu adeus aos amigos tripulantes.

Eu estava tão cansado, tão cansado, tão cansado, que afundei no banco do carro do meu primo. Só voltei à realidade quando estávamos dentro do elevador subindo ao apartamento.

O apartamento da minha tia fica de frente pra praia, literalmente de frente a Fonte do Sapo.
Tomamos um caprichado café da tarde tendo aquela vista panorâmica do mar por detrás.
Só não conversei mais, pois precisaríamos ainda pegar um busão até a rodoviária pra viajar pra Sampa!

Não tenho nem palavras para agradecer:

Tava tão cansado que até acertar o sorriso demorou…

Não conseguia manter os olhos abertos:

Não podia acreditar que meus pais estavam ali comigo:

Agradeci imensamente esses meus parentes e criei coragem pra voltar pra Sampa.

Meu primo nos levou até a frente de um Shopping.
Esperaríamos o ônibus rodoviário que cruza a cidade de Santos. É um serviço gratuito para aqueles que vão pegar ônibus na rodoviária com destino a São Paulo.

É muito bacana esse serviço, pois como estávamos com as minhas duas malas, não ia ser muito bacana entrar numa lotação em horário de final de expediente. O problema é que o bendito do ônibus gratuito demora horas pra passar.

Estávamos quase desistindo de esperá-lo quando ele felizmente passou.
Subimos eu, meus pais, as malas e desmaiamos de canseira.
Chegamos no Terminal Valongo depois de quase uma hora. O trânsito estava congestionado, horário de pico em Santos.
Descarregamos as pesadas malas e constatamos que iríamos pegar o mesmo ônibus pra ir pra São Paulo. Aproveitamos que as malas já estavam lá embaixo e as botamos naquele compartimento inferior do ônibus.

Meu pai foi comprar as passagens na bilheteria, eu e minha mãe colamos as etiquetas nas malas e então subimos no mesmo ônibus.
O motorista mudou a plaquinha com o novo destino: São Paulo – Metrô Jabaquara e lá fomos nós.

A viagem durou exatamente uma hora.
Nesse ínterim, recebi a ligação da Camilinha do treinamento. Ela tava em dias de embarcar no Costa Classica. Conversamos até quase chegar em Sampa.

Chegamos no Jabaquara trêbados.
Eu não conseguia nem abrir os olhos de tanta dor de cabeça.
Trocar o conforto e o escurinho do ônibus rodoviário por aquela cadeira dura e aquela claridade do metrô me fez ficar acordado até a Parada Inglesa.

Como foi bom rever a Estação Parada Inglesa!

Arrastamos as minhas bagagens pelas ladeiras do bairro até em casa.
Cheguei silencioso. Não agüentaria cumprimentar todos os familiares, não nesse dia…

Entrei em casa pontualmente às 22hs30.

Por mais que nossa casa seja pequenina, feia, desconfortável e velha, não há lugar como nosso lar.
Voltar pra casa da gente é como encontrar o pilar das nossas forças inabalável. É o que faz qualquer viagem, por mais distante que seja, valer a pena.

Após reencontrar minha irmã que chorou como uma condenada, e tentar convencê-la de que eu estava bem, revi cada cantinho da casa, tomei uma ducha demorada no meu chuveiro, comi a comida preparada pela minha mãe, liguei a tv velha, acessei a Internet para resgatar os e-mails acumulados, contei mais algumas desventuras e deitei na minha cama quentinha.

Eu nunca havia estado tão esgotado em toda a minha vida.
A canseira era tanta, que nem o sono era mais forte.
Era como estar delirando.
Fui apagando aos poucos, ainda dando importância maior aos sons da madrugada do que aos meus pensamentos…
Mesmo sabendo que estava em terra firme, ainda estava navegando em mente, sentindo o balanço do navio me açoitar o labirinto.

Herdei um hábito peculiar: às vezes, acordo no meio da noite achando que ainda estou lá na cabine. Com certeza alguma parte da minha alma ficou lá naquele navio!
Assim como trouxe comigo grandes ensinamentos e uma experiência incomum de vida, deixei uma boa parte de mim lá com os que ficaram.

Como disse um amigo meu que também passou por isso: “-A gente nunca recomeça do zero. A gente simplesmente recomeça, tendo no histórico tudo o que vivemos até hoje como repertório”.

Aprendi que não há dinheiro no mundo que compre felicidade, satisfação.
Aprendi que o amor, a amizade, o respeito e a educação são fundamentais na minha vida.
Aprendi o que é ser ruim, o que é fazer o mal, o que é viver uma mentira, o que é perder a essência e achar estar ganhando resistência.
Aprendi que desistir de algo que não serve pra vc é ser inteligente, por mais que os outros achem o contrário.

Caminhar, correr, navegar, voar…
A velocidade com que vc percorre o seu caminho no mundo, não é garantia de chegar primeiro ao seu destino final. Cada um tem um caminho diferente a se percorrer.
O importante é vc percorrê-lo por inteiro.

Devagar se vai ao longe.
O navio deixa bem claro que de pouquinho em pouquinho, cruzamos o mundo todo.

Não adianta passar pela vida e deixá-la passar em branco.
É preciso ter o olhar de uma criança, o julgamento de um poeta, a calma de um monge, a sabedoria de um filósofo, a humildade de um camponês, a educação de um príncipe…
Não adianta ir até o fim do mundo se vc não souber onde é o começo dele.
É preciso iluminar como uma estrela, ensinar como um professor, aprender como um discípulo, cativar e se deixar ser cativado, registrar a vida como um escriba, escrevê-la com a experiência de um ancião, descrevê-la com a paixão de um adolescente…

É preciso continuar a navegar, pois se parar, a gente afunda.
É preciso olhar para o lado sempre, reconhecer a importância da distância, a importância da saudade, o valor do adeus…

No final das contas, a única coisa que a gente leva conosco são as experiências: as boas e as ruins.

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25- Santos “São Paulo” Parte 1 (Brazil)

Nem bem fechei os olhos e os abri.
Havia esquecido de levar as malas para os seguranças fazerem a revista.

Pulei da cama, apanhei as malas e me encontrei com o Felipe e a Simone, que já estavam no segundo deck, perto da Gangway, conversando com um senhor italiano da segurança.

O que ocorreu em seguida, por mais descritivo que eu possa ser “escrevendo” aqui, não vai ter o mesmo impacto do que foi “presenciando” aquela cena ali, mas ver aquela porta (Gangway) ser aberta quando já estávamos em pleno mar foi um susto considerável.

Estávamos todos esperando o tal do indiano vir revistar nossas malas.
Conversa vai, conversa vem… De repente, a porta da Gangway se abre.
Sim, se abre! Assim, do nada!

Aquele turbilhão de vento e o barulho ensurdecedor do navio rasgando o mar interromperam nossa conversa.
A chuva impiedosa açoitando aquela noite carioca contrastou aquela abertura na parede do saguão.

Rapidamente alguns marujos passaram por nós carregando um emaranhado de madeiras e cordas…
Eles estavam se dirigindo pra abertura…
As cenas seguintes foram ainda mais surreais…

Daquele emaranhado sem forma, um dos ágeis marujos esticou uma enorme escada feita de degraus de madeira maciça e cordas!
O outro, com uma certa habilidade, amarrou nós inomináveis da corda em ganchos acima da abertura na parede e jogou o resto da molenga escada pra fora do navio!

Não deu pra pensar muito. Podia ser um furo no casco, podia ser homem ao mar… Podia ser qualquer coisa.

Não era nada disso, mas o que se seguiu aconteceu rápido demais!

A enfermeira Simone ficou maluquinha da silva! Ela simplesmente largou o italiano da segurança falando sozinho e foi lá ver.
O italiano até tentou dizer pra ela que era proibido se aproximar ali, mas a Simone, do jeito que tava P. da vida com aquele povo do navio, já tava com a cara quase pra fora do navio! Hehehhe…
O Felipe também não resistiu, foi atrás!
Eu já tava sofrendo ondas progressivas de comichão curiosa da mais alta periculosidade, porém, a minha chata educação ainda mantinha meus pés fixos no mesmo ponto.

Uma legião de comandantes e oficiais entraram apressadamente no saguão e um senhor carioca, de uns 40 e poucos anos e com cara de Miami Vice, se precipitou por aquela abertura!

“-Puta que o pariu!” – pensei eu: “-O cara vai sair do navio!”…”-Taqueospariu! O que é aquilo ali?”…

Além do vento, do barulho e da escuridão emoldurados pela abertura na parede, pude notar um ponto de luz bruxuleante ao horizonte.
A luz estava desfocada, distante. Ela dançava freneticamente. Desenvolvia um movimento nauseante para cima e para frente, para baixo e para trás… Ela se aproximava e se distanciava… Ela subia e descia…

A todo instante a Simone e o Felipe gritavam para mim: “-Vem veeeeeeeeerr Joãaaaaaaaaaaao!!!”…

Olhei pro tiozinho italiano, ele consentiu com a cabeça um discreto sinal afirmativo e eu corri destrambelhado pro buraco na parede.

Cheguei a tempo de ver a luz bruxuleante de um barquinho se aproximar do navio.
Ele cortava ondas maiores que ele! Lutava sozinho para chegar mais perto, mas não tava obtendo tanto sucesso.
Às vezes ele desaparecia naquele mar negro. Outras horas ele chegava bem pertinho da gente, mas bastava apenas uma nova onda vir e ele sumia de novo.

A chuva não dava trégua! Molhava até o chão do saguão do segundo deck.

A Simone, o Felipe e eu babávamos lindamente. Nossas bocas abertas até o chão do saguão competiam com os fortes pingos da chuva.

Como se fosse combinado, o tal carioca se agarrou na escadinha na hora certa.
No instante seguinte, o barquinho se aproximou com tanta velocidade que por sorte não se chocou contra o navio.
O carioca pulou com a firmeza e o impulso de um acrobata de circo e segundos depois estava pendurado no mastro do barquinho, acessorado por um outro marujo que rapidamente o amarrava na atual embarcação.

Com um breve aceno, o carioca indicou estar tudo bem.
Sem perder tempo o barquinho se afastou do navio com uma velocidade estúpida.
Ele subia e descia com tanta violência que provavelmente seria engolido por aquele mar furioso.

Os marujos do nosso navio desmontaram e removeram a escada puxando estratégicamente um pedaço de corda.
A abertura na parede foi se fechando automaticamente e vagarosamente.
Os comandantes e oficiais foram se dispersando, voltando para seus postos.
Nós ainda continuávamos ali, com as bocas escancaradas… Era como se tivéssemos acabado de gravar uma cena cinematográfica de ação.

Claro que depois de voltarmos ao normal nos lembramos das malas e o que viemos fazer. Elas estavam lá no cantinho do saguão perdidas em seus pensamentos de mala.
O indiano “forgado” chegou e liberou a gente. Disse que amanhã durante o desembarque conferiria nossa bagagem!
Sei! Sei!

Mais tarde ficamos sabendo que aquele carioca à la Miami Vice era nada mais, nada menos que o prático do porto do Rio de Janeiro!

Despedi-me dos colegas, combinando encontro às 6hs da manhã pra os procedimentos de desembarque e voltei pra minha cabine tentar dormir.

De volta a cabine, quase cai ao subir no beliche. O mar estava estranhamente agitado.

“-Que coisa!” – imaginei comigo: “-Atravessamos o profundo e amedrontador Atlântico e vai ser na costa carioca que o bicho vai balançar pra valer!”…

Não deu outra, o meu sono foi interrompido várias e várias vezes por um balanço inigualável. Dava pra sentir a proa do navio afundando nas ondas gigantescas enquanto a popa se elevava. Dava pra calcular os segundos que a proa demorava pra voltar a sua posição normal.
Aquele balanço fazia o Barco Viking do Playcenter parecer brinquedo de parquinho de cidade do interior. A tempestade lá fora deveria estar brava.
Em alguns momentos a proa subia tanto, que pro navio voltar a sua posição normal, ele se chacoalhava todo.
Foi impossível dormir.

24- Rio de Janeiro “Rio de Janeiro” (Brasil)

A 1ª vez que vi o Rio foi através da janela de um ônibus de viagem. O percurso até a rodoviária passando ao lado do porto foi inesquecível.
A 2ª vez que vi o Rio foi através da janelinha de um avião da ponte-aérea. Confiscar a Ilha Fiscal das nuvens foi estonteante.
A 3ª vez que vi o Rio foi através do convés de um transatlântico italiano. Atracar aquele monstro quase dentro do centro foi arrepiante.

A 1ª vez eu fui pra trampar. Precisava fazer uma ilustração da cidade e seus pontos turísticos para a empresa Conectel.
A 2ª vez eu fui pra trampar. Precisava voar num desses balões de ar quente e cestinha pela praia da Barra da Tijuca. Fui divulgar uma campanha da Casio.
A 3ª vez, decididamente eu não iria pra trampar!

Era dia de entregar o name tag, os uniformes, as roupas de cama… Pegar assinatura com o Padre, com a búlgara misteriosa da minha chefa… Levar os documentos pro Crew Officer, assinar mais alguns documentos… Arrumar cabine, organizar as malas, trocar contatos com os amigos que permaneceriam por lá…

Depois de entregar tudo menos o Crew Card, combinei com o Felipe do restaurante e com a Simone do hospital, da gente tirar o dia pra passear pelo Rio.

Daria o cano no chefe mesmo! Nem avisaria aquele cabra safado.
Quando eu voltasse lá pro fim da tarde, depois de ter aproveitado o dia na cidade maravilhosa, eu lidaria com o estresse.
Eu tava tão decidido em sair sem avisar, que tava até animado com a idéia de voltar e encontrar o meu chefe soltando fumaça!

Apanhei meu boné, minha mochila, alguns trocados e a danada da câmera e rezei para que o Crew Card ainda estivesse ativo pra passar pela Gangway.

Se eles tivessem dado baixa no meu Crew Card, com certeza na hora que eu fosse passar lá no pessoal da segurança, a catraca iria acusar alguma coisa e eu teria que passar o dia dentro da nave!

Tive sorte! O cartão ainda era válido.

Encontrei o Felipe na entrada do porto. A Simone infelizmente não conseguiu dar o cano no pessoal do hospital. Tadinha.
Esperamos alguns minutos lá no porto, pra ver se alguém conhecido aparecia pra ir com a gente…
Ninguém!
Resolvemos ir andando.

Saindo do porto, encontro um dos oficiais do navio.
Gelei! Hehehe…
Ele sabia que eu não deveria estar ali.

O pior de tudo era que esse oficial não dava pra dar o cano, o italiano era muito gente fina.
Gelei bonito!

Ele me cumprimentou e perguntou aonde eu ia.
Eu, mesmo sem graça não ia mentir. Não na altura daquele campeonato! Eu não tinha mais nada a perder!
Se eu tivesse que voltar pro navio eu voltaria. Pelo menos eu havia tentado ter um último dia digno de recordações!

Com a maior simplicidade do mundo, eu disse que ia tentar subir até o Cristo Redentor.

Claro que eu fiquei esperando a comida de rabo vir em SAP italiano!

Ele fez uma pausa dramática.
Aspirou demoradamente aquele ar quente carioca que nos envolvia, encheu seus pulmões vigorosamente e soltou uma gargalhada.

Pra minha surpresa, ele disse que eu tinha mais é que aproveitar aquele dia:
-Vai passear, filho! Vai na boa, vai sossegado!

Olhei pro Felipe, que também tinha se surpreendido e seguimos à risca os conselhos do tiozão italiano.

Após receber a autorização para aproveitar o Rio do próprio oficial do navio, fomos até uma casa de câmbio. Eu precisava trocar minhas últimas cédulas da moeda européia. Tava com apenas R$5 no bolso!

Troquei o dinheiro, apanhamos nosso mapa para chegar ao Cristo e fomos pegar um busão até o Corcovado!

Tinha me esquecido de como é gostoso passear pelo Rio de Janeiro. É uma mistura de morro verdinho + centro velho da cidade + praias bonitas + sol dourado…

Chegamos lá no Corcovado depois de uma boa hora rodando no busão.
A sorte é que já tínhamos balançado tanto dentro do navio, que acabamos nem sentindo o pula pula do busão. Busão carioca pula mais que pipoca!

Nem bem saímos do busão e um povo já colou na frente da gente.
Eles queriam oferecer o serviço de carro pra subir o Corcovado: mesmo preço do trenzinho.
Nem rolaria.
A graça do passeio está em subir com o trenzinho:

Fomos comprar o ticket na estação do Cosme Velho. Trinta e poucos Reais! Facadinha!
A estação foi construída num lugar bacana aos pés do Parque Nacional da Tijuca, bairro de Laranjeiras. Não tem a mesma infra das construções similares lá no exterior, mas é funcional e tem um certo charme.

Os passageiros do Victoria já estavam todos lá, reconheci um monte de velhinhos e velhinhas.
Aquilo parecia a ONU: bandeiras penduradas de vários países, representantes gringos de várias partes do mundo… Loucura a mistureba de idiomas!

Nosso trem ia demorar:

Aproveitei pra comprar um Guaraná pelo dobro do preço e tava quase levando um postal nas mesmas condições, quando avistei uma lojinha charmosinha lá fora da estação.

Acertei em cheio! O postal era três vezes mais barato lá e o melhor: a lojinha era de uma senhora japonesa, que barbaridade tchê, era de uma simpatia tamanha.
Claro que tive que demonstrar meus dotes nipônicos. O Felipe é testemunha: cantei meia dúzia de músicas tradicionais japonesas (Douyou) com a Obaa-chan (vovó japonesa), escrevi cartinha em japonês e desenhei alguns kanjis…
As tiazinhas ficaram malucas! Hehehehe…
Até esqueci que tinha ido lá pra comprar postal.
Escolhi o postal, escrevi a mensagem, comprei o selinho, colei, agradeci as tiazinhas e botei o dito cujo na caixinha dos Correios na pracinha.

Voltamos pra estação e encontramos uma fila imensa pro próximo trem.
O pior é que esse trem nem era o nosso ainda.

Imagina fazer um passeio desses tendo apenas duas horinhas?

Tive que jogar um xaveco na menina da catraca do trem.
Ela pediu pra gente esperar ao lado. Se sobrassem dois lugares, ela nos encaixaria.
Vinte minutos depois, estávamos no topo do Corcovado.

A viagem de trenzinho é deliciosa:

A estrada de ferro é tão íngreme que parece que vc está dentro de um foguete se preparando pra decolar.
Na saída da estação, a estrada quase passa no quintal de algumas casas no morro. É maluco demais!
Ao adentrar a mata, a gente vê enormes jacas penduradas em suas árvores. É a festa da jaca!

Há também aquelas esculturas horrorosas dos personagens do folclore brasileiro espalhadas ao longo do trajeto. Digo horrorosas, pois são de extremo mau gosto e estão simplesmente enfiadas na terra, sem o menor cuidado… Estão lá apenas pra ocupar espaço!
O trenzinho vai subindo, vai subindo… A estrada vai ficando cada vez mais íngreme.
Vez ou outra, um raio mais forte penetra através da copa das altas árvores e a gente visualiza a cidade ficando cada vez mais pequenina. A mata cria um telhado de folhas, é bem fechada.
De repente, emoldurada pelas folhas das árvores, surge uma panorâmica da cidade maravilhosa lá embaixo. É de perder o fôlego.
Se a gente que é brasuca e já está familiarizado com as imagens do Rio através das alturas do Corcovado se impressiona, os gringos então… Eles parecem sair do corpo de tanta felicidade!

Atualmente, o sistema Riggenbach, onde uma terceira roda funciona como cremalheira movendo o trem, é totalmente indispensável.

E pensar que na época de Dom Pedro II – Imperador do Brasil e primeiro passageiro ilustre a subir o morro do Corcovado – que inaugurou a Estrada de Ferro em 9 de outubro de 1884, o simples fato do trem percorrer 3.824 metros de linha férrea em terreno totalmente íngreme, fora considerado um milagre da engenharia… Hehehehe…
Depois de Dom Pedro II, muitos visitantes ilustres também viajaram no trem do Corcovado. Em 1934, o trem recebeu a visita do então secretário de Estado do Vaticano, Eugênio Pacelli. Cinco anos depois, Pacelli se tornou o Papa Pio XII.
O Pai da Aviação, Santos Dumont, também era um freqüentador assíduo do Trem do Corcovado. Segundo relatos dos antigos maquinistas, ele sempre subia ao alto com seu característico chapéu desabado, dava boas gorjetas e, de vez em quando, pedia para conduzir o trem. Os ex-presidentes Getúlio Vargas e Epitácio Pessoa também eram passageiros freqüentes.
Em 1980, foi a vez do Papa João Paulo II e, assim como ele, também realizaram o passeio o cientista Albert Einstein, o rei Alberto da Bélgica e a princesa Diana.

Em 20 minutos, o trem atravessa, a uma velocidade média de 12Km/hora, a maior floresta urbana do mundo. Esse é o tempo para a gente encontrar o Cristo e atingir o teto do Rio.

O teto de Sampa a gente contempla da Pedra da Cantareira, do Pico do Jaraguá ou da Torre do Banespa no centro velho.
O teto do Rio, por mais que se contemple do Pão de Açúcar, é do Corcovado que ele se mostra na sua totalidade.

Saí do trenzinho e dei de cara com aquela dimensão:

Aquilo lá não é um lugar comum, é como ter os globos oculares arrancados. Vc tem a sensação de estar enxergando 360 graus.

Não quis subir de escada rolante. Falei pro Felipe que ia subir degrau por degrau, pra aproveitar a paisagem:

Sábia decisão! Ela nos proporcionou um pouco mais de tempo para observar a maravilha que é o Rio de Janeiro:

Rapidamente o sol foi sumindo, o tempo foi fechando:

O Rio de Janeiro continuava lindo do mesmo jeito:

Durante a ascensão ao Cristo, uma nuvem do tamanho do estado do Amazonas nos engoliu:

A nuvem apagou o Cristo com uma precisão das ferramentas mais notáveis do Photoshop:

Como em Silent Hill, fomos envolvidos por uma névoa branca misteriosa. A nuvem fez aquela dimensão se desligar do Rio de Janeiro.
Era como se tivéssemos numa outra Galáxia.
Aquela experiência estava ganhando ares surreais.
A religiosidade se ampliava amendrontadoramente ao redor das nossas cabeças. O dia quente havia se transformado numa tarde refrescante.
A sensação de se estar dentro de uma nuvem era inexplicável. Era como se eu pudesse sentir o teto do Rio:

Por mais que eu tentasse ver o Cristo, mais a nuvem o escondia:

Por mais frustrado que eu pudesse estar, aquilo me deslumbrava mais do que se o céu estivesse azul. Eu estava tão feliz de estar ali, tão feliz, que nem consigo explicar. Não era felicidade de estar longe do navio, era felicidade em estar ali.

Vcs sabem como sou viajado na maionese. Pra eu ficar louco basta uma luz incidir de um jeito diferente sobre um objeto, basta ouvir um som errado na hora certa, basta um comentário empolgado de alguém, um perfume doce no ar, uma nuvem do tamanho do estado do Amazonas umedecendo minha cara…

E quando eu menos esperava: a misteriosa nuvem se dissipou, o Cristo se mostrou, a câmera ressuscitou, o Felipe correu pra trás, eu pulei pra frente e garantimos assim a minha primeira foto com uma das sete maravilhas do mundo moderno:

O Cristo Redentor, símbolo da Cidade do Rio de Janeiro, foi eleito como uma das 7 Novas Maravilhas do Mundo Moderno, em votação realizada pela internet e por mensagens de celular, organizada pela New 7 Wonders Foundation, da Suíça, entre 21 monumentos participantes de todo o planeta:

O cartão postal carioca de 38 metros, teve sua pedra fundamental lançada em 1922 e a inauguração em 12 de outubro de 1931, sendo a única maravilha brasileira, ao lado de importantes outras maravilhas, também eleitas, como a Muralha da China (entre 200 a.C. e 1500 d.C.); o templo helênico de Petra, na Jordânia (9a.C. a 40 d.C.); Machu Pichu, no Peru (século XV); Coliseu de Roma, na Itália (70 d.C. a 82 d.C.); Taj Mahal, na Índia (1630 a 1652) e o templo da civilização maia de Chichén Itzá, no México (435 d.C a 455 d.C.). As Pirâmides de Gizé, no Egito receberam o título de hors-concours, por ser o única maravilha (2500 a.C.), remanescente do mundo antigo.

Pirei. Só faltava agora conhecer as outras 6 Maravilhas.
Fiquei pulando nas nuvens que nem bebê no céu antes de nascer.

O Felipe tava um pouco chateado por não termos tido a sorte de pegar tempo bom.
Eu até o entendia.
Os gringos estavam inconformados com a nuvem, as criancinhas cariocas de uma excursão escolar então… Deu até dó!

Acho que eu era o único feliz da vida ali:

Era hora de agradecer.
Grudei no mármore da base do Cristo e agradeci tanto cuidado e guarda:

Apesar das coisas não saírem como o planejado, eu não havia adoecido nessa minha jornada maluca, eu não havia me desesperado, a travessia transatlântica não teve nenhum problema, eu só encontrei pessoas do bem…

Nessas, descobri uma capelinha bem embaixo do Cristo.
Não resisti a tentação da capelinha: rezei um Pai Nosso e uma Ave Maria e aproveitei pra fazer um novo pedido.

Era hora de regressar. Não sem antes tirar uma foto que provasse minha subida ao Corcovado:

Entrei no trenzinho, sentei no meu lugar e o pensamento voou longe, longe.
Fizemos amizade com um casal carioca super bacana. Eles também estavam lá pela primeira vez.

Ao chegarmos ao Cosme Velho, pedi pro Felipe tirar uma foto minha na saída do famoso trenzinho. Sabe-se lá quando iria voltar àquele paraíso:

O casal se ofereceu pra tirar uma foto nossa:

A tarde descia apressada do céu e a nuvem Amazonas já cobria a cidade.
Tomamos o busão de volta pro porto.
A chuva nos pegou quase uma hora depois de entrarmos no busão.
Aquele trânsito estava infernal, levamos quase duas horas pra voltar pra região do porto.
A tarde virou noite.

Nos abrigamos debaixo de um ponto de ônibus.
A chuva castigava a cidade sem dó.
Vi um monte de passageiros velhinhos ensopados atravessando a perigosa avenida pro porto. Tudo era festa!

Esperamos um pouco.
Resolvemos gastar os últimos Reais num lanchão reforçado no Mc Donald´s!
Ninguém merecia navegar aquela noite inteira até Santos de barriga vazia.

O encontro com o chefe foi insignificante. Bunda mole de uma figa!

Terminei de arrumar minhas malas, limpei o armário do banheiro, deixei o guarda-roupa vazio, estiquei minha cama e fui curtir os amigos.

Jantei no Staff, troquei e-mails, abracei amigos e acabei voltando pra cabine bem depois da meia-noite. Estava ansioso, amanhã seria o último dia no Victoria.

A única vitória foi de ter passado por tudo isso com consciência, sem traumas!

Quando finalmente deitei na minha cama, aproveitei o gostoso balanço do barco, vasculhei com o olhar todos os cantinhos da minha cabine, agradeci a hospitalidade daquele pequeno, mas acolhedor lugar, respirei fundo e fechei meus olhos.

23- Ilhéus “Bahia” (Brasil)

A mais forte recordação de Ilhéus, não é assim tão agradável.

O cheiro de peixe putrefado do porto incomodava não só os gringos, mas a todos nós.
Era meio insuportável.
Bom, meio é até um elogio. Era desumanamente alienígena aquele cheiro!

Não dava pra ligar o “foda-se” e ignorá-lo.
Por mais que tentássemos nos acostumar com aquele fedor, mais ele penetrava nas nossas narinas.

Eu estava assando sob o escaldante sol do nordeste lá na piscina, quando meu amiguinho indonesiano me avisou que estavam me chamando lá embaixo, na Gangway.

“-Pá!” – pensei: “-Será que eu tenho algum conhecido aqui em Ilhéus?”…

Minhas suposições evaporaram ao chegar na Gangway.
Era o chefe do seguranças que solicitava minha ilustre presença.
Ele estava precisando de alguém pra ficar entre uma pequena passarela, instalada toscamente em cima de uma estrada de ferro.
Eu precisaria apenas segurar um enorme guarda-sol, pra literalmente não cozinhar, e alertar os passageiros pra andarem com cuidado.

-Attention, sir!
-Take care, mademoiselle!

Tava tão quente, mas tão quente, que meus pés dentro dos meus sapatos brancos pareciam borbulhar.
Aproveitei pra me queimar mais um pouquinho com o mormaço baiano ininterrupto.
Santo Deus!

Foi assim que eu conheci a dinamarquesa!

Uma velhinha super simpática estacionou sua canseira no meu guarda-sol.
Ela podia muito bem esperar o marido lá no quiosque ou na sombra colossal do navio, mas não, ela ficou ali comigo, no meio do caminho entre o céu e o inferno, naquele deserto de concreto e sol.
Graças a essa distinta senhora escandinava, tive o diálogo em inglês mais formidável de toda a viagem. Nem eu era capaz de imaginar que meu inglês pudesse me conduzir por uma conversa tão profunda.

Após falar sobre a minha vida e sobre a realidade da vida a bordo, a vovózinha me convidou para ir visitá-la na Dinamarca algum dia.
Agradeci o convite e tanta gentileza, indiquei o Shuttle Bus e acenei um adeus. Provavelmente nunca mais a veria de novo…

Olhei para o relógio! Eu havia passado do ponto de cozimento!
Eu estava tão quente, tão quente, que o segurança quase me mandou pra enfermaria.

Que enfermaria, que nada!
Eu precisava correr pra minha cabine, trocar de roupa, apanhar minha mochila, minha câmera suicida e tentar tomar um Guaraná e molhar os pés numa praia baiana, digo, bacana.

Voei.
Em 15min lá estava eu, no mesmo Shuttle Bus que a dinamarquesa e seu marido.
Após conversar mais um pouquinho, chegamos ao centrinho de Ilhéus!
Despedi-me deles e apertei o passo.

Como aquela cidade me lembrou os bairros paulistanos de Santana e Tucuruvi, mas claro que mais bonitinha, mais bem cuidada… Mas aquele caos urbano era igualzinho…
Passeei entre Casas Bahias, lotéricas, escolas de computação, largas praças, igrejinhas… Consegui até achar a Casa de Cultura Jorge Amado, mas olhei para o relógio e não dava nem pra pisar no primeiro degrau da construção.
Tentei fotografar a fachada, mas a bendita da câmera se recusou a ligar…

O jeito foi entrar no primeiro boteco atrás da Guaraná, pois o banho dos pés ficaria pra uma outra oportunidade.
Não tinha Antarctica. A Quat foi mais que suficiente.

Uma garoa refrescou a espera pelo próximo Shuttle.
Um bando de conhecidos desceram do navio e quase me arrastaram com eles de volta. Eles estavam indo pegar uma praia.

“-Bá!” – pensei: “-Passei por tantas cidades litorâneas tão bonitas e não consegui nem molhar os pés no mar…”…

Engoli o último sopro de ar puro e voltei pra nave.

Definitivamente vou ter que voltar à Bahia.
Ilhéus não pode ser apenas isso!

22- Salvador “Bahia” (Brasil)

Sempre fugi de carnaval…
Nunca fui fã de axé…
Muito menos provei acarajé…

Também não posso dizer que o batuque do Olodum me incomodava… Ou que o tempero da baiana fosse menos picante…

Salvador para mim nunca fora um lugar almejado.
Era um dos destinos mais escolhidos entre meus amigos, mas longe de ser meu destino dos sonhos.
Claro que eu não negava a curiosidade de estar ali um dia… Só não esperava que fosse tão rápido.
Talvez o fato da visita do Michael Jackson tenha trazido um pouco mais de fama ao lugar… Talvez não.
Mesmo assim, Salvador era apenas uma imagem desfocada na minha mente.

Era…

Salvador se apresentou pra mim como um abraço de um dia de domingo.
Nem muito sol, nem muita sombra.
Nuvens no céu, como diriam os anjos.

O navio atracou onde a Bahia é mais famosa.
O Pelourinho logo acima, o elevador logo adiante e a Baía de Todos os Santos abençoando os abençoados.

Lá estava eu dando aulas de baianês pros meus amigos indonesianos:
“-A gente precisa subir aquele elevador! Aquele logo ali!”.
Eu havia perdido de subir o Santa Justa em Lisboa. Não perderia o Lacerda por nada!

Salvador não é só carnaval. Salvador é acima de tudo cultura. É uma abundância de cultura.
Na verdade, é cultura em cada esquina, a cada passo.

A imagem que a gente faz de que Salvador é apenas bagunça e carnaval, é coisa típica de sudestino desinformado.

Algumas horas trabalhando com aquela cidade como paisagem de fundo, foram suficientes para morrer de amores por Salvador pelos próximos cem anos.

Combinei com os indonesianos do trabalho em sairmos todos juntos.
Eles, diferente de mim, amavam axé e eram apaixonados por carnaval.
Da pimenta mais picante eles faziam refresco, ou seja, a Bahia pra eles tinha um “quê” de Bali, Sumatra e Jacarta.
Eles estavam excitadíssimos!

Marcamos encontro na Gangway do navio.
Lá estavam eles! Baianos orientais! Havaianas nos pés, calças largas de capoeira, camisetas de capoeira, pingentes, colares, pulseirinhas…
Hahahaha… Esse fanatismo deles pela capoeira era algo cativante.
O jogo de capoeira e a pimenta estão no coração dos indonesianos do Costa Victoria, assim como o futebol e a caipirinha estão no coração dos brasileiros.

Nem bem saímos e percorremos aquela avenida do porto até viramos para a direita, dando de cara com o Mercado Modelo!
Caraca! Que coisa linda!

Atravessamos aquela divertida bagunça caótica de lojinhas e seus penduricalhos extravagantes, resistindo fortemente às cores dos lindos artigos artesanais. Haveria tempo para eles mais tarde.
Foi assim que eu vi a pontinha do Elevador Lacerda:

Bixin, aquilo era bonito demais!

O Lacerdão se mostrou pra mim como um farol em artedecô.
Na verdade, de frente, ele mais parecia um farol do que um elevador, mas quando a gente o vê de lado, percebe suas duas torres.
A primeira torre sai da própria rocha e perfura a ladeira da montanha, servindo pra equilibrar as cabines. A segunda fica mais visível e se articula à primeira torre, descendo até o nível da Cidade Baixa:

Por R$0,05 sobe-se o Lacerdão até a Cidade Alta.
A viagem não dura nem um minuto.
Uma pena o elevador não ser transparente. A imagem da elevação só se faz na mente da gente.
Ao percorrer o corredor do Lacerdão pra sair na Cidade Alta, a gente se depara com uma das vistas mais famosas de Salvador: o Lacerdão em seu ângulo fotográfico mundialmente conhecido e a Baía de Todos os Santos se gabando de beleza extrema lá embaixo:

Não tem cristão, mulçumano, protestante ou budista que não se emocione com essa panorâmica.
Essa é a primeira flechada que acerta o coração e faz vc compreender porque a Bahia encanta o mundo.

Eu estava tão desnorteado de encantamento que registrei o Mercado Modelo e a esquininha do porto lá no fundo. Era tudo tão próximo:

Adentramos então às ruas do Pelourinho.
Que mané Michael Jackson que nada! Aquilo por si só era tudo que aquele lugar precisava pra ser famoso.

O ar naquelas ruas era de história.
O centro histórico da cidade de Salvador, o centro histórico da Bahia.
Pra falar a verdade, o centro histórico do Brasil, pois foi na Bahia que o Brasil começou, foi em Salvador que começou a Bahia e foi no Pelourinho onde tudo começou!

Percorrer aquelas ruazinhas, quase me fazia esquecer que ali era o lugar onde os senhores de engenho chicoteavam publicamente seus escravos.

Com certeza, a posição geográfica da cidade contribuiu e muito para tanta história.
Tomé de Souza quando chegou aqui, cumprindo as ordens do rei, fundou a cidade cujo nome homenageia Jesus Cristo, o Salvador, no melhor ponto para a construção da “cidade fortaleza”, o Pelourinho.
Era impossível não reconhecer as vantagens de se fixar no Pelourinho: a parte mais alta da cidade, o porto logo em frente, próximo ao comércio… Sem contar com a proteção natural da grande depressão existente que forma uma muralha, de quase noventa metros de altura, por quinze quilômetros de extensão, o que facilitaria a defesa de qualquer ameaça vinda do mar.

Com o fim da escravidão, em 1835, o local passou a atrair artistas de todos os gêneros e passou a ser um riquíssimo centro cultural atraindo turistas.

A cidade vista do navio me lembrou Lisboa. Não por sua característica arquitetônica do barroco-português, mas pelo grande número de igrejas num espaço geográfico tão pequeno:

Não dava pra esconder a alegria:

É bom ter a história viva na nossa cabeça.
O melhor turismo do mundo é aquele que se faz, com pelo menos um pouco de história, de informação e de pesquisa.
Muitos turistas passavam ali com cara de bunda. Soltando “gases exclamativos aterrorizantes”. Esses não mereciam as fotos que tiravam.
Falando francamente, quem não merecia a câmera que carregava era eu.

Tá certo que eu não sabia onde ficava a Igreja do Senhor do Bonfim – pois eu queria fazer um pedido lá pra minha tia Lena – mas isso não me impediu de fazer vários pedidos sempre que eu avistava uma igreja…
Afinal de contas, não dava pra fugir muito do meu caminho pré-definido. Eu não contava com tanto tempo…

Fui conduzindo os meus amigos capoeiristas para as compras de penduricalhos, berimbaus, cocadas e acarajés…
Eu era o tradutor oficial dos indonesianos.
Eles compraram um mundo de artigos baianos, filmaram tudo, fotografaram como loucos e experimentaram vários pratos típicos.
Por estarem vestidos a caráter, os indonesianos capoeiristas eram cumprimentados a todo instante pelos soteropolitanos.

Aliás, nada melhor do que um post sobre Salvador, para desmistificar o porquê do gentílico “soteropolitano”.
Tudo porque Salvador – de seu antigo nome completo “São Salvador da Baía de Todos os Santos” – cujos habitantes são chamados pelo etnônimo “soteropolitanos”, foi criado a partir da tradução do nome da cidade para o grego: Soteropolis.
Deixando a Wikipédia de lado, a recepção calorosa dos soteropolitanos era um atrativo à parte.

Fomos numa sorveteria de frutas tropicais, numa dessas tantas plaquinhas coloridas penduradas nas fachadas das lojinhas.
Escolhi o sorvete de massa de maracujá. Estava irresistível.
Os indonesianos até conheciam a passion fruit (maracujá); mas daquele jeito, nem eu havia experimentado.
Talvez fosse o fato de que tínhamos diariamente como sobremesa no nosso almoço lá no navio, sorvete de chocolate, café ou creme… Sabores menos tropicais.
Talvez fosse o fato de que tínhamos que pegar o sorvete ao mesmo tempo em que apanhávamos a comida quente, o que acabava fazendo com que o sorvete se transformasse em sopa de chocolate, café ou creme.
Talvez fosse o fato de que o sorvete do navio fosse melado, apagado…
Talvez…

Mas era fato que aquele sorvete de maracujá, tomado ali com os amigos, nas ruas do Pelourinho era muito mais gostoso…

E fomos caminhando.
E fomos descendo a ladeira.
E eu tentei tirar fotos com meus amigos… E a câmera parecia só querer funcionar nas mãos deles:

E assim fui contemplando a colorida arte Naïf tão presente naquelas calçadas.

O dia foi voando e as duas horinhas terminando.
A gente ia apertando o passo. Sacrificando se distanciar um pouquinho mais. Sacrificando a próxima rua, a próxima descoberta… Riscando lugares da lista de prioridades de última hora.

Olhar o relógio vai se tornando algo maçante… A preocupação vai aumentando, os batimentos também…

É. É hora de voltar pra nave!

Salvador me pegou desprevenido, me laçou e eu nem pude resistir.
Não encontrei carnaval, mas ouvi o batuque do meu coração.
Suas ruas, seu povo, sua história, seu ar:

Por não ter provado o acarajé, volto lá algum dia desses nem que seja a pé.

21- Recife “Pernambuco” (Brasil)

Recife mostrou suas caras às 8hs da manhã do dia 8 de dezembro.
Seu mar de duas cores se abria ao horizonte convidando a gente para um mergulho:

Eu só sairia lá pelas 15hs, então aproveitei que a câmera tava carregada e tentei fotografar um pouco as áreas que eu freqüentava no navio:

Esses eram os decks altos.
Este carpete azul foi um dos maiores pesadelos no Dry Dock. Antes dele, não havia nada, apenas um chão rústico e desgastado.
Quando eu dizia que eles trocaram absolutamente tudo no Dry Dock, não era força de expressão…
De proa à popa, o trabalho nesses decks era infinito.

Incrível como meus amigos indonesianos me poupavam de certos tipos de trabalhos. Era regra eles me ensinarem todos os procedimentos. Aprendi a aspirar pó e água, a lavar as jacuzzis, lacrar as piscinas, montar as mesas, enrolar as toalhas, lavar o piso, enxugar as janelas de vidro e, obviamente, a desinfectar os banheiros…
Curioso foi que durante toda a minha vida a bordo, eu limpei um único banheiro, uma única vez, sem ser pra valer, durante o treinamento.
Os meus amigos nunca deixaram eu fazer esse tipo de serviço. Eu me oferecia pra fazê-lo e eles me indicavam outras coisas. Até hoje não entendi muito bem o porquê disso, mas eles diziam que esse tipo de serviço, eles não deixariam eu fazer.
Quando digo que eles valiam ouro, não estou exagerando.

Meu maior medo nesse tipo de função eram quanto as coisas nojentas que eu poderia encontrar: lixos, melecas e cacas…
Por incrível que pareça eu nunca encontrei essas coisas nojentas pra limpar.
Encontrei muita farpa, muito vidro, madeira, poeira, lata, cinzas de cigarro (yeacat)… Mas as nojeiras mesmo, quem encontravam eram os cabinistas…

O lixo era limpo, era muito, mas era limpo. Além de tudo, ele já vinha separado. Os gringos tem uma consciência fora do comum para com essas questões.
O trabalho pesado consistia no setup das cadeiras e mesas dos decks da piscina, limpeza das jacuzzis, cuidar da academia, do carpete dos decks altos, providenciar toalhas limpas…

Como eu disse, o trabalho era muito pesado, mas realmente era com ele que eu ocupava minha mente e esquecia um pouco de pensar em casa.

Esses eram os caminhos que eu percorria todos os dias, antes mesmo dos primeiros atletas acordarem para suas corridas matinais:

Nesses carpetes azuis eu passava horas indo e vindo.
O sol me queimava bonito. As pernas ainda precisariam de mais algumas horas de sol, mas eu não reclamava.

Recife parecia ser uma cidade bem interessante:

De um lado a cidade e seus prédios, do outro a calmaria do mar e suas cores:

O porto era gigantesco.
A maior parte dos passageiros já estava longe, provavelmente nas praias de Olinda…
O restaurante da popa, o Terrasa, estava vazio:

Marquei bem onde o Shuttle Bus estava e quando deu meu horário de almoço, voei pra minha cabine trocar de roupa, apanhar meus Reais e tentar conhecer o máximo da cidade em apenas 40 minutos, pois 20 deles eu já tinha gastado tentando descer do navio.

Encontrei o Bus vazio, um imenso ônibus rodoviário.
O motorista se mostrou muito atencioso, já que aquele ônibus imenso estava sendo exclusivo para mim.
Eu era o único passageiro. Todo mundo já tinha ido.

Passear pela cidade dentro daquele ônibus com suas janelas panorâmicas, seu ar condicionado no último, seu balanço amortecido por aqueles amortecedores fabulosos, além do fato do motorista dar uma de guia turístico, fez com que eu quase tirasse uma soneca alí mesmo…

A cidade é linda! Passear por ela dá aquela sensação de ficar pra sempre ali, relaxado, vendo aquelas paisagens portuárias misturadas aqueles fortes de pedra…
Nem bem contemplava a beleza histórica e já dei de cara com um shopping center.
Agradeci o motorista, que me avisou pra não ir muito longe por causa do perigo de assalto.

Desci ao lado de um grande rio, numa região de pontes e mais pontes.
Queria atravessar uma dessas pontes, mas um taxista me aconselhou a não fazer isso. Do outro lado da ponte, uma turminha especializada em bater carteiras, certamente estaria me esperando.
Já que o tiozinho confirmou a dica do motorista, resolvi confiar e pedi pra pelo menos tirar uma foto minha:

3 dias de navegação pelo Atlântico, deixam qualquer marinheiro, por mais marujo que seja, totalmente desiquilibrado.
Reparem no meu eixo. Eu simplesmente não conseguia ficar parado para tirar uma foto.
O labirinto da gente fica tão maluco, que foi preciso muita concentração pra não cair:

Resolvi andar pelos arredores.
Encontrei muitos passageiros do navio. Eles estavam aguardando as portas do shopping se abrir.

Rapidamente compreendi que Recife para mim seria apenas uma refeição!
E quê refeição!
Uma vez que a gente se conforma e abraça a decisão, ela se torna a solução.
Como não daria tempo de fazer mais nada, fui até a praça de alimentação e depois de tantos dias, tive a primeira refeição decente…

Ah, nada melhor do que um filé de frango à brasileira, arroz à grega brasileiro, batatinhas brasileiras, Guaraná e Fanta brasileiras…
Noooooossa, eu tava nas nuvens! Nunca R$15 foram tão bem investidos quanto esses.

Apanhei novamente o Bus, que já estava cheio de passageiros, e voltei com o estômago feliz da vida!

20- Fernando de Noronha “Rio Grande do Norte / Pernambuco” (Brasil)

Ficar três dias e três noites inteiras cruzando o Atlântico não é pra qualquer um não.
Não no sentido “monetário” da palavra… Bom, também nesse sentido…
Tem neguinho que pira no Crossing. Tanto passageiro quanto tripulante.
Tem que ter a cabeça no lugar pra se fazer uma travessia dessas.

Ver céu e mar, nuvens e água por três dias não é tão relaxante assim para alguns.
Esses se pudessem pular do navio, certamente o fariam… Hehehe…

No sentido “balançante” da palavra, a travessia transatlântica foi bem sossegada.
Entramos numa preocupante tempestade apenas no segundo dia. Foi como se o navio estivesse navegando diretamente para um muro negro maciço no horizonte, tão intensa era a chuva.
Foi engraçado descer para o almoço nesse dia. Eu estava completamente encharcado, e os meus amigos perguntavam se eu tinha caído na piscina.
Avisei-os da tempestade e eles desacreditaram.

Impressionante! O capitão mesmo sendo braço e tendo feito um furo no casco do navio em Mindelo – que inundou boa parte dos decks inferiores – era satisfatoriamente habilidoso em alto mar. (Tá bom, vcs vão dizer que quem manobra o navio nos portos é o prático, mas uma coisa que se aprende sendo tripulante, é que o capitão é sempre o culpado!).

Naquele dia, ninguém sentira o navio passar pela tempestade.

Notável também, como lá no meio do oceano as cores da água variam do azul mais profundo ao mais claro, do verde mais intenso ao mais leitoso!
E o que falar do sol? O sol dá um espetáculo à parte.
Olhar pra ele e saber que ele percorre sem descanso aquela superfície sem fim do Atlântico, depois se dirige para os outros oceanos, ilumina e aquece a distante Itália que ficou na lembrança, a pontinha do estreito de Gibraltar, a imensa ponte de Lisboa, a ilha da Madeira, as lojinhas de Tenerife, minha casinha escondida entre os edifícios de São Paulo…

O navio é imponente quando está atracado nos portos da vida. Vc olha para ele lá da cidade e o respeita. Mas é em alto mar, no meio do mundão azul que ele se torna um colossus. O ronco da sua propulsão, os hélices (sim, no navio não temos “as” hélices e sim “os” hélices) promovem um barulho initerrupto. Esteja no escritório do chefe, nos decks da piscina, no chuveiro da cabine, no conforto da sua cama envolvido pela cortininha florida, o ronco é sempre presente. Em momentos ele some, desaparece da sua vida, vc se acostuma com ele. Outras vezes ele te assombra. Vc se dá conta que desde que deixou Mindelo, os propulsores não pararam de funcionar nem por um segundo.
E o bico do navio vai rasgando aquele mar, os hélices vão revirando aquelas águas e fazendo a espuma borbulhante levantar ondas e deixar um rastro, que aos poucos vai se apagando atrás do gigante branco.
O navio navegando é de tirar o fôlego. Ele vai navegando, como se dominasse os quatro cantos do mundo, os sete mares.
Não existe distância que não seja facilmente alcançada por sua força monstruosa.
Devagar se vai ao longe. Esse é o lema que não sai da cabeça ao se pensar nesse assunto.

Uma coisa que eu gostava muito de ver nos céus europeus, de dia, era o rastro deixado por uns aviões que pareciam estar a anos-luz de distância da gente. Nunca havia visto algo parecido. Vi muito em Savona, em Málaga, Gibraltar…
O avião era um minúsculo pontinho, mas dava pra ver que ele não era desses aeroplanadores acrobáticos que deixam aquele rastro de fumaça decorativa que logo se dispersa no ar. Esse tinha o formato de um avião de passageiros e deixava um rastro no céu que era diferente de tudo o que eu tinha visto até então. O rastro que esse avião deixava parecia assinar o céu por horas, sem sumir.
Alguns amigos me disseram que esse era o famoso avião que viaja na velocidade do som.
A partir do Crossing vi apenas um ou dois desses aviões.

Toda vez que eu entrava na minha cabine pra dormir, eu ligava a televisão no canal de navegação e contemplava a pontinha do Brasil já aparecendo no mapa!
Diferente do mapa na viagem de avião – cujos indicadores pareciam nunca se mexer – a evolução gráfica no mapa de navegação no navio é grande. Tá certo que o Atlântico é imenso, a velocidade do avião nem se compara a do navio, ainda faltava muito pra chegar ao continente brasileiro, mas era visível a evolução.

De noite era aquela contemplação. Não sei se já comentei sobre a constelação das Três Marias.
Uma das coisas que eu mais gostava de fazer a noitinha, era parar um pouco no meio do navio, no deck mais alto e procurar as estrelas, alguns planetas visíveis e as constelações mais famosas. Foi surpreendente constatar que as minhas queridas Três Marias, lá na Europa, ficam quase que verticais…

Eu pensava que o céu noturno visto do meio do Atlântico, fosse mais iluminado por estrelas.
Que doce engano!
Pensava que livre da poluição das cidades, poderia ver melhor as estrelas da Via Láctea…
Que decepção!
O céu do interior de São Paulo brilhava mais que lá no meio do oceano…

Foi então que numa noite, trabalhando até tarde, todas as luzes do navio se apagaram.
De repente, o céu me iluminou como nunca.
Nessa noite eu viajei as estrelas sem sair do lugar.

Constatei que não era o céu atlântico que era apagado. Era o navio que era muito iluminado. Bastou apagar todas as luzes para comprovar como o céu se acende!
As naves, as estrelas cadentes e os satélites artificiais eu juro que tentei, mas não consegui encontrar nenhum.

Constatei como somos frágeis e pequenos. Como não temos respostas de nada.
Não entendemos nem como uma geringonça daquele tamanho, com aquelas toneladas consegue flutuar naquele mar imenso.

E assim os dias se passaram.
No sentido “sufocante” da palavra, a travessia transatlântica foi atribulada.
A tempestade serviu apenas para refrescar um pouco aquele sol ininterrupto que torrava a pele dos passageiros.
O povo tomava o sol da manhã, do dia e da tarde. Alguns dormiam ainda brancos e acordavam torrados. Acho que nunca ouviram falar em câncer de pele, pois o descuido para com a dita cuja era extremo.
O trabalho na área da piscina não tinha fim.

Numa dessas, estava eu fazendo meu trabalho, quando vejo uma imensa gaivota sobrevoando a área da piscina.
O navio não é nenhum carro de fórmula um, mas grande daquele jeito e com seus propulsores funcionando a todo o vapor, o bichão tem uma velocidade surpreendente.
A bichinha voava na mesma velocidade que o bichão, ou seja, ela parecia estar parada em cima da piscina. Era uma coisa que ia contra a física. Coisa de louco.
Os passageiros ficaram maravilhados. Sacaram suas câmeras e começaram a fotografar e a filmar a bichinha planando graciosa e metida acima de suas cabeças vermelhas de sol.
Não demorou muito e um mundo de gaivotas apareceram se exibindo para os passageiros.
Foi a festa da fotografia.

Eu estava resistindo. A minha câmera estava com aquele problema. Eu tinha deixado as baterias carregando lá na minha cabine…
Não desci. Resisti às bichinhas voadoras.

Eu queria saber da onde elas estavam vindo, pois não havia nem sinal de ilha.
Por um tempo elas ficaram ali.

O navio tem um sistema muito ecologicamente correto.
Toda a comida sem osso do navio é reservada num grande compartimento nos decks inferiores e triturada por um colossal liquidificador. Uma vez triturada essa comida, mistura-se uma espécie de enzima que transforma todo esse bolo de alimento em floquinhos de ração para peixe.

Eles deviam estar soltando os tais floquinhos, pois assim os peixes e os golfinhos seguem o navio, e com eles, as tais bichinhas voadoras…

Mas não havia ilha, não havia sinal de terra alguma…

Depois de algumas horas, percebi um pequeno pontinho lá no horizonte enquanto eu passava pela proa.

“-Caraca!” – eu pensei comigo: “-Será que as bichinhas vieram de lá?”… “-Se sim, elas devem ser gaivotas biônicas pra voar distâncias tão grandes.”…

E para a minha surpresa, o pontinho no horizonte se transformou num arquipélago de vinte e uma ilhas.

Eu não conseguia acreditar.
Por estar sozinho em meu posto, eu só tinha meus pensamentos.
Sabia que tinha visto aquelas montanhas em algum lugar, em algum livro, revista de turismo…
Não podia ser.
Era emoção demais pra ser o que eu estava imaginando que fosse.

Então, deu o horário do meu break: 15hs!
Mas eu estava boquiaberto com a possibilidade de ser o que eu imaginava ser.
Os autofalantes do navio anunciaram a concessão que o capitão tinha conseguido com as autoridades da ilha, de que iríamos passar ao lado do Arquipélago de Fernando de Noronha.
A próxima frase esquentou os corações de brasileiros, gringos, tripulantes e passageiros: “-Bem-vindos a Fernando de Noronha, bem-vindos ao Brasil!”.

Corri para minha cabine embasbacado, interrompi o carregamento das pilhas, voltei tremendo pros decks altos do navio:

O meu amigo Junin sempre me falara que Noronha era um paraíso, que era inesquecível, que isso e aquilo…
Eu, particularmente nunca me interessei por um lugar que só pudesse me oferecer belezas naturais… Sempre procurei o exótico, o misterioso… Noronha nunca esteve em meus planos…

Pois é, nunca esteve…
Quem diria…

Noronha é mágica demais pra se explicar com palavras.
Não fosse o fato de estarmos privados de terra, ver qualquer pequena ilha já teria nos alegrado o dia, porém, ver uma jóia daquelas era demais pra qualquer coração marinheiro, pois mais marujo que fosse:

A emoção de estar entrando em águas brasileiras, a sensação de ver uma das coisas mais lindas do Brasil passar soberana ao nosso lado, inundava a mente de sensações positivas e a alegria tomou conta de todos, inclusive de mim:

Nessa hora encontrei a Marcela, que já tinha lágrimas nos olhos:

A gringaiada se acumulou de um lado só no navio. Deu até pra sentir o peso mudando de lado:

Quando vi, estava dando aulas em inglês, pois todos os gringos queriam saber que maravilha era aquela.

A vontade de pular do barco e ir nadando até a ilha era convidativa. Um pequeno avião de turistas sobrevoou umas duas vezes a ilha e se perdeu de vista.
Fomos passando pelas ilhas e ilhotas, compreendendo a fama internacional que a ilha ganhou nesses anos:

Aprendi que um lugar não precisa ser místico nem exótico para entrar na minha lista de lugares a se conhecer.
Noronha não era um lugar místico nem exótico, era paradisíaca e cheia de possibilidades em suas encostas íngremes, suas praias impecáveis e suas florestas verdes.
Sem sombra de dúvidas, um destino para se incluir na lista de desejos; acima de tudo, o melhor cartão de boas vindas que eu poderia imaginar ganhar ao regressar ao meu país:

E com os corações cheios de brasilidade, seguimos ao Recife.

19- Mindelo (Cabo Verde)

Depois de Tenerife, minha máquina simplesmente entrou em greve.
Só consegui tirar algumas fotos de Mindelo, na hora da partida. Já estávamos a uma boa distância da ilha.

Voltar aos decks superiores e trabalhar até o sol se por, era realmente compreender um pouco a força da natureza.
Era o meu momento “Shadow of the Colossus”. A grandiosidade das paisagens panorâmicas tinha esse poder. Uma beleza colossal se aquietava a nossa traseira:

Eu sempre adorei viajar de ônibus pelas estradas… Poder contemplar as paisagens passando através da janelinha do ônibus era um poder que eu não entendia muito bem. Adorava olhar para trás e saber que aquele lugar que se perdia de vista, de alguma forma estaria lá, esperando meu regresso.
Desvaneios infantis de lado, aqui, essa sensação era multiplicada por mil.
Deixar aquelas silhuetas de ilhas, com o sol como borrão de luz explodindo numa espécie de falso vulcão, aquele mar desenhando o adeus solar em sua superfície… era épico, era mágico, jurássico, aventureiro…

A Mindelo que eu guardo na mente é essa Mindelo de luz e sombra, não o passeio que eu fiz de Shuttle Bus:

Claro que eu sacrifiquei meu almoço!
Desci voando para o Shuttle Bus, mas a equipe de animação era mais numerosa. Faltava um animador, o Bus saiu com atraso.
Eles iam para uma das praias mais paradisíacas da ilha… As 6hs de folga deles contra a minha 1h me esmagaram. Foi o tempo de chegar e voltar imediatamente no mesmo Bus.

18- Santa Cruz de Tenerife “Ilhas Canárias” (Espanha)

Sair de um paraíso e cair em outro é típico nessas ilhas do Atlântico.

Ir dormir na Itália, acordar na Espanha, almoçar em Portugal, jantar no Reino Unido…
As coisas não pareciam mágicas, elas realmente eram!

Essa era a parte boa.
Por mais rápido que fosse passar por todos esses lugares maravilhosos, por mais sozinho que eu estivesse, bastava pisar o pé nessas terras para poder flutuar.

O trabalho, de forma alguma não era a pior parte da minha vida a bordo. Não era a melhor, mas nem de longe era o pior pesadelo.

O pior pesadelo era o meu horário maluco de trabalho, das 7hs às quase 23hs.
O que nos foi proposto é que apesar do trabalho duro e de ter a certeza de nunca ter um dia inteiro de folga, teríamos um horário justo e a oportunidade de descer e conhecer os lugares.
O contrato dizia que se meu turno fosse do dia, eu trabalharia do meio-dia à meia-noite; se meu turno fosse da noite, eu trabalharia da meia-noite ao meio-dia.

Era um pouco frustrante ver os amigos trabalhando 3x menos e tendo 3x mais tempo pra curtir as cidades.
Talvez o fato de ter sido o único Pool Atendent brasileiro fizesse minha voz não ser ouvida.
Meu chefe não era ruim, mas pouco se importava se o meu horário maluco de trabalho era injusto.

Tentei de tudo para conseguir conciliar meu horário com os demais brasileiros. Tentei explicar o que me foi proposto, levei o contrato, fui atrás de supervisor do supervisor… Quanto mais tentava, mais compreendi que ninguém me ouvia.

Por outro lado, a vida a bordo tem suas vantagens.
Uma vez que vc se adapte ao trabalho, ao balanço do navio, a comida do refeitório, a dor no corpo, ao surto de diarréia, as máfias, aos trotes dos veteranos, ao pouco caso dos bam bam bans e a insegurança que é cada dia mais evidente, vc descobre que o que pega mesmo é o tal do Crewbar.
A vida para quem gosta de fumar, beber e pular de galho em galho é nota mil.
Como eu não fumava, não bebia e não era tão “dado” assim, a melhor parte da vida confinada pra mim, foram as amizades.
Num lugar tão maluco quanto este, onde a maioria das pessoas não estão nem æ para as outras (não pelo fato de elas serem más ou insensíveis – tirando a guria do bico – mas por realmente não haver tempo nem para olhar pro lado), ainda assim eu encontrei pessoas formidáveis, que apesar de tantas atribulações, se preocupavam com a gente.
Tirando a guria do bico (a única fingida falsa) e dois ou três caras de bunda, as pessoas que eu conheci, digo, as pessoas que eu cativei e as que manterei contato a minha vida inteira, foram a parte mais compensadora dessa vida.

Várias pessoas me salvaram.
Os meus queridos “anjos”.
Mas vários desses anjos eu acabei não conseguindo fotografar. Minha câmera me pregava várias peças.

A Dany era coisa de louco, sorriso de orelha a orelha. Salvou-me em várias situações com seu alto astral. Seu abraço era reconfortante e vinha sempre no momento certo. Ela se preocupou comigo desde o dia que eu entrei no navio até o dia que eu sai. No dia que ela vestiu seu uniforme oficial todo branco, ela se tornou mais angelical do que já era. Nesse dia ela se tornou irresistível! Não havia um único ser humano que não pagasse pau pra guria. Não posso esquecer que ela foi quem começou a vender e comprar minhas ilustrações vetoriais lá no navio.
O Breno sempre foi muito bacana comigo, mas quando eu recusei o pedido dele, pois ele queria que eu me mudasse pra cabine dele, ele nunca mais foi o mesmo.
O Vinícius “capoeira” foi o amigo mais nobre. Ajudou-me, certa noite, a mandar um sinal de vida para meus pais, enquanto todos os outros evitavam ensinar o procedimento. Nunca mais o perdi de vista. O esportista também era designer, e uma vez que ele conferiu meus trabalhos e ilustrações, nos tornamos fãs um do outro. Eu, dele, por sua amizade impecável; ele, meu, pelos meus trabalhos e deslumbramento para com tudo ao meu redor. Sempre nos encontrávamos no Crewbar pra bater longos papos e escrever os emails diários.
Meus amigos indonesianos eram todos boa gente: o meu roommate, Lanang (tatoo no braço) era educadíssimo, um pouco barulhento, mas totalmente confiável e extremamente atencioso. Por essas e outras que mudar de cabine e trocar de roommate estava totalmente fora de questão.
E tinha aqueles anjos que a gente não sabia nome, muito menos função. Aqueles que a gente encontrava uma única vez, como o caso dos aniversariantes. Pessoas realmente que engrandecem qualquer ambiente. Alguns eram tão angelicais (independente de posição, grupo ou nacionalidade) que dividiam o próprio bolo de aniversário com a gente:

As festinhas do Crewbar também eram uma boa oportunidade pra encontrar os queridos que a gente via pouco e conhecer os que a gente não conhecia.
A mineirinha Michele do spa e meu querido Agus vão morar no meu coração até o fim dos meus dias.
Alisson e sua cervejinha na mão, quase não conseguia conversar de tanta canseira…
A italiana gordinha da padaria que trazia os doces mais gostosos do mundo, me ensinava italiano, a italiana egípcia que falava fluente mais de seis línguas se apaixonou pelo meu portifólio, a sempre Dany que estava em todas e o alto astral do Thiago:

O professor de português da tripulação era o cara mais literário do mundo. Apesar da pouca idade, o guri era um desses prodígios. Mineirinho como a Michele, eles eram a simpatia e a alegria. Professor a bordo tinha certas prioridades, horas de internet, notebook, salinha de aula… Era ele quem salvava meus cliques no pen drive…
O Adaucto era o guri do restaurante, sempre presente no deck da piscina:

Os amigos eram fantásticos.
Claro que não dava pra decorar o nome de todos, mas tenho cada um deles registrados na minha mente: a anja baiana que me guiou pelo labirinto que eram os corredores do navio no meu primeiro dia, a japonesa com a tatoo de sakurá no braço que literalmente iluminou o meu caminho, a Beatriz, a cabinista que me pegou pela mão e me levou até sua cabine para compartilhar os brownies de chocolate, o italiano dos olhos claros que não falava nem inglês e se interessou pelos meus vetores, os peruanos que contavam histórias mágicas de Machu Pichu, as filipinas do bar que me contavam suas histórias de vida, o povo da animação que comprou meus vetores, o banho que eu tomei na cabine de um por estar com meu chuveiro quebrado, as frutas que as indonesianas dos restaurantes me davam, os sucos que as búlgaras da cozinha me abriam…
Isso sem falar no pessoal do shopping, as minhas meninas queridas, o romeno brasuca, as tiazonas italianudas do spa, o maluco do Safety Officer, os carinhas incompreendidos do Crew Office, o acessível Enviroment Officer…

Mas lá estava eu em Tenerife.
O navio iria partir muito cedo. Novamente aquela minha folga no meio da tarde não serviria para nada.
Sacrifiquei meu almoço! Quem precisa almoçar com aqueles meus queridos amigos indonesianos guardando alguma coisa pra mim?

Desci naquele paraíso no meio do Atlântico e quase caí pra trás! Coisa linda!
As montanhas pareciam desérticas, o mar era tão profundo e azul que dava até vertigem. O céu, invejoso que só ele, competia com o azul do mar.
Ao fundo, o melhor lugar que se podia imaginar para comprar eletrônicos. Dizem que nem em Miami é assim. As taxas aqui inexistiam:

Aproveitei minha uma hora e voei.
Não daria pra fazer muita coisa. Dinheiro eu não tinha, tempo eu não dispunha, mas eu iria andar até onde pudesse. Pelo menos encontrar uma lan house, comprar um postal… (doce engano)…
O Victoria estava sendo abastecido:

Eu estava registrando a fila de navios, quando um grupo de passageiros brasileiros me abordou:

O porto estava apinhado de pessoas do mundo todo e eu estava de costas para o grupo. Nem havia percebido que era comigo.
Os brasileiros (cada um carregando duas caixas de Sony Vaio), pararam apenas para bater esta foto de mim:

Esse era o poder de ser reconhecido fora do navio. Ainda mais por brasileiros. Era sempre uma demonstração de carinho.

Por estarem com pressa (estavam voltando ao navio pra deixarem os laptops e correr de novo a cidade para comprar mais), nem deu tempo de tirar uma foto com eles, mas depois eu os encontraria no navio (doce engano…). Eles me disseram para subir as escadas lá no final do porto e contemplar o mar, que com uma hora apenas não daria tempo de ir até o centro da cidade e voltar para o navio.

Continuei meu caminho até a ponta da tal escada:

Tenerife pra mim seria apenas o porto.
Podia parecer triste, mas ao subir a tal escada que os brasileiros haviam me indicado, não desejei mais nada:

Fiquei bestificado com a beleza do mar.
O barulho da arrebentação me hipnotizou.
Fiquei parado, eletrocutado, encantado.

Pensei em casa, nos amigos, na minha avó.
Como era incrível poder ser levado para esses lugares inacreditáveis, mas como era duro ter apenas a embalagem desses lugares.

Tirar fotos sozinho já era difícil, tirar boas fotos sozinho então, era mais difícil ainda.
Acho que tive muita sorte com as fotos.
A máquina estava com algum tipo de conflito com a bateria, que mesmo cheia e carregada, durava apenas 10 cliques.
Eu ligava o temporizador, corria pra foto e a câmera se desligava…
Sinceramente não sei como consegui bater tanta foto bacana:

Por mais que eu pudesse ser levado para lugares lindos como esse, mais e mais eu percebia as coisas sobre outra forma.
Quanto mais eu tentava me convencer que esses lugares maravilhosos bastavam para tentar apagar as promessas esquecidas que nos foram prometidas, mais eu me convencia de que esse não era o jeito correto de se fazer as coisas.
Estava muito pensativo, porém calmo. Eu precisava aproveitar as coisas e cuidar de mim. Eu precisava encontrar a felicidade, onde ela estivesse. Afinal de contas, eu já tinha me decidido:

Só foi o tempo de correr até o vermelhinho, bater esta foto e voltar para o navio:

O Victoria partiu imediatamente. Começou a contornar a fila de navios:

Nessa hora os navios se dão adeus. É a coisa mais linda do mundo.
Oficiais, tripulantes e passageiros se juntam nas sacadas e varandas para acenar.
Encontrei outra shopgirl perdida por lá:

Ver as pessoas dando tchau pra nós é inexplicável. Não dá pra não se emocionar com isso:

O capitão rompe o silêncio com um apito longo e grave. A emoção queima nossos corações e o som nos faz vibrar por dentro:

De repente, os navios respondem com seus apitos em uníssono. A emoção se multiplica:

A gente ultrapassa o gigantão:

E assim, deixamos Tenerife rumo a Mindelo (Cabo Verde – África), a última parada antes de dar início ao Crossing (Travessia Transatlântica).

17- Funchal “Ilha da Madeira” (Portugal)

Depois que eu descobri o Shuttle Bus, minha vida nunca mais foi a mesma.
Na verdade, depois que eu descobri o Shuttle Bus surgiu uma nova questão: esperar ou não pelo Mr. Gratuito?
O Bus não era tão inconstante assim, entretanto, mesmo indo e vindo de 15 em 15 minutos, perdê-lo e esperá-lo + 15 minutos era um luxo que eu não poderia me dar.

O navio deixou Lisboa à meia-noite daquele cansativo, mas proveitoso dia.
Terminei o serviço às 22hs. Consegui descer no porto apenas para ligar para casa e encontrar a Dani e o francês pirata.

Dei uma última olhada para a agradável cidade, visualizei a imensa ponte com seus carrinhos indo e vindo, o Cristo iluminado, os enfeites de Natal acesos…
Fiz um pensamento bem positivo de um breve retorno. Definitivamente essa cidade havia me encantado.
Seguimos chorosos para a Ilha da Madeira.
Chorosos pois o 30 de Novembro seria dia de navegação, e dia de navegação…

Toda manhã recebíamos o Today, a programação de tudo o que ia acontecer no navio: shows, festas, bingos, vendas, cafés, buffet, restaurantes…
O Today de 30 de Novembro trazia a seguinte informação em italiano: “Navigazione nell’Oceano Atlantico con rotta WSW alla volta dell’Arcipelago Di Madeira, formato da 3 isolette. Nella piú grande vi è Funchal, suggestiva città ricca di fiori e frutta dai splendidi colori e profumi”.

Li isso e imediatamente comecei imaginar uma ilha paradisíaca perdida no meio do oceano.
Só fui associar a Ilha da Madeira com Funchal, quando uma amiga minha disse que eu não deveria perder por nada o passeio de teleférico até o topo da montanha.
Ela disse que uma vez lá em cima, o percurso de volta era feito ladeira abaixo, dentro de uma espécie de caixote-trenó-carrinho-de-rolemã empurrado pelos portugueses, como num tobogã.
Na hora me lembrei de uma entrevista do Repórter Record, que mostrava a aventura em descer as famosas ladeiras da Ilha da Madeira nesse caixote.

Eu ainda não sabia como arranjaria tempo para visitar esses lugares, já que minha amiga me alertou que só a subida de teleférico demorava uns 25 minutos.
Enquanto meu corpo trabalhava nas intermináveis tarefas do meu dia a dia, a minha mente trabalhava numa solução para Funchal.

Às 4:30hs da manhã do dia 1º de Dezembro, já era possível ver a Ilha de Porto Santo, uma das quatro ilhas do arquipélago. Aproximadamente às 6hs, navegamos pela costa da Ilha da Madeira e às 7hs, o navio bailava para se aproximar do porto.

A Ilha da Madeira ou Funchal fica mais perto do continente Africano do que do Europeu.
É curioso saber que essa ilha fica quase na altura de Marrocos e se traçarmos uma ilha imaginária, Funchal se encontra na altura das Bermudas…

A ilha da eterna primavera, o lugar onde o verão atravessa o inverno tem um clima suave e satisfatório.
Madeira não poderia ser nome mais apropriado para a ilha, uma vez que seus descobridores avistaram gigantescas árvores, cujos troncos serviram para reparar seus próprios navios.
O nome Funchal se deu pela existência dos funchos, uma espécie de planta aromática que cobria quase toda a ilha e se alargava até à beira-mar.

Apesar de ser uma região autônoma de Portugal, Funchal é a capital de província da ilha.
Por encontrar-se no centro de correntes extremamente favoráveis, a costa e o interior da ilha se tornaram uma gigantesca serra de flores coloridas e perfumadas.
Desde sempre Madeira é uma localidade turística. Os marítimos das longas viagens destinadas à África e Índias, antes de voltar para casa e enfrentar chuvas, neblinas e mar agitado, paravam algum tempo aqui para repousar do cansaço das travessias oceânicas. Cristóvão Colombo foi um dos primeiros mercantes a freqüentar a ilha, após ter se casado com a filha do governador de Porto Santo, viveu por aqui algum tempo.

A solução para conhecer Funchal se deu enquanto eu trabalhava na piscina.
Era certo que o navio partiria para Santa Cruz de Tenerife às 17hs, ou seja, o meu break das 15hs às 17hs não valeria absolutamente nada, já que a tripulação precisava estar uma hora antes do navio partir do que os passageiros.

Lembrei-me da minha família imaginária portuguesa que morava por aqui.
Mas é claro! Como não havia pensado nisso antes?

Rapidamente fui ao meu chefe com essa tática e perguntei-lhe se poderia trabalhar no meu break e sacrificar o meu horário de almoço, juntando meu horário de break… Fazer um bem bolado pra poder voltar às 16hs…
Depois de deixar bem claro que essa seria a única vez que ele permitiria isso, meu chefe nem sabia, mas havia me dado o dia mais legal de toda essa minha aventura transatlântica. Madeira foi minha paixão.

Eu voei para minha cabine, me vesti de Chapolin Colorado, apanhei a mochila, a câmera, alguns tostões para os postais de sempre, para um lanche no Mc Donald´s e para tentar subir o tal teleférico.

Nem bem sai e vi que o Bus não estava por ali.
Rapidamente fui acompanhando os passageiros. Estavam todos indo a pé, resolvi segui-los.

Contornamos o braço do porto e já alcançamos a cidade. O centro de Funchal era bem pertinho.
Pude ver o gigante branco lá atrás: bonitão, imponente, silencioso.
É engraçado olhar pra ele. O navio, visto de longe, mesmo pra gente que trabalha nele, transpassa uma paz, uma harmonia, uma calma. Ninguém imagina o inferninho que são aqueles corredores da área Crew (área de tripulantes) e a bagunça descomunal que é lá dentro:

A cada passo que eu dava eu me libertava.
Eu ia contornando as ruas limitadas por muralhas bem construídas até avistar os casarões monumentais. Mc Donald´s ao lado de Pizza Hut, pontos de ônibus coloridos ao lado de cyber cafés, lojinhas e bancas, barraquinhas e restaurantes abarrotados de gente do mundo todo. Comprei meu postal, meu selo e botei na caixinha redondinha no meio da avenida principal.
Essa avenida era de uma delicadeza tamanha. Seus jardins eram imaculadamente cuidados e suas plantas jurassicamente gigantescas:

Não resisti à beleza dessa avenida principal, ela era imensa.
Disseram-me para segui-la até o fim da vida, que eu encontraria o teleférico.
Nem tava me importando muito com a distância. Percebi que Funchal era segura já nos primeiros minutos de contemplação.
Os táxis, todos Mercedes Série E, já anunciavam a riqueza do lugar.
Andar por aquele lugar era inacreditável. Os vários New Beetles que passavam pela avenida principal cheio de gente jovem, as duas dúzias de ônibus de todos os tipos, cores e tamanhos embarcando e desembarcando turistas, gente do mundo todo sorrindo, tirando fotos:

De um lado havia o mar, do outro a cidade equilibrando suas casas no morro.
Aquela vontade em pedalar de bike por essas ruas quase me desviou do meu objetivo: o teleférico.
Observar a vida acontecendo era um prazer:

Encontrei o tal do teleférico.
Sem pensar duas vezes, apanhei a minha carteira e comprei a ascensão.
A ida + a volta custavam €14, mas como eu queria descer de caixote ladeira abaixo, paguei apenas a ida €10.

O teleférico é todo modernoso. A cabine é muito confortável, protegida, tem ar condicionado, musiquinha de elevador…
Ao passar o bilhete eletrônico na catraca e entrar na estação, a gente embarca numa plataforma especial, que abriga uma engenhoca cheia de trilhos suspensos e engrenagens giratórias, onde as cabines são colacadas no cabo de aço. Tudo é muito louco, pois essa gigantesca roda giratória funciona com velocidade diferente à velocidade de viagem.
Pensei na minha nona. Com certeza a Dª Tunica iria conseguir subir nesse teleférico. A cabine quase parava pra gente entrar.
Lógico que fui sozinho. Eu estava sempre sozinho, isso nem era mais um problema…
Tava tão contente, pois sou fanático por teleféricos. Esse especialmente me lembrava um dos mais fantásticos teleféricos que eu já andei na minha vida: Cerro Otto em Bariloche.
Saber que dentro de instantes eu estaria tendo mais uma dessas recordações teleféricas panorâmicas cravadas na minha mente me deixou impaciente.
Após registrar esse momento, entrei na cabine:

Minha teoria de que sempre é delicioso e inesquecível acessar um teleférico se confirmou na primeira contemplação:

Nem bem tinha saído do chão e já dava pra ver uma boa parte da cidade:

Voar é bom, navegar também é, mas viajar de teleférico é mais mágico. É voltar a ser criança. A sensação que se tem – seja teleférico de cabine fechada, de cadeirinha aberta, bondinho do Pão de Açúcar, skylift – é de se estar num magic carpet ride (tapete voador).
O barulho e a agitação da cidade vai sendo substituído aos poucos pelo silêncio das alturas, pelo som do vento:

Sabe quando não dá pra acreditar no que os olhos estão vendo?
Quanto mais eu olhava, mais eu não conseguia separar céu de mar, sonho de realidade:

A viagem de ida durou quase meia hora.
Desci lá no topo de Funchal e gelei. A temperatura estava completamente diferente.
Era como se a ilha tivesse duas dimensões:

Encontrei mil caminhos e vi um totem com informações:

Rapidamente tomei o caminho pra esquerda pra me informar sobre a descida através dos caixotes:

A mocinha do jardim japonês disse que os “Carreiros do Monte”, os meus “caixoteiros”, não estavam trabalhando hoje por causa do tempo.

Raios!
Eu queria tanto ser empurrado ladeira abaixo, que acabei ficando para ouvir mais sobre os carreiros.

A mocinha do jardim me disse que os carreiros estão sempre prontos pra descida. Vestidos como manda a tradição: camisa, calça branca, bota típica de pele e chapeuzinho de palha, estão sempre esperando seus passageiros entre um ou outro joguinho de cartas…
“O caixote” consiste nada mais nada menos do que um carro com forma de cadeira almofadada com cabeceira alta feita de vime. Ele desliza sobre esquis de madeira ensebados ladeira abaixo e sua capacidade de transporte variam entre duas ou três pessoas.
O combustível utilizado não se prende com petróleos ou derivados, a boa adrenalina move os aventureiros de idades tão díspares quanto se pode imaginar. Desde jovens em lua-de-mel a idosos de bengala na mão que precisam ser ajudados para subir no carro.

Agradeci a mocinha, que já queria me vender um ingresso para o jardim japonês e segui para o outro lado:

Acabei encontrando um caminho fantasmagórico: A M E I !!!
Todo mundo sabe que eu amo lugares misteriosos.
Esse aqui era bonito demais, mas envolto em nuvens do jeito que estava, o simples casarão ganhou ares de mansão assombrada.
O casarão que parecia abandonado era escuro e cheio de largas janelas fechadas.
Não havia viv’alma naquelas redondezas. Isso foi mais que suficiente para fazer minha cabecinha trabalhar e criar mini histórias fantasmagóricas com a velocidade da luz:

Andei mais um pouco e acabei encontrando duas estudantes alemãs. Insisti em algumas fotos na imensa praça coberta de árvores de chorão – aquelas que cujas folhas parecem chorar e atingir o chão – mas para a infelicidade do meu registro fotográfico, uma nuvem nos engoliu literalmente e as fotos se perderam.
Não consegui registrar nem os chorões, nem a igrejinha medieval que desapareceu aos meus olhos. Muito menos consegui encontrar as duas alemãs… Agradeci as meninas com um grito e descobri um outro ponto panorâmico:

Sim. Lá no fundo havia um cemitério! Hehehe…

Lamentei não ter comprado o bilhete de ida e volta por mais €4 e tive que desembolsar + €10.
Entrei na cabine quentinha e me encolhi:

30 minutos de sossego era tudo o que eu queria.
Olhar a Ilha da Madeira de lá de cima me esquentava o coração.
Era como um sopro de vida que entrava e me fortalecia:

Era informação demais para uma pessoa só.
Eu até me sentia um pouco egoísta em estar naquela cabine sozinho, com aquele monte de vida sob meus pés.
Pensei em me esconder na cabine e subir novamente, mas me lembrei do tempo que eu não dispunha:

Mas esses pensamentos eram passageiros.
Logo eu caia na real e me dava conta de que tudo aquilo era pra mim:

Fiz várias fotos posers. Não podia perder a oportunidade de registrar aqueles telhadinhos vermelhos todos voltados pra mim.
Aquilo era muita energia pra explicar apenas com palavras.
Das tantas fotos, pelo menos uma se salvaria.
Pra minha surpresa, conferindo as fotos mais tarde, comprovei que mais do que uma ficaram boas:

Poder sentir que o gigante branco lá de longe me causava uma sensação… Sabem, até hoje não consigo explicar direito. É uma mistura de sentimentos.
Nem o meu band-aid ficou de fora dessa:

Lembrei-me da tão sonhada casa da minha mãe:

Contemplei mais um pouquinho a riquesa alheia:

Aproveitei o restinho da viagem:

Eu não sei o que era mais inconveniente: ver a cada minuto os ponteiros de todos os relógios parecendo estar mais acelerados do que deveriam estar ou ter a visão do gigante branco atracado lá no horizonte, me lembrando a cada piscar de olhos que eu ainda tinha uma tonelada de trabalho pra fazer:

Descer do céu é sempre difícil.
Antes de pisar novamente naquela terra florida e perfumada, fiz um pensamento bem forte para poder voltar algum dia com a minha família, subir novamente o teleférico, visitar o jardim japonês, registrar a igreja, seus chorões e descer a ladeira com os carreiros:

Nem bem desci e já estava próximo ao Mc Donald´s e a Pizza Hut.
Precisava achar aquelas cabines telefônicas pagas e me indicaram subir uma daquelas bonitas ruas em direção a pracinha dos taxistas.
As ruazinhas já estavam todas enfeitadas para o Natal. Desejei poder estar ali de noite para ver a iluminação natalina, mas lembrei que às 17hs o navio zarpava. Apertei o passo por esse caminho desenhado no chão:

Após encontrar um cyber café e falar com minha mãe por quase 20 minutos pagando apenas €2, resolvi tirar uma foto da fila dos táxi:

Foi a minha sorte grande, pois assim que acabei de tirar esta foto, vi as meninas do shopping do navio: Marcelinha cor-de-rosa e Chris tudo de bom.
Muita, muita sorte! Essas duas gurias foram as companhias perfeitas até o final dessa aventura.
Minha câmera nessa hora já estava dando seus espirros traumatizantes e quase me deixou na mão.

Encontrá-las me deu tanta alegria, mas me fez esquecer completamente que eu, até então, não tinha almoçado:

A caminho do Mc, encontramos uma parque com um gramado tão verdinho que não resistimos. As meninas mergulharam na grama. Fizemos várias sessões fotográficas declarando o nosso amor pela ilha. Essa foto tem um quê “tokusatsu” (superheróis japoneses) e foi inspirada numa linda foto que o Gamewatch tirou lá no Japão:

As meninas ficaram descalças. Pularam e rolaram na grama como crianças. Eu tentei pegar a bagunça delas, mas só saiu minha carona de felicidade. Vou precisar pegar as fotos com as meninas:

Era impossível não brincar com o nosso branquinho escondidinho por entre as árvores e suas chaminés amarelinhas:

Nem bem deu tempo de descansar:

Foi só o tempo de comprar um Big Mac, devorar o hambúrguer com apenas 3 mordidas, quase morrer engasgado com a Fanta, guardar as batatas na mochila, correr como um louco para honrar a pontualidade e ainda assim, conseguir centralizar o navio numa foto em movimento: