Arquivo da tag: Bahia

23- Ilhéus “Bahia” (Brasil)

A mais forte recordação de Ilhéus, não é assim tão agradável.

O cheiro de peixe putrefado do porto incomodava não só os gringos, mas a todos nós.
Era meio insuportável.
Bom, meio é até um elogio. Era desumanamente alienígena aquele cheiro!

Não dava pra ligar o “foda-se” e ignorá-lo.
Por mais que tentássemos nos acostumar com aquele fedor, mais ele penetrava nas nossas narinas.

Eu estava assando sob o escaldante sol do nordeste lá na piscina, quando meu amiguinho indonesiano me avisou que estavam me chamando lá embaixo, na Gangway.

“-Pá!” – pensei: “-Será que eu tenho algum conhecido aqui em Ilhéus?”…

Minhas suposições evaporaram ao chegar na Gangway.
Era o chefe do seguranças que solicitava minha ilustre presença.
Ele estava precisando de alguém pra ficar entre uma pequena passarela, instalada toscamente em cima de uma estrada de ferro.
Eu precisaria apenas segurar um enorme guarda-sol, pra literalmente não cozinhar, e alertar os passageiros pra andarem com cuidado.

-Attention, sir!
-Take care, mademoiselle!

Tava tão quente, mas tão quente, que meus pés dentro dos meus sapatos brancos pareciam borbulhar.
Aproveitei pra me queimar mais um pouquinho com o mormaço baiano ininterrupto.
Santo Deus!

Foi assim que eu conheci a dinamarquesa!

Uma velhinha super simpática estacionou sua canseira no meu guarda-sol.
Ela podia muito bem esperar o marido lá no quiosque ou na sombra colossal do navio, mas não, ela ficou ali comigo, no meio do caminho entre o céu e o inferno, naquele deserto de concreto e sol.
Graças a essa distinta senhora escandinava, tive o diálogo em inglês mais formidável de toda a viagem. Nem eu era capaz de imaginar que meu inglês pudesse me conduzir por uma conversa tão profunda.

Após falar sobre a minha vida e sobre a realidade da vida a bordo, a vovózinha me convidou para ir visitá-la na Dinamarca algum dia.
Agradeci o convite e tanta gentileza, indiquei o Shuttle Bus e acenei um adeus. Provavelmente nunca mais a veria de novo…

Olhei para o relógio! Eu havia passado do ponto de cozimento!
Eu estava tão quente, tão quente, que o segurança quase me mandou pra enfermaria.

Que enfermaria, que nada!
Eu precisava correr pra minha cabine, trocar de roupa, apanhar minha mochila, minha câmera suicida e tentar tomar um Guaraná e molhar os pés numa praia baiana, digo, bacana.

Voei.
Em 15min lá estava eu, no mesmo Shuttle Bus que a dinamarquesa e seu marido.
Após conversar mais um pouquinho, chegamos ao centrinho de Ilhéus!
Despedi-me deles e apertei o passo.

Como aquela cidade me lembrou os bairros paulistanos de Santana e Tucuruvi, mas claro que mais bonitinha, mais bem cuidada… Mas aquele caos urbano era igualzinho…
Passeei entre Casas Bahias, lotéricas, escolas de computação, largas praças, igrejinhas… Consegui até achar a Casa de Cultura Jorge Amado, mas olhei para o relógio e não dava nem pra pisar no primeiro degrau da construção.
Tentei fotografar a fachada, mas a bendita da câmera se recusou a ligar…

O jeito foi entrar no primeiro boteco atrás da Guaraná, pois o banho dos pés ficaria pra uma outra oportunidade.
Não tinha Antarctica. A Quat foi mais que suficiente.

Uma garoa refrescou a espera pelo próximo Shuttle.
Um bando de conhecidos desceram do navio e quase me arrastaram com eles de volta. Eles estavam indo pegar uma praia.

“-Bá!” – pensei: “-Passei por tantas cidades litorâneas tão bonitas e não consegui nem molhar os pés no mar…”…

Engoli o último sopro de ar puro e voltei pra nave.

Definitivamente vou ter que voltar à Bahia.
Ilhéus não pode ser apenas isso!

22- Salvador “Bahia” (Brasil)

Sempre fugi de carnaval…
Nunca fui fã de axé…
Muito menos provei acarajé…

Também não posso dizer que o batuque do Olodum me incomodava… Ou que o tempero da baiana fosse menos picante…

Salvador para mim nunca fora um lugar almejado.
Era um dos destinos mais escolhidos entre meus amigos, mas longe de ser meu destino dos sonhos.
Claro que eu não negava a curiosidade de estar ali um dia… Só não esperava que fosse tão rápido.
Talvez o fato da visita do Michael Jackson tenha trazido um pouco mais de fama ao lugar… Talvez não.
Mesmo assim, Salvador era apenas uma imagem desfocada na minha mente.

Era…

Salvador se apresentou pra mim como um abraço de um dia de domingo.
Nem muito sol, nem muita sombra.
Nuvens no céu, como diriam os anjos.

O navio atracou onde a Bahia é mais famosa.
O Pelourinho logo acima, o elevador logo adiante e a Baía de Todos os Santos abençoando os abençoados.

Lá estava eu dando aulas de baianês pros meus amigos indonesianos:
“-A gente precisa subir aquele elevador! Aquele logo ali!”.
Eu havia perdido de subir o Santa Justa em Lisboa. Não perderia o Lacerda por nada!

Salvador não é só carnaval. Salvador é acima de tudo cultura. É uma abundância de cultura.
Na verdade, é cultura em cada esquina, a cada passo.

A imagem que a gente faz de que Salvador é apenas bagunça e carnaval, é coisa típica de sudestino desinformado.

Algumas horas trabalhando com aquela cidade como paisagem de fundo, foram suficientes para morrer de amores por Salvador pelos próximos cem anos.

Combinei com os indonesianos do trabalho em sairmos todos juntos.
Eles, diferente de mim, amavam axé e eram apaixonados por carnaval.
Da pimenta mais picante eles faziam refresco, ou seja, a Bahia pra eles tinha um “quê” de Bali, Sumatra e Jacarta.
Eles estavam excitadíssimos!

Marcamos encontro na Gangway do navio.
Lá estavam eles! Baianos orientais! Havaianas nos pés, calças largas de capoeira, camisetas de capoeira, pingentes, colares, pulseirinhas…
Hahahaha… Esse fanatismo deles pela capoeira era algo cativante.
O jogo de capoeira e a pimenta estão no coração dos indonesianos do Costa Victoria, assim como o futebol e a caipirinha estão no coração dos brasileiros.

Nem bem saímos e percorremos aquela avenida do porto até viramos para a direita, dando de cara com o Mercado Modelo!
Caraca! Que coisa linda!

Atravessamos aquela divertida bagunça caótica de lojinhas e seus penduricalhos extravagantes, resistindo fortemente às cores dos lindos artigos artesanais. Haveria tempo para eles mais tarde.
Foi assim que eu vi a pontinha do Elevador Lacerda:

Bixin, aquilo era bonito demais!

O Lacerdão se mostrou pra mim como um farol em artedecô.
Na verdade, de frente, ele mais parecia um farol do que um elevador, mas quando a gente o vê de lado, percebe suas duas torres.
A primeira torre sai da própria rocha e perfura a ladeira da montanha, servindo pra equilibrar as cabines. A segunda fica mais visível e se articula à primeira torre, descendo até o nível da Cidade Baixa:

Por R$0,05 sobe-se o Lacerdão até a Cidade Alta.
A viagem não dura nem um minuto.
Uma pena o elevador não ser transparente. A imagem da elevação só se faz na mente da gente.
Ao percorrer o corredor do Lacerdão pra sair na Cidade Alta, a gente se depara com uma das vistas mais famosas de Salvador: o Lacerdão em seu ângulo fotográfico mundialmente conhecido e a Baía de Todos os Santos se gabando de beleza extrema lá embaixo:

Não tem cristão, mulçumano, protestante ou budista que não se emocione com essa panorâmica.
Essa é a primeira flechada que acerta o coração e faz vc compreender porque a Bahia encanta o mundo.

Eu estava tão desnorteado de encantamento que registrei o Mercado Modelo e a esquininha do porto lá no fundo. Era tudo tão próximo:

Adentramos então às ruas do Pelourinho.
Que mané Michael Jackson que nada! Aquilo por si só era tudo que aquele lugar precisava pra ser famoso.

O ar naquelas ruas era de história.
O centro histórico da cidade de Salvador, o centro histórico da Bahia.
Pra falar a verdade, o centro histórico do Brasil, pois foi na Bahia que o Brasil começou, foi em Salvador que começou a Bahia e foi no Pelourinho onde tudo começou!

Percorrer aquelas ruazinhas, quase me fazia esquecer que ali era o lugar onde os senhores de engenho chicoteavam publicamente seus escravos.

Com certeza, a posição geográfica da cidade contribuiu e muito para tanta história.
Tomé de Souza quando chegou aqui, cumprindo as ordens do rei, fundou a cidade cujo nome homenageia Jesus Cristo, o Salvador, no melhor ponto para a construção da “cidade fortaleza”, o Pelourinho.
Era impossível não reconhecer as vantagens de se fixar no Pelourinho: a parte mais alta da cidade, o porto logo em frente, próximo ao comércio… Sem contar com a proteção natural da grande depressão existente que forma uma muralha, de quase noventa metros de altura, por quinze quilômetros de extensão, o que facilitaria a defesa de qualquer ameaça vinda do mar.

Com o fim da escravidão, em 1835, o local passou a atrair artistas de todos os gêneros e passou a ser um riquíssimo centro cultural atraindo turistas.

A cidade vista do navio me lembrou Lisboa. Não por sua característica arquitetônica do barroco-português, mas pelo grande número de igrejas num espaço geográfico tão pequeno:

Não dava pra esconder a alegria:

É bom ter a história viva na nossa cabeça.
O melhor turismo do mundo é aquele que se faz, com pelo menos um pouco de história, de informação e de pesquisa.
Muitos turistas passavam ali com cara de bunda. Soltando “gases exclamativos aterrorizantes”. Esses não mereciam as fotos que tiravam.
Falando francamente, quem não merecia a câmera que carregava era eu.

Tá certo que eu não sabia onde ficava a Igreja do Senhor do Bonfim – pois eu queria fazer um pedido lá pra minha tia Lena – mas isso não me impediu de fazer vários pedidos sempre que eu avistava uma igreja…
Afinal de contas, não dava pra fugir muito do meu caminho pré-definido. Eu não contava com tanto tempo…

Fui conduzindo os meus amigos capoeiristas para as compras de penduricalhos, berimbaus, cocadas e acarajés…
Eu era o tradutor oficial dos indonesianos.
Eles compraram um mundo de artigos baianos, filmaram tudo, fotografaram como loucos e experimentaram vários pratos típicos.
Por estarem vestidos a caráter, os indonesianos capoeiristas eram cumprimentados a todo instante pelos soteropolitanos.

Aliás, nada melhor do que um post sobre Salvador, para desmistificar o porquê do gentílico “soteropolitano”.
Tudo porque Salvador – de seu antigo nome completo “São Salvador da Baía de Todos os Santos” – cujos habitantes são chamados pelo etnônimo “soteropolitanos”, foi criado a partir da tradução do nome da cidade para o grego: Soteropolis.
Deixando a Wikipédia de lado, a recepção calorosa dos soteropolitanos era um atrativo à parte.

Fomos numa sorveteria de frutas tropicais, numa dessas tantas plaquinhas coloridas penduradas nas fachadas das lojinhas.
Escolhi o sorvete de massa de maracujá. Estava irresistível.
Os indonesianos até conheciam a passion fruit (maracujá); mas daquele jeito, nem eu havia experimentado.
Talvez fosse o fato de que tínhamos diariamente como sobremesa no nosso almoço lá no navio, sorvete de chocolate, café ou creme… Sabores menos tropicais.
Talvez fosse o fato de que tínhamos que pegar o sorvete ao mesmo tempo em que apanhávamos a comida quente, o que acabava fazendo com que o sorvete se transformasse em sopa de chocolate, café ou creme.
Talvez fosse o fato de que o sorvete do navio fosse melado, apagado…
Talvez…

Mas era fato que aquele sorvete de maracujá, tomado ali com os amigos, nas ruas do Pelourinho era muito mais gostoso…

E fomos caminhando.
E fomos descendo a ladeira.
E eu tentei tirar fotos com meus amigos… E a câmera parecia só querer funcionar nas mãos deles:

E assim fui contemplando a colorida arte Naïf tão presente naquelas calçadas.

O dia foi voando e as duas horinhas terminando.
A gente ia apertando o passo. Sacrificando se distanciar um pouquinho mais. Sacrificando a próxima rua, a próxima descoberta… Riscando lugares da lista de prioridades de última hora.

Olhar o relógio vai se tornando algo maçante… A preocupação vai aumentando, os batimentos também…

É. É hora de voltar pra nave!

Salvador me pegou desprevenido, me laçou e eu nem pude resistir.
Não encontrei carnaval, mas ouvi o batuque do meu coração.
Suas ruas, seu povo, sua história, seu ar:

Por não ter provado o acarajé, volto lá algum dia desses nem que seja a pé.