183- 08) London Paris

O despertador tocou bem cedo.

A noite anterior havia terminado bem tarde.
Em meio a preocupação de fazer o menor ruído possível para as pessoas do andar debaixo, socando compras desprogramadas malas adentro, adormecemos na metade da madrugada.

Acordar no último dia londrino preencheu meu coração com uma confusão sem solução.
A vontade de viver ali para sempre, contrastava com o desejo de chegar logo a Paris e continuar a Eurotrip que estava apenas começando.

Ainda com cara de sono, registramos um pouco do nosso belo quartinho no Astor Hyde Park e descemos para um rápido café da manhã.

O próximo passo foi voltar ao quarto e carregar as benditas malas escadaria abaixo.
As velhas escadas rangiam com o peso das inacreditáveis malas.
Desci com muito cuidado.

Vai ser difícil esquecer aquela nossa entradinha VIP:

Fizemos o check out rapidamente.
A Brooke não estava. Deixamos um abraço pra ela, agradecemos a australiana que a substituia e nos despedimos do impecável hostel.
Olhar aquele corredor com aqueles guarda-chuvas ainda secando, novos hóspedes chegando…

Por mais que estivéssemos ali, respirando aquele ar geladinho e caminhando naquelas ruas reais, era certo que demoraríamos um bocado para estar ali novamente e infelizmente, neste momento, era tudo o que eu podia pensar.

Adeus, Astor Hyde Park.
Voltamos em 2012 para os jogos olímpicos.

Caminhamos pela nossa linda avenida sob um sol amarelinho, envergonhado…
As pessoas já passavam por nós para irem trabalhar, os estudantes caminhavam em grupos para suas escolas, mamães empurravam lindos carrinhos de bebê…

A vontade de fazer parte daquilo tudo era muito forte e machucava um pouco.
Uma sensação de querer ficar, de construir alguma relação com aquilo tudo se deu em mim.

Se eu estava assim, minha irmã estava elevada à décima potência.
Ela formulava planos enquanto empurrava a mala – que já apresentava problemas na rodinha traseira: “-Se conseguirmos mudar o trem para um horário mais tarde, podemos ficar passeando o resto do dia, não me importo de sacrificar Paris”.

Eu sabia que ela queria subir a London Eye.
Ok. Poderíamos tentar mudar o horário, mas por se tratar do Eurostar, fiquei pouco otimista.

Tomamos o metrô até a linda St. Pancras.
Carregar as malas pesadas pelo metrô de Londres, mais uma mochila nas costas e uma bolsa lateral não é muito legal.
Em algumas baldeações, há grandes corredores subterrâneos para se percorrer. As estações londrinas são verdadeiros labirintos. Anda-se demais por elas. Estar carregado com malas torna a coisa quase surreal. Há caminhos que não possuem escadas rolantes ou elevadores e vc precisa literalmente ter muque.

A estação St. Pancras é um lugar difícil de descrever.
Organizada e confusa, cheia de vida, de risos e sorrisos.
Viajantes de todas as partes do mundo se reunem para continuarem suas aventuras.
Dá pra se ouvir um idioma diferente a cada dez passos.

Lá encontramos o guichê do Eurostar, localizamos o primeiro atendente disponível e com muita dificuldade, tentamos explicar-lhe britanicamente a nossa situação.
Depois de muitos phrasal verbs mal colocados, o atendente pede nosso passaporte e vê que somos brasileiros.
Hahaha… Na hora, ele mudou o idioma!

Foi então que o simpático brasileiro nos atualizou de como poderíamos conseguir mudar nosso horário. Não seria fácil, mas era possível.
De qualquer forma, precisaríamos pegar uma outra fila e falar com um outro atendente, que provavelmente não usaria o português como língua comum.

Num primeiro momento até vi faíscas saltarem dos olhos da Jú, mas logo depois o outro atendente veio com a confirmação de que não seria possível fazer a mudança.

Voltamos um pouco cabisbaixos para a fila do atendente brasuca, mas eu tratei logo de lembrar a irmã de que a cidade luz esperava por nós.
Ora bolas! Não podemos nos apegar tanto assim por uma cidade!
É apenas primeira! Faltam tantas outras!

E foi com esse pensamento que nos deslumbramos com a explosão de viajantes no galpão de espera da St. Pancras.
A variedade de pessoas bem humoradas era tão colorida que era impossível não se empolgar.

Havia um dúzia de tiazinhas com cabelos brancos, com carinhas de rainha da Inglaterra que pareciam crianças em sua primeira excursão escolar.
Velhões de barba branca com aspecto de Dom ou Sir, sérios em seus pensamentos nublados e suas malas centenárias…
Jovens com mochilas esquisitas, crianças bem comportadas vestidas como pequenos príncipes e princesas, ingleses indo, franceses vindo…
Havia também alguns brasileiros metidos… Mas esses, a gente fez questão de evitar.

Faltava pouco para deixarmos Londres.
Nosso trem já havia parado na plataforma.
Não tardou muito para se formar uma bonita fila.

Estávamos um pouco receosos de como seria passar pelos policiais da imigração francesa ao sair de Londres.
Novamente deixamos a pastinha de documentos ao alcance das mãos…
Não nos pediram mais que nossos passaportes e nossos tickets…

Foi muito sossegado.
Os funcionários da Eurostar tem uma educação impecável, mesmo o pessoal da imigração.
O processo foi muito rápido.

Como já tínhamos passado pela vistoria em Zurique, na Suíça (onde a Jú teve que descalçar literalmente suas botas) e no desembarque de Londres (simpático e caloroso), já tínhamos um pouco de experiência do que esperar, de como se portar e do que levar nas bagagens de mão para evitar atrasos e constrangimentos.

Bagagem de mão pela esteira do Raio X e as pesadas malas por outra vistoria (muito mal feita).
Em poucos minutos estávamos subindo à plataforma.

Ver aqueles velozes trens descansando suas modernas carcaças sob aquela estrutura de aço, por onde vazavam os primeiros raios de um dia promissor de muito sol, causou frio na barriga.
Aquela sensação boa que antecede uma viagem fantástica estava agora se revirando dentro minha barriga.

Ver um bichão daqueles parado numa plataforma tão deslumbrante como aquela era o presente de despedida mais singular que poderíamos receber de Londres.

Não foi muito difícil encontrar nosso vagão.
Que divertido fazer esse procura.

É como nos filmes.
Tudo é muito cinematográfico.

Por mais simples que sejamos, não há como não se sentir especial.
Vc está prestes a embarcar numa jornada que tem como estrada uma das sete maravilhas do mundo moderno da engenharia.
Por mais tapado que vc possa ser, por menos informação sobre isso que vc possa ter, tudo é muito futurista e cheio de rituais.

Não há como não se sentir bem, importante ou parte de algo grandioso.
É como embarcar num portal dimensional. Cá estamos em Londres, já já em Paris.

O medo que invade o corpo momentos antes de embarcar num carrinho de uma montanha-russa é o mesmo que antecede embarcar num trem que irá cruzar parte do oceano.
Imaginar este belo trem abaixo do fundo do mar é no mínimo um exercício de ficção científica real. É surreal!

Pensando tudo isso, seguimos até o nariz do Eurostar.

Para minha surpresa, vi que ali, na superfície daquele nariz, vários passarinhos, mariposas, morcegos e outros insetos e bichos de pequeno porte voadores haviam sido simplesmente massacrados.
As manchas de sangue eram bem visíveis e transformavam a frente do trem numa tela impressionista com explosivas manchas vermelhas.
Pobres voadores. Não havia a menor chance de sucesso cruzar o caminho daquele trem.

Só após estudarmos muito, entramos no Eurostar.

O Eurostar era o único trem que pegaríamos na classe econômica.
Fiquei pensando como deveria ser a primeira classe, já que a classe econômica era simplesmente perfeita para nós.

Colocamos nossas pesadas malas numa área reservada próximo a entrada do nosso vagão, ultrapassamos as portas automáticas e encontramos o conforto de nossas largas poltronas.

O trem não atrasou a partida nem por um segundo. Pontualidade britânica!

Ele simplesmente começou a andar sem que percebêssemos.
Ficou por um bom tempo andando muito muito devagar e então foi ganhando velocidade delicadamente.

Fomos deixando o centro de Londres enquanto um sol quente fazia fusquinha pra gente através do vidro.
Londres ia ficando pra trás…
Toda aquela aventura ia ficando pra trás…

No Ipod, dois fones compartilhados. Ainda dá pra se ouvir o tema de Londres que acompanhou-nos por toda a nossa passagem pela terra da rainha. We are in London by Pet Shop Boys.

Na lista de músicas, as canções mais tocadas pela principal rádio Londrina. Air (banda francesa de eletrônico atmosférico) era Top 10. Sempre que ouvir essas músicas me lembrarei desse trecho da viagem.

No horizonte, olhando através da janela, novas aventuras se mostravam…
Os olhos tentavam enxergar além dos trilhos, mas éramos engolidos por túneis e mais túneis. Nossos ouvidos sofriam com a forte pressão, mesmo na superfície. E ficamos assim, de túneis em túneis até sermos devorados pela escuridão profunda do verdadeiro túnel que atravessa o Canal da Mancha, o Eurotunnel.

O aumento de velocidade era um processo muito vagaroso.
A mudança era quase que imperceptível.
Foi quando percebemos que estávamos a quase 300 km/h.

O conforto é o ponto alto.
Não há movimentos bruscos. O trem flutua pelo trilho.

O Eurotunnel é escuro e silencioso.
O trem vibra muito pouco e o serviço de bordo é fabuloso.
Além dos croissant franceses mais delicados de toda a Eurotrip, revezamo-nos um de cada vez, uma visita ao vagão restaurante.
Lá, conversei muito com um francesinho tagarela que me serviu mais um croissant e me mostrou um rápido panorama cultural sobre a Paris que estávamos a descobrir.
Ele era muito divertido e eu fiz bem em gastar meu pobre francês com ele.
Na volta, trouxe algumas batatas e uma Coca pra Jú.

A escuridão e o silêncio do túnel provocavam a ausência de paisagem, a falta de uma atmosfera.
A claustrofobia era dominante.
Nesse momento, a Inglaterra foi ficando pra trás, tornando-se lembrança recente, adquirindo seu espaço físico dentro dos compartimentos do meu cérebro.

A falta da luz e do som transformam-se em reflexão.
A velocidade é a única arma que distorce a claustrofobia.

London Paris pra mim sempre fora um EP do Pizzicato Five.
Agora era muito mais que isso.

3 Respostas para “183- 08) London Paris

  1. Nossa! Eu sempre quis saber como funcionava esse Eurostar, não tinha certeza se ele passava mesmo embaixo do oceano… mas como é isso?? o trem vai inclinando lentamente por um tunel até chegar no fundo da água??? é muito digno isso de vc ir pra um país pro outro em questão de horas… uma das minhas coisas preferidas em relação à Europa! Mal posso esperar pra ler sobre Paris!

    Absss
    Ah, e eu começei um blog novo.. depois passa lá;;; deixei o link no campo “site”🙂

  2. colei o link errado ¬¬

    rsrs

    o link certo eh este:

    http://novasformasdeexpressao.blogspot.com/

  3. Uau, sugoi pra burro esta viagem meio que submarina!
    Gostei da super combinação Doritos plus Coca-Cola, the best!
    Abraços ae Jon

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