49- Ukiyo-ê & Korean Girl

Fui nesse sábado à Pinacoteca, acompanhado pela Mrs. Sae, “The Korean Girl”.

Estilista, mais pra modelista e também ilustradora, a guria também bebe da fonte que é a ilustração oriental e, indiretamente, é influenciada pelo Ukiyo-ê e todo esse mundo flutuante.

Não dava pra ir lá sem ela.
Apesar do meu interesse estar focado no workshop do pessoal do Japan Ukiyo-E Museum, eu precisava mostrar os kimonos e a exposição “Arte Do Período Edo” pra guria.

Encontrei-a tomando o restinho de sol à borda do Parque da Luz.

Chegamos bem cedo pra garantir a senha. 144 lugares não é um número muito bonito!
Certifiquei-me de estar com a câmera afiada pra registrar alguns detalhes, confirmei permissão para fotografar o workshop e lá fomos nós.

O workshop começou com uma rápida explicação do que é o Ukiyo-ê pelo curador Kunio Sakai.
Ukiyo-ê são gravuras coloridas feitas com técnica de xilogravura à base de água, o que confere fluidez e tons claros à obra. O desenho é talhado e pintado em blocos de madeira, e depois passado para o papel.

Já falei muito sobre o Ukiyo-ê no meu antigo flog, o /JEDB. Esse estilo era parte do meu projeto de pesquisa para o Monbukagakusho.
Eu não fui bem na provas do terrível exame, mas nunca abandonei a idéia do projeto.

Após a explicação do curador, o mestre impressor Shingo Ueda começou o processo xilográfico.
O impressor, super reservado, mas bem simpático, aplicou tinta em determinados lugares na placa de madeira…

Não resisti ficar tirando fotos do lugar onde eu estava.
Avisei a Sae que iria registrar os processos lá na frente e fui.

Enquanto o impressor nos contava curiosidades e conversava com a platéia através do tradutor, também demonstrava sua técnica.
A tradução das explicações, um brasileiro fluentíssimo em japonês realizava na hora. No começo, pensei que este tradutor estava seguindo algum script, pois ele era infalível. Com o passar do workshop, pude ver que o cara era realmente iluminado. Ele dominava o idioma japonês de um jeito meio mágico. E ele nem era japonês!

Para se fazer uma das xilogravuras mais famosas do Ukiyo-ê, aquelas ondas de Katsushika Hokusai “Kanagawa-ooki Nami-ura” (A Grande Onda De Kanagawa), Shingo-san utilizou-se de várias placas, que continham os sulcos entalhados para imprimir as diferentes partes do mesmo trabalho.

Ele deitou delicadamente uma folha úmida de papel japonês em branco na placa de madeira com tinta, aplicou pressão à folha com o auxílio de uma ferramenta confeccionada com bambú e cordas cheias de nós, e assim, obteve a primeira impressão.

A impressão no papel ainda úmido era sutil, incompleta.
Para se alcançar o objetivo final, era preciso repetir esse processo utilizando a mesma folha de papel japonês nas outras placas.

Coisa de louco, coisa de japonês!
Lindo, a mais pura tradição japonesa!

Paciência por ser um trabalho em camadas.
Sutileza pela leveza das cores.
Poder e precisão para aplicar a pressão perfeita.

Captei uma ínfima parte da técnica do mestre.
Detalhes e mais detalhes, técnicas passadas de mestre para discípulo.

A culpa foi dele em perguntar se alguém ali queria ser seu discípulo. Eu não esqueceria disso!

Décadas de experiência e ainda assim, na última impressão, o mestre nos diz que está realmente nervoso.
É na impressão final que se colocam os tons mais negros e é preciso muita concentração, mesmo pra quem domina a técnica. Qualquer deslize aqui, pode significar a ruína de todo o processo.

Como haveria de ser, o resultado final estava impecável. Porém, a impecabilidade era apenas aos nossos olhos.
O mestre disse que infelizmente, sob pressão de uma apresentação, o resultado final não fora feliz. Por isso mesmo, essa xilogravura não poderia ser dada, doada, muito menos comercializada. Ela deveria ser considerada apenas como um exercício.

Ocidentais demoram pra entender atitudes como esta.
A platéia soltou um suspiro inconformado. O mestre sorriu!

Quase três horas depois, estávamos lá, eu e a Sae, trocando idéia com o mestre impressor.
Através do amigo tradutor, eu disse para o Shingo-san que tinha interesse em estudar o Ukiyo-ê no Japão, contei um pouco do meu projeto e em troca recebi seu cartão.

O Kunio-san, o curador, também quis saber um pouco mais do meu projeto, pediu pra eu contatá-lo através do e-mail e me presenteou com uma cópia de um dos trabalhos mais lindos do Ukiyo-ê pelo mestre Hiroshige, a Vista do Monte Fuji a partir de Satta, o “point” na Baía de Suruga. A Sae ganhou uma linda “Bijinga” (retratação da beleza feminina).

Comunicamo-nos em japonês, inglês e português. Aquela mistureba que brasileiro adora fazer.
No final ganhamos até “Shashin Ishoni”. Hehehe…

Saímos do workshop tão animados que quase esquecemos de contemplar a exposição “As 36 Vistas Do Monte Fuji” (Fuji Sanjyuurokkei) do mestre Hiroshige (1797 – 1858). Ele é considerado o último mestre do Ukiyo-ê.
As xilogravuras são obras de arte. Através delas é possível estudar os hábitos e costumes do Japão antigo.
A série retrata o Monte Fuji visto a partir do campo, da cidade e de outros locais que fazem parte do cotidiano japonês, durante as quatro estações do ano.
As obras pertencem ao Museu de Ukiyo-ê do Japão, localizado em Matsumoto (Província de Nagano), reconhecido mundialmente por seu rico acervo.

De lá, contornamos o imenso quarteirão do Parque da Luz e acabamos caindo nas ruas do bairro coreano do Bom Retiro.
Mrs. Sae como boa anfitriã que é, levou-me para um passeio pela rua principal, apinhada de restaurantes típicos, lojinhas de doces e salgados…

Provei doce coreano pela primeira vez: Jong Lo bok tuk ou seja lá como essa gostosura se chama.
É uma espécie de moti. A diferença da versão coreana pra japonesa está na massa que envolve o doce de feijão. O coreano tem a massa mais consistente e é umedecida com o famoso óleo de gergelim árabe, o Tahine!

Ganhei da guria uma bandeja inteirinha desses doces. Quase que não sobra nenhum pra contar história! Arigatou, Sae!

Ainda passamos pelo Parque da Fatec, aquele de frente pra um batalhão da Polícia Militar, ao lado do metrô Tiradentes.
As tiazinhas coreanas iam e vinham em sua caminhada religiosa. O frio parecia não incomodá-las, mas rachava minha pele!
Conversamos um quilômetro de palavras e mais uma vez, notei como essa Korean Girl valia ouro!

Cheguei em casa meio hipotérmico. Hehehe…
Amo frio, mas aquele lá tinha poder demais no ar…
Cheguei, fiz um chá quente, dividi os doces coreanos com meus pais e fui desenhar as influências do dia!

D+++++++++++++++++++++

Ps: Agradecimentos especiais ao Sr. Roberto Palazzi (Gestão Cultural). Sem ele, voltaríamos sem nossas cópias do Ukiyo-ê e sem o convite para o workshop de Sumi-ê. Arigatou, san!

2 Respostas para “49- Ukiyo-ê & Korean Girl

  1. bola p/frente, joão!! 🙂

  2. legal, gostei do registro! eu estava lá na pinacoteca, suas fotos me ajudaram a relembrar o dia!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s