46- Tigarah, Dia 1

Encontrei as portas do 5º andar fechadas.
A monitora loira do Sesc estava por lá:
-Oi, menino! Sua japonesa já está æ dentro dando entrevistas pra Record e MTV!

Meus olhos se arregalaram, aquele arrepio bom percorreu a espinha e um segundo depois estava eu tentando convencê-la a me deixar entrar.
Ela, muito educada e totalmente profissional, disse que eu não poderia participar. Normas da casa coisa e tal…
Ela sabia que eu era comportado…

Eu tenho o repertório de ter participado da coletiva da Björk, da Miho Hatori…
Sou fã, não sou fanático.

Em minha última tentativa, eu prometi ficar quietinho, na minha, sem qualquer tentativa de aproximação ou registros fotográficos…

Ela sumiu portas adentro com a minha possibilidade.
Em poucos segundos, ela voltava com a minha permissão.

Entrei naquele tão familiar espaço e um monte de repórteres, jornalistas e câmeras já estavam posicionados na região dos banners dos kanjis. A entrevista acontecia ali.

Fui arrastando os pés, para não dar a sensação de deslocamento e me aproximei. Eu não sabia até onde poderia ir.

Rapidamente localizei três japonesas que estavam sentadas num cantinho. Acabei descobrindo que trabalhavam para o Nippo-Brasil. Como boas jornalistas que são, não perderam tempo em fazer uma entrevista comigo.
Respondi travado algumas curiosidades sobre a carreira da tigresa, dei o site do meu zoológico, meu e-mail, mas ainda estava anestesiado demais com os fragmentos da beleza da japonesa na minha frente.
Digo fragmentos, pois ainda tinha dificuldades em enxergá-la completamente.

A coisa mais bacana do mundo foi estar quietinho lá na minha esquininha, contemplando a Tigarah de longe, em silêncio e de repente, um senhor japonês com cara de artista me abordou:
-Vc é aquele menino que escreve sobre o Tokyogaqui no seu blog?
-O Sr. está se referindo ao Zôo Do Jôo? – engasguei.
-Sim! – completou ele: -Vc fez uma séries de boas fotos e escreveu de uma maneira muito bacana sobre o Tokyogaqui… Eu sempre faço pesquisas no Google e acabei chegando no seu blog. Muito bom o jeito como vc escreve…

Hehehe…
Já tinha ficado todo honrado… Fiquei mais ainda quando soube quem ele era.
Bem depois eu fui descobrir que esse senhor, o Hideki Matsuka, era o responsável, junto com o Ricardo Muniz Fernandes e a Christine Greiner, pela concepção e curadoria do Projeto Tokyogaqui.
Nem tive chance de agradecê-lo à altura do seu projeto, mas conversando sobre os posts que escrevi, sobre as apresentações e performances que assisti, ele percebeu o quanto esse seu projeto havia me tocado.

O Hideki-san é um desses caras que sabia de tudo um pouco!
Quando eu falei pra ele que eu era fã de Pizzicato Five e que havia me emocionado com Gomuñiquetan da Patrícia Noronha, ele ficou muito contente.
Ele me disse que ela iria ficar muito honrada em saber disso.

Nisso, a atual entrevista termina.
A japonesa passa por mim e sobe ao palco.
Vislumbro-a pela primeira vez em sua plenitude. Congelei só um pouquinho.

Uma funkeira famosa do Brasil fez uma participação especial.
Juntas, elas gravam um duo para a Record ou MTV. Enquanto a funkeira carioca cantava, a funkeira japonesa encantava com sua dança sensual.

Eu queria sacar minha câmera do bolso nessa hora, mas tinha prometido pra monitora loira que não faria qualquer movimento suspeito de fã.
Fiquei na minha contemplação silenciosa.

Linda!
A Yuko-chan é linda!
Sua presença de palco é gigantesca.
As batidas de Tokyo Cool Kids arrebentaram as caixas e meu coração acelerou descontrolado.

Assisti toda a passagem de som.

Uma das três japonesas do Nippo-Brasil veio me pedir se eu não me importaria em tirar uma foto com a Tigarah.
Claro que eu não me importaria, mas até então eu ainda não tinha conseguido me apresentar.

Cheguei bem de mansinho e a chamei:
-Yuko-chan!
Ela se virou com aquele seu sorrisão brasileiro, (pois de japa a guria herdou apenas os traços, a alma dela é brasuca, o sorriso não poderia ser diferente) e me encarou pela primeira vez:
-Olá!
Eu rapidamente me apresentei em japonês.
Disse que era um grande fã, que conhecia todo o trabalho dela, que estava ansioso…

E não é que a tigresa me abraçou e me deu um beijo?
Quase desmontei…
Ela falou pra eu não ficar nervoso, que estava muito contente por estar finalmente fazendo show no Brasil e mais tantas coisas que se apagaram completamente da minha memória…
Desejei bom show e então fui saindo de fininho, com o coração tão inchado de felicidade que nem cabia no peito.

Então, uma galerinha bacana se aproximou de mim:
-Fiquei sabendo que vc é fã dela. – disse uma menina muito bonita.
-Sim, sou fã absoluto. – respondi com convicção.
Eu ainda não sabia, mas a minha sorte me aprontava uma outra surpresa: eu estava falando com uma das responsáveis pela criação do que a Tigarah é hoje, a Bárbara.
Eu estava falando com a famosa amiga da Yuko-chan, a amiga brasileira da Tigarah!
Sim, sim. A amiga de intercâmbio cultural, que conheceu a Yuko-chan antes da transformação em Tigarah.

As duas estudaram juntas nos EUA e se tornaram muito amigas.
Mesmo tendo terminado o intercâmbio, uma aqui no Brasil e outra lá no Japão, as amigas nunca perderam contato.
A idéia de apresentar o Brasil à amiga japonesa era uma idéia constante, que se realizou como fábula, tecendo conexões aqui e ali. Nada realmente é por acaso! O destino está sempre a pregar peças. Boas peças no caso.
A japonesa veio ao Brasil passar férias na casa da amiga.
Como mandam as regras da hospitalidade paulistana, é de responsabilidade do anfitrião programar roteiros turísticos pela cidade, fazendo com que a passagem do visitante seja inesquecível.
As duas acabaram ultrapassando os limites do estado. Fizeram o passeio até a cidade maravilhosa e por força maior, acabaram num baile funk.
O resto é história conhecida, pois foi assim que nasceu a sementinha que iria se transformar em Tigarah.
A japonesa voltou para o Japão com aquela paixão crescendo no coração. Ela já tinha desenhado em sua mente o seu futuro.

Criei imagens como numa história em quadrinhos enquanto a Bárbara contava a história da Yuko-chan.
A estudante japonesa, como nas histórias de super heróis, havia encontrado a fórmula para se tornar Tigarah.

Eles me apresentaram novamente pra tigresa, dessa vez com mais histórias pra contar.

Outros repórteres me pediram para eu posar ao lado da japa de novo! A reportagem da Marianne Nishihata pode ser encontrada no site da Globo.com, o G1, link aqui.
“-Bah! Isso tá ficando fora de controle!”.- pensei comigo.
Todo mundo tirando fotos… Fiquei vermelho que nem pimentão.

Tinha até esquecido do show!
A parte criativa ainda nem tinha começado e eu já estava realizado.

Como sempre, encontrei o Mr. Ber lá na fila e corremos pra pegar um bom lugar.
Não poderíamos ter escolhido melhor lugar. Estávamos literalmente a um esticar de mãos da cantora.

O show foi explosivo, poderoso, sensual.
A guria canta pra caramba. Tocou umas três músicas novas.
Dancei muito.

O funk da Tigarah não é um funk qualquer.
Eu não sou muito chegado nessa cena de bonde do tigrão, dança da motinha, popozudas, cachorras, potrancas, lá, lá, lá… Também não desmereço o brilhantismo popular chiclete-maníaco que há incrustado nesse tipo de manifestação.

O funk como levada musical é algo que funciona muito bem: tem uma batida boa, é cativante, gruda no cérebro…
É uma diversão instantânea infalível.
O problema é a mensagem que certos funks carregam.

Eu sou daqueles que defendem a propagação de ideais positivos.
Creio que não importa a mídia que se use, o bom artista é aquele que consegue levar reflexão nem que seja num refrão. É aquele que faz bom uso do poder que tem. É aquele que compreende a influência que pode exercer para com os demais e faz isso de uma maneira saudável.

O funk da Tigarah é politicamente correto.
Tem-se um cuidado com a pesquisa sonora, a coleção de samplers de instrumentos tipicamente brasileiros, a pegada do Miami Beat… Há toda uma preocupação em se fazer música dançante onde o bate-estaca da música eletrônica não seja tão maçante a ponto de ser minimalista.
Todas as 11 músicas da Tigarah, disponíveis gratuitamente em seu site oficial, tem momentos onde a batida principal dá uma trégua.
Fazer uma música dançante continuar dançante sem batida é realmente muito inteligente. É nesse momento que ela se mostra mais sensual.
Aliás, a sensualidade e não a “sexualidade” é assinatura no trabalho da tigresa.

Suas letras não seguem os ideais das mensagens do funk carioca.
Ela estudou ciências políticas na Keio University em Tokyo e isso é bem evidente em suas letras.
Ela está interessada em transmitir sua visão de mundo, a que se contrasta com os valores da sua sociedade, a nova sociedade de jovens japoneses que se transforma a cada dia. Onde as mulheres ainda sofrem com o machismo dos homens, onde cada indivíduo busca a diferença, onde o consumismo desenfreado para se atingir o visual perfeito ainda tem tanta importância… O Japão que dita tendências, o Japão que idolatra as manias ocidentais…
Ela ressalta como é fazer parte desse Japão.
Ela critica o consumismo.
Mostra-se sábia ao dizer que não há raças mais importantes que outras, que não há culturas mais importantes que outras. Se ainda insistem em pensar que há, ela se mostra humilde o suficiente para dizer que não há o que discutir, que sua única arma é continuar repetindo esse refrão.
Conta-nos a história de Matila, a brasileira que se divertia nas noites dançantes de Roppongi, enquanto seus pais, dekasseguis, trabalhavam para sustentar seus caprichos e alimentar a família que ficou no Brasil.
Levanta a questão do amor e da mentira. É tão fácil dizer “eu te amo” hoje em dia que se perdeu o valor.
Discute o capitalismo.

Abriu mão de uma carreira política para fazer música.
Poderia ter feito parte dessa fatia milionária que é o mercado fonográfico japonês… Mas não, divulgou sua melhor essência gratuitamente pela net.
Isso dá grana? Não importa.
O importante é fazer o que se gosta. É se curtir diariamente.

Provoca-nos para lutar por nossos objetivos, pelo que ainda acreditamos. Diz que ninguém tem o poder de nos aborrecer, que precisamos lutar sempre, pois a batalha nunca terá fim.
A caneta está na sua mão, o papel está na sua mão, a chave, a arma, o dinheiro, o jogo… Tudo está em suas mãos. O que vc está esperando? Não perca as coisas que são importantes, senão alguém as pega por vc!

É sensual sim.
É em japonês sim!
As pessoas podem até usar isso como desculpa para não se aprofundarem na mensagem principal e apenas curtir o ritmo.

A apreciação mais inteligente nem sempre é aquela que enxerga o todo.
Talvez seja isso que tenha aproximado a japonesa ao funk carioca.
É irrefutável dizer que o mérito é todo dela ao conseguir associar mensagens tão importantes a esse tipo de música.

Dançar Tigarah em casa já era bom demais, ao vivo então…

Mr. Ber e eu dançamos e cantamos todos os refrões.
Só tinha uma turminha mais animada que a gente: a turma de funcionários do Sesc. Mas eles estavam bem escondidos no meio da platéia.

O show passou voando.
Quando percebi, já estávamos no Bis.

A funkeira japonesa havia cativado todos ali com seu jeito sensual.
Ela cantou seus sucessos e nos apresentou algumas inéditas.
Conversou com a platéia, falou português, dançou por todo o palco e voltou para nos presentear com um Bis de Super Girl.

Assim que ela deixou o palco, correu até seu camarim para apanhar um saquinho cheio de bottons personalizados e invadiu a platéia ainda cheia de gente.
A galera ficou louca com a presença dela ali.
A japa entregou os bottons um por um, conversou com fãs, tirou fotos com todos, distribuiu autógrafos… Mostrou-se mais brasileira que muitos artistas brasileiros!

Quando as coisas se acalmaram, eu e o Ber chegamos até ela pra parabenizá-la. Ela nos abraçou e nos beijou e conversamos bastante.
Eu queria saber das músicas novas, umas três delas, que pelo refrão parecia ser “Afro” alguma coisa, “Super Girl” e “Iti, Ni, San”…
Ela disse que iria me passar por e-mail! Anotou meus dados, conversamos mais, tiramos mais algumas fotos e só então nos despedimos.

Saí de lá com a certeza de voltar pro próximo show.

Acabamos conhecendo a Laís e a amiga. Fomos andando até o Mc tomar um café.

Deixamos as meninas no metrô e fomos andando até as mediações da Consolação.
Mr. Ber conhecia um restaurante italiano bacana nos Jardins e fomos lá jantar.
Nhoc, panquecas e muita Tigarah pra finalizar a noite!
Quase perdi o último metrô.

Continua…

5 Respostas para “46- Tigarah, Dia 1

  1. logo você vai virar uma celebridade global, vira e mexe você aparece na telinha…hahaha

  2. MEEEEEEU DEEEUS! isso tudo só comprova tudo que eu sempre falo. TU ÉS O CARA! escreves muito, és celebridade e tens o dom pra tudo que tu faz.
    Sério. Até eu já gostei dessa Tigarah, mesmo sem ela me mandar email.
    ahahahahhaa

    Quem é a tua fã number 1?
    :D:D:D:D:D

    saudades de conversar contigo.

    parabensss! to de caraaaaaaaaa pelo G1 ainda.

    Beeeeeeeeeijo
    ;*

  3. Parabens João, ja és um quase famoso!
    Hehe
    A Tigarah eh mto linda hein?
    Queria eu poder tá aih p ir no show dela tbm… Essas coisas não acontecem na Bahia, aqui é só axé, forró e arrocha.. rsrs
    Mas é isso, se cuida mlk!
    =)

  4. Oi Joao, tudo bom?

    Adorei o que você escreveu sobre a Tigarah !! ela realmente é incrível… e agora todos podem conversar com ela pelo orkut, procure por Tigarah Yuko e vamos torcer pra ela voltar pro Brasil logo!!

    bjus

  5. Fantástico!

    Deixa eu perguntar… esse Hideki-san, será que vc tem o contato dele? Pra minha reportagem. Se tiver, agradeço!

    Ficou lindo seu texto, viu? Vc escreve pra algum lugar? Ja pensou em escrever? Acho que se daria bem, viu!

    Bjssssssssssssssssssss

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