43- Revirado À Paulista

A pressa na vida do intruso da Terra é sempre imparcial.
Ela ataca o sistema lúdico, afeta o imunológico, domina o nervoso.
Os intrusos vagueiam pela cidade cinza com suas mentes ocupadas de cifras. Vão e vem contabilizando somatórias, depositos, investimentos…
Estão com tanta pressa e já foram tão condicionados de que aquele espaço é apenas o espaço entre seus interesses, que passam por ele como se ele não estivesse ali.
Em alguns casos, a pressa serve de desculpa para a insegurança.
Aqueles que ainda mantém o hábito de olhar para os arranha-céus, despreocupados o suficiente para voarem em pensamentos, podem ser vistos desprovidos de malícia.
Infelizmente, andar com a cabeça nas nuvens pelo centro de São Paulo ainda é atrativo para os não tão bem intencionados.

Ainda posso me considerar um dos intrusos que estão sempre com seus pára-quedas sobrevoando os labirintos do centro de São Paulo.
Meu sistema lúdico ainda produz o combustível que me abastece, o imunológico ainda se fortalece com a maléfica poluição que sufoca os outros, o nervoso ainda se acalma com aquela atmosfera.

Amo o centro.
Mesmo com sua sujeira fétida, seus postes antigos, seus emaranhados cabos de alta tensão, suas pombas radioativas, seus descampados moradores…

O caótico centro velho ainda me desperta paixões.

Apesar da pressa ser uma constante na vida de quem vive em São Paulo, sempre que passo pelas ruas do centro, passo com poesia nos olhos.
Às vezes, o brilho poético é tão evidente, que é impossível evitar as faíscas.

Soa ser turista em sua própria cidade.

Já percorri quase todos os corredores, praças, esconderijos rebaixados, pontes e viadutos…
Já namorei fotograficamente as pessoas indo e vindo, apressadas, esticando suas vidas àquele lugar…
Já fui levado, já levei muita gente…

Só não tinha tido a experiência de passar uma madrugada inteira submerso nesse submundo.

Foi preciso um manézinho da ilha vir de Floripa, para me convencer a experimentar um mergulho noturno em minha própria ilha de concreto.

Começamos nossa Virada Cultural pela Paulista.
Descemos a Consolação até um Matsuri entupido de foliões culturais. Culpa dos 100 anos da imigração.
Os batuques dos taikôs japoneses abriram o apetite para a madrugada que se iniciava tímida.

O de Floripa entrou na fila do penteado oriental.
Eu e meus fios ficamos na nossa.

A noite era literalmente uma criança.
A ansiedade em percorrer o caminho até o centro estava ultrapassando os limites do suportável.
De longe, víamos a varredura à laser percorrer o céu e podíamos calcular o epicentro do terremoto.

Não dava pra apontar quem estava mais excitado com aquele carnaval noturno: se eu, com meu repertório paulista ou o amigo com sua juventude de descobridor…

Encontramos três influências antes de adentrarmos a bagunça.
Percorremos o restinho de Consolação até o começo da Ipiranga, e ao avistarmos o Copan, compreendemos o maravilhoso caos.

Não há como assimilar tantas sensações ao mesmo tempo.
É um mix de perigo com audácia.
É como participar de um ritual tribalístico.
É ser palco e platéia. Guerreiro e lança.

Andamos cautelosos por entre uma multidão de intrusos.
Pessoas de todos os formatos. Gente de todas as índoles.

As famosas esquinas paulistanas estavam cheias de vida.
Havia um palco em cada canto. Havia performances, encenações, shows, instantâneos…

Era como estar protegido por almas conhecidas, na verdade corpos desconhecidos.

Na altura daquelas horas, a liberdade de se arriscar em quilômetros nunca antes desbravados, oras pela impraticável possibilidade em se passar ali à luz do dia, deu a cada indivíduo a necessidade de marcha.

Todos sentiram essa necessidade.

Como se estivesse em uma procissão para uma outra dimensão, vi a minha frente um mar de cabeças em movimento serem bombardeadas por mil luzes.
A onda humana preencheu o Vale do Anhangabaú, circulou um palco de Jazz e subiu a ladeira para a XV de Novembro.

A imagem da Torre do Banespa com seu topo especialmente estroboscópico para a ocasião, insinuava em pulsos, que a cena eletrônica estava bem espalhada pela vizinhança.

A Lua parecia até meio apagada com relação à estrela ao seu lado.
Perguntei ao amigo se a estrela em questão não poderia ser um planeta…
Poderia bem ser Vênus ou Marte, mas também poderia ser Júpiter e seus satélites dançarinos…
Definitivamente, deveria ser a noite em que a Lua passa ao lado de Antares, Alfa de Escorpião, uma estrela 10 mil vezes mais luminosa que o Sol e (sorte nossa!) 37 milhões de vezes mais distante.
Vermelha, gigante, brilhante e exibida. Tenho certeza de que era ela observando os ravers.

Acabamos nosso surfe pelas bordas do Mosteiro de São Bento.
Os holandeses com a sua Silent Disco estavam contrastando total com o resto da Virada.
No meio da barulheira, uma cápsula invisível abrigava mais ou menos 500 doidos varridos com phones plugados em seus ouvidos.
O projeto experimental holandês promoveu uma balada sem som, pelo menos para quem via. Quem, assim como nós, conseguiu um dos 500 fones de ouvido que eram distribuídos em turnos, ouviu a discotecagem do NO DJ (Nico Okkerse). O repertório incluiu eletrônico, mas também “músicas para cantar”, internacionais e nacionais. A intenção era que os participantes dançassem e cantassem, enquanto os espectadores observavam o agito silencioso.

Os turnos variavam entre 40 minutos.
Os phones eram distribuídos para aquele determinado grupo de baladeiros, o DJ conduzia a balada e a fila para o próximo turno ia se alongando até o Viaduto da Santa Efigênia.

Como a idéia parecia irresistível, o interesse foi instantâneo.
Apesar da fila estar começando a dominar o viaduto, não hesitamos em enfrentá-la.
Após longos minutos de espera vendo aquela balada se conduzir sem som, num dos lugares onde reinam o silêncio e a reflexão, finalmente chegou nossa vez.

A contaminação encheu nossos corpos de ansiedade infantil. Parecia que estávamos à frente de entrar num carrinho de montanha-russa.
Fomo os primeiros a receber os phones. Corremos para a pista vazia.

Uma música inclassificável nos remeteu ao velho oeste. Por mais western que soasse, ela tinha um pé na Escandinávia.
De repente, o western deu lugar a uma piração sonora indiana e do mesmo jeito, a universal batida eletrônica veio globalizar, sincronizar e falar a mesma língua dos ravers.

Dancei.
Dançamos.

Descobri ali, sob a luz da Lua e de Antares (ou seria Marte?), a Liberdade…
Não importava dançar de frente para o DJ ou para a centena de policiais do batalhão de choque que nos assistia. Importava dançar como um intruso pagão.

Aproveitei a escolha eclética do DJ, aproveitei o espaço da pista, aproveitei aquelas badaladas dos sinos poderosos do Mosteiro, aproveitei aquela madrugada irreal.

Corri!
Corri dançando! Dancei lançando feitiços, simulando artes marciais, demonstrando meu poder corpóreo e produzindo faíscas… Sempre…

Era como estar num transe religioso. Não havia limite, não havia vergonha ou timidez.
Eu podia ser um índio, um bruxo, um canibal. Eu dançava para a chuva, para a Lua, para me elevar às estrelas…

Dancei contemplando a arquitetura do Mosteiro, dancei contemplando a loucura de pessoas curiosas me observando, dancei pros outros, mas dancei pra mim. Dancei aqui, dancei ali, perfurei turmas e invadi espaços…

O mais bacana foi que o amigo me acompanhou.

Os longos minutos que a gente passa esperando na fila…
Os mesmos minutos que a gente gasta dançando na pista…
Incrível como o tempo é relativo!

Quando o gás se perdeu e o cansaço pareceu pesar a respiração, o DJ percebeu a cena e lançou sua magia mais sofisticada: Madeleine Peyroux e sua Dance Me To The End Of Love.
Hehehe… Jazzísticos como somos, quase não acreditamos na nossa sorte! Eu e o amigo do cabelo nipônicamente preso, rastejamos nossas coreografias numa performance à la butô.

Após entregarmos os phones, percebemos o quanto tínhamos nos desgastado. Eu estava totalmente sem energia.
Fomos para o Café Girondino e só saímos de lá quando sentimos a força voltar as nossas pernas.

Do Largo São Bento, fomos caminhando em descobertas até a Aurora.
Diferente da procissão na vinda, a volta foi mais calma. As pessoas nas ruas pareciam estar alimentadas de felicidade.

Por mais que eu andasse com as antenas bem dispostas na cabeça, o perigo parecia invisível aos nossos olhos. Deveriam existir vários seres a se evitar, mas estávamos com tantas faíscas do bem, que nosso campo magnético repelia qualquer tentativa negativa de interferência… A madrugada era para ser formidável.

Encontramos o artista Matsuhei perdido debaixo de uma performance equilibrista.
Ele estava por ali desde o show da cabo-verdiana Cesária Évora.
Super amigo do Ber, foi realmente sorte reencontrá-lo em tal situação. A última vez que o vi, foi no Resfest da Miho, ex-Cibo Matto.
Esse guri, além de talentoso é super eclético: vai de Miho à Kahimi Karie, passa por Pizzicato Five e ainda chora com música tradicional de Okinawa…

A conversa boa ainda se alongaria pela lenta caminhada até as catracas do metrô: superflat, shibuya-kei, instalações, butô…
Despedi-me dos irmãos de afinidade e embarquei sonolento numa viagem de pensamentos.
Pensei em descer na Luz e dormir no apartamento vazio da minha irmã… Desisti… Com certeza eu não teria pique pra uma Revirada.

Cheguei em casa e já era dia, dia, diiiia…

Ps: Não levei a câmera, mas fiz uma pesquisa de imagens com as tags (viradavultural2008, silentdisco e mosteirosaobento) e encontrei um pouco do que eu vi e vivi. Todos os créditos fotográficos são de usuários do Flickr.

Uma resposta para “43- Revirado À Paulista

  1. É, foi uma noite de sair faíscas, de soltar-se da própria pele, de sentir o ar esquentar em volta enquanto se dança, enquanto se anda…

    Foi incrível mesmo. E fotos nem são necessárias. As memórias que dá pra levar da (re)virada não dá pra perder tão logo. Foi incrível, de todas as formas, hahaha.

    Próxima parada: Choque Cultural? Tigarah? Who knows!

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