40- Peregrinação Cultural

1. Haru No Umi

O dia 19 de Abril começou bem cedo.
Eu precisaria estar às 11hs na Caixa Cultural para assistir Mar De Primavera de Camilo Carrara e Tamie Kitahara.

A casa estava cheia.
O hype era grande!

O show começou com uma música que eu não conhecia.
O violão de Carrara-san e o kotô de Kitahara-san eram puro equilíbrio.
O dedilhar de dedos entre o ocidente e o oriente teceu uma atmosfera hipnotizante que me fez esquecer de registrar a primeira música.
Talvez seja culpa da riqueza de harmonia ou da felicidade explícita reverberada nos quatro cantos da casa. A única certeza que eu tinha, é que aquela primeira música havia me desestruturado.

As demais músicas repassaram aquela atmosfera mágica encontrada no Cd solo de Carrara-san, Canção Do Sol Nascente. Músicas mais atmosféricas, aquela poesia sonora para se elevar o espírito.

Enquanto o violão improvisa, a mestra focaliza a tradição. O casamento não poderia ser mais feliz. Em pouco tempo estávamos todos num estado de graça e paz.

Violão, kotô, shamisen… As cordas se misturavam em sons etéreos.

Como se não bastasse ser um músico formidável, Carrara-san se mostrou excelente professor.
Ele tem ótima didática para comentar suas evoluções, explicar alguns termos técnicos de suas criações musicais e, entre uma canção e outra, contar como conheceu a música tradicional e folclórica japonesa.
Coincidências ou não, Camilo Carrara foi apresentado a este tipo de música, através de uma coletânea emprestada por um amigo. Foi amor a primeira audição.
Ele também ganhou aquele fantástico catálogo de compilações da música infantil e tradicional do Japão, presente da exposição de Taizi Harada em São Paulo e suas ilustrações sobre as 100 mais famosas canções japonesas de todos os tempos. A partir deste catálogo, que trazia as 100 partituras, Camilo começou a tocar as 100 canções em seu violão.
Por não ter tido outro tipo de contato com este universo, tudo o que ele tinha eram as partituras.
Apesar das informações anotadas e todos os detalhes que acompanham a música escrita, ele acabou desenvolvendo uma nova maneira de tocar aquelas canções, ora mudando o tempo, ora improvisando… A questão é que ele desenvolveu um jeito único e totalmente novo de interpretar aquelas tradicionalíssimas canções.

Conversando com ele mais tarde, expliquei que tínhamos uma história parecida para com estas canções.
Apesar de não ser músico, eu também fui apresentado a estas canções através de uma coletânea infantil: Yu – Yuyake Koyake; e havia ganhado os catálogos do Taizi Harada e me inspirado a criar um dos meus futuros projetos, fazer exatamente “o caminho oposto” ao Taizi Harada em suas ilustrações.

Pela primeira vez, conversar sobre kodomo no uta (músicas infantis japonesas) não era um bicho de sete cabeças.
Eu nunca soube explicar direito porque essas músicas me emocionavam tanto…
A verdade é que pela primeira vez na vida, eu não precisava me explicar, o Camilo me entendia perfeitamente.

Ele ficou surpreso ao constatar que eu não era músico, muito menos tivesse qualquer descendência japonesa.
Foi uma conversa muito simpática.
Grande figura, o Camilo Carrara!

Careimi me disse que após o espetáculo, quando eles foram almoçar no patrocinador, Kitahara-san falou de mim. Disse que ficou realmente honrada em saber que Nanatsu No Ko havia me emocionado daquele jeito.

Eu não resisti. Assim que terminou o show e a Globo liberou a Kitahara-san da entrevista, fui lá agradecê-la.
Poder ver e ouvir alguém cantando e tocando lindamente uma das minhas kodomo no uta preferidas, não é algo que se vê todos os dias.
Comentei o quanto essa música era importante, falei do meu projeto de desconstrução do Ukiyo-ê para com as canções brasileiras e cantamos um trechinho de Chinsagu no Hana, uma das mais tradicionais canções de Okinawa.

Despedi-me de todas essas figuras talentosas e agradeci demais a anfitriã Careimi.

Guardei tudo no coração, mas consegui registrar o momento de maior emoção:

2. Koinoboris no CCBB

Da Praça da Sé até o Centro Cultural Banco do Brasil é um pulinho.
Como eu ainda tinha que passar até alguma papelaria pra comprar grossas canetas pretas pra desenhar a noite, resolvi esticar a perna até o “Gringotes” (apelido carinhoso que a Veresa deu ao edifício do CCBB).

Apesar das interessantes exposições de Foujita e Kaminagai, gostei apenas da expo do jovem Mori, o garoto de 14 anos que era um prodígio na pintura na década de 40.

Entretanto, o que mais me chamou a atenção estava pendurado na clarabóia.

Um móbile de Koinoboris, as birutas japonesas em forma de carpa que são hasteadas por todo o Japão para comemorar o dia dos meninos.

3. Florescer Das Cores na Pinacoteca

Desci até a 25, comprei minhas canetas (que usaria no Tokyogaqui), vi o preço do Ds pro Ber (R$360,00 Lite), passei no apartamento da minha irmã pra almoçar, descansei 30 min., atravessei a passarela da Luz e cheguei à Pinacoteca.

Fui ver a exposição dos kimonos e cerâmicas do período Edo, aproveitar que de sábado a entrada na Pinacoteca é gratuita.

Aquilo tava apinhado de estudante de moda…
Não pude fotografar os kimonos. Tive que sossegar com a foto do site! Que crime!

Aquilo é um tesouro! Doeu só de olhar.
Séc. XVII!
Como eles podiam vestir aquelas obras primas naquela época?
O japonês estava a anos luz de distância fashion dos outros povos!

Cada kimono é divino.
É até falta de educação imaginar um homem usando tal perfeição.
Inacreditável como são confeccionadas as costuras, seus motivos… Os kanjis saltam aos olhos em seus fios de ouro. A direção da linha, o movimento…

Fui então conferir as cerâmicas e percebi muita influência chinesa.

As caixas decoradas com os brasões circulares em ouro fazem a imaginação da gente ir longe. Impossível não pensar que tipos de tesouros elas guardavam, como se vestiam seus donos, em que tipo de armário eram guardadas…

Saí de lá frustrado por não ter podido fotografar. Não mais frustrado, pois aquilo é de uma delicadeza tamanha e se todos os visitantes que por lá passassem, metralhassem flashes e mais flashes, era certo que esses tesouros não durariam mais alguns séculos…

A frustração evaporou-se ao me deparar com a “Contaminação” da portuguesa Joana Vasconcelos dentro do Projeto Octógono.

Putz! Sei que isso não tem nada a ver com o Superflat, mas meu, era totalmente Superflat!

A massa disforme tentacular com suas imensas tetas e sua genitália colorida contaminava as paredes e os dois andares da Pinacoteca.

Afundei-me em suas curvas. Só depois me toquei que não podia afundar do jeito que eu afundei. Eu literalmente mergulhei na contaminação da Joana.

Gomen ne?

4. Sumô X Huka-Huka

Desci voando a escadaria da passagem subterrânea em frente à Pinacoteca para tomar o metrô. Aquele mundo underground de transferências, corredores, baldeação e confusão da Estação da Luz ficou coisa de primeiro mundo! Lembrou-me o agradável caos do aeroporto de Milão.

Desci no Trianon. Queria pegar a expo de azulejos portugueses no Sesi, mas já havia passado das 18hs.
Segui o velho caminho até o Sesc Paulista e o Festival Tokyogaqui.

Retirei meu ingresso para a apresentação do Versus.

O ringue provisório já estava esquematizado.

Foi muito interessante ver uma luta de Sumô, mesmo que de projeção menor.

Já a luta dos índios Xingu foi muito mais que interessante, foi realmente cativante. Os índios conquistaram todo mundo.

Quando eles fizeram Sumô X Huka-Huka, não houve quem não reparasse que a torcida era unânime para os sólidos índios!

5. Gomuñiquetan

Santo Deus!
Falar de Butô é algo novo pra mim.
Faltam-me adjetivos pra ilustrar justamente.

Após ter vagado como um fantasma por vários dias no espaço Ohno 101 + Kusuno, após ter conferido as inúmeras fotos da exposição, após ter lido alguns artigos nos jornais em painéis nas paredes e ter visto alguns vídeos de apresentações de Takao Kusuno, após e somente após eu crio coragem pra tentar falar um pouco sobre esse tema.
A gente percebe que apesar da primeira estranheza, o Butô é de uma originalidade artística completamente fodástica.
Acho que por isso, e apenas por isso que eu posso dizer que estava preparado para a performance da inacreditável Patrícia Noronha.

Estava tudo lá, desde a performance daquela mulher semi nua que se equilibra com as nádegas, até A Argentina!

A coreografia forte, poderosa, infalível, quase mumificava a artista. Seu olhar vazio era profundo, como se pudesse ver o fundo da alma e nada lá houvesse.

Não sei falar muito bem sobre o Butô, mas sei sentir.
A descentralização do palco, os movimentos acontecendo longe dos nossos olhos, a escuridão e os certos focos de luzes… O suor, o nu, a carne, o vestido, a música…

Saí de lá com um encantamento perturbador.

6. Fragmentos De Qioguem?!

Desci até a recepção prevendo que os ingressos estariam esgotados. Nas últimas duas horas eu estava em constantes apresentações…

Não deu outra. Dos 40 lugares disponíveis, 40 a mais foram arranjados de última hora em almofadas no chão! Não caberia nem metade da mim…

Bah, não custava nada tentar com os chefões do Sesc. Eles sempre me vêem ali, sabem que eu sou um cara do bem, nada bagunceiro, apreciador, respeitador…
Quem não arrisca, não petisca!

Hehehe… A sorte mais uma vez estava do meu lado. Finalizei a minha noite com muitas risadas.

Qioguem foi uma colagem de boas idéias.
Foi como se eu estivesse assistindo aquela apresentação de Kagura ou Nô no Bunkyo, tendo a tecla SAP pressionada.

7. Banda Sinfônica Jovem no Memorial

A Peregrinação Cultural que se iniciou no dia 19 e terminou na noite do dia 20 desse final de semana fechou-se com chave de ouro. Fui assistir mais uma apresentação da irresistível Banda Sinfônica Jovem com regência de Mônica Giardini.

O programa da vez foi um apanhado de vesuvius, zimbos, samba 40º, fantasias espanholas, batukes e até uma rapsódia dividida em alegro, moderato, andante e presto! Dia 18 de Maio estarei lá de novo!

Não sei da onde tirei tanta disposição, mas em dias assim, temos que aproveitar a saúde das nossas fortes pernas e deixá-las nos conduzirem.
Outra dessas, sabe-se lá quando!

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