37- Amai Michi (Caminho Doce)

Um antigo amigo meu, há muito tempo perguntou-me porque alguém se interessaria em assistir uma performance cujo tema consistisse em maquiar, vestir e compor uma noiva tradicional japonesa.

A minha resposta não o convenceu.
Eu disse que no meu caso, o simples fato de apreciar tanta precisão e ritual, no mínimo me encheria de referências e estímulos para as tantas gueixas e kimonos que eu vivo a desenhar.

Após encontrar Mr Ber e Mrs Sae, corri para o Sesc!
5 minutos para o início da performance me fizeram perder o fôlego.
Ultrapassei uma obaa-san tão kawaii na rua… Ela levava uma tábua de passar roupas debaixo do braço duas vezes maior que ela, parecia uma surfista…

Finalmente cheguei na recepção.
Apertei o botão do elevador cheio de adesivos, entrei. Apertei o botão do 5º andar e quando as portas estavam se fechando, ouvi uma vozinha que parecia não ter corpo dizer: “-Segura pra mim, onegai!”.
Era a obaa-san kawaii com a sua tábua de passar roupas: um kotô!!!
D+!

Antes de adentrar o espaço, antes de apanhar as duas almofadas e me espreguiçar no chão logo em frente ao palco (meu lugar preferido pra assistir aos eventos), antes mesmo do silêncio, lá estava a artista em sua árdua e deliciosa tarefa.

Artista plástico nem sempre é aquele que pinta quadros ou esculpe em pedra e madeira.
A Martha Lacerda e seus procedimentos escultóricos que o digam.
A encontrei por acaso, ainda não compreendendo muito o que a performance traria. Ela já havia começado e ainda não havíamos entendido.

Com uma paciência de fazer inveja à abelhas e formigas, a Martha, silenciosa e produtiva, esculpia no chão o seu caminho de flores cor-de-rosa.
Ela peneirava incansavelmente em sua fôrma de flores vazadas, a graciosidade.

Às vezes, as pessoas, assim como eu, a interrompiam para perguntar o que era aquele pó cor-de-rosa que ela estava usando ou quando é que a noiva entraria.
Ela dizia que haveria bastante tempo, o ritual de maquiar e vestir uma noiva com os trajes tradicionais levaria umas boas duas horas.
Compreendi um pouco esse triângulo que se revelaria.

A noiva entrou e se sentou de frente para um imenso espelho.

A obaa-san kawaii entrou vestindo seu kimono levemente infantil.
Ela já flutuava com suas roupas normais e sua tábua de passar lá embaixo na rua. Aqui, ela parecia mais leve e pequenina.
Ela se sentou, colocou os trastes móveis nas cordas do seu instrumento e pincelou o seu kotô. Soprou uma espécie de gaita em formato de uma estrela do mar para confirmar a afinação e dedilhou a primeira melodia.
O som do Japão preencheu o ambiente.

Enquanto a noiva era maquiada, vestida, amarrada, enrolada, pintada, contornada, sacudida, girada, erguida… A Martha salpicava o seu caminho doce e a obaa-san conduzia a trilha sonora.

As três mulheres e os dois procedimentos escultóricos tangenciavam-se.

A noiva está pronta!

Ela se coloca precisamente ao final da construção e caminho da escultura em açúcar com seus sete metros.

Ela caminha sobre esta passagem, entrecruzando, dissolvendo e, ao mesmo tempo, compondo outra e a mesma obra.

O desfile lento favorece a contemplação.
Os movimentos da noiva são precisos e imperceptíveis.

Aos poucos ela vai transformando o caminho, exibindo a escultura que é a sua vestimenta.

No fim de tudo, conseguimos mostrar um pouquinho da nossa admiração em uma foto com o ícone máximo da performance.

Não há palavras pra descrever tamanha beleza.

Eu realizei o sonho de assistir um ritual desse naipe. Nunca mais vou olhar do mesmo jeito quando vir uma mulher vestida assim.
Agora só falta assistir uma apresentação de gueixa e me darei por satisfeito.

Espero que meu antigo amigo compreenda melhor agora.

4 Respostas para “37- Amai Michi (Caminho Doce)

  1. Essa japonesinha é lindinha hein..

    adorei a produção dela

    e todos saíram bem na foto🙂

    :*

  2. Bonito… trabalhoso… mas o resultado final valeu a pena… Parabéns!

  3. Adorei essa apresentação toda, e também ia gostar de ver algo ao vivo desse tipo, sabe quando vai haver novamente e onde? Valeu o seu post, parabéns!

  4. arte… no final das contas… o resultado é o que menos importa…

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