26- Santos “São Paulo” Parte 2 (Brazil)

Acordei às 6hs da manhã.

Não lembro bem o que eu fiz primeiro: se eu tomei café, se eu fui levar minhas bagagens pro indiano que definitivamente não iria conferir, se encontrei o Felipe e a Simone.

Sei que de hora em hora, eu dava uma espiada pelas escotilhas do navio. Estávamos complicadamente atrasados. Chegaríamos com umas três, quatro horas de atraso.

Chegar ao porto de Santos foi uma experiência diferente.
Em nenhum outro lugar eu vi tanto movimento marítimo.
Era frota de navios de todos os tipos, tamanhos, procedência…
Eles ficavam lá no meio do mar fazendo hora.
Os cargueiros com aqueles seus containeres coloridos e empilhados vertiginosamente eram os mais numerosos.
Acho que o Costa Victoria devia ter algum tipo de concessão, pois ultrapassamos todos os navios.

De repente, começamos a avistar os primeiros contornos da cidade de Santos.
Apesar do dia extremamente fechado e nublado, a emoção tomou conta dos tripulantes, dos passageiros, de quem fica, de quem vai…

Santos significa o fim e o começo.

O meu fim.
O meu e o de todos aqueles passageiros que pegaram o navio em Savona.

O começo.
O começo de um novo cruzeiro. Novos passageiros esperando no porto lá embaixo, ansiosos pra embarcarem.

Santos é o local onde tudo começou: as primeiras viagens até a agência, a semana de treinamento Costa, o curso do STCW…
Santos é onde o bicho pega fogo: a temporada brasileira oficialmente se inicia aqui.
Santos representa trabalho dobrado para os que ficam: é preciso deixar o navio tinindo de limpeza e se preparar para a temporada brasileira.
Santos significa adeus: é onde todos se despedem.

Após grudar o crachá cor-de-rosa de desembarque no colarinho, apanhei minha pesada mochila e comecei a peregrinar pelo navio pra me despedir dos que, provavelmente, eu nunca mais encontraria:

Procurei primeiramente meus amigos indonesianos. Encontrei o Zaldy:

Foi bem emocionante. Acho que nunca vou esquecer esses guerreiros de Jacarta, Sumatra e Bali dizendo pra eu me cuidar, pra mandar notícias…
Os caras foram impecáveis do começo ao fim. Pessoas simples, dignas de impecabilidade real.

Vasculhei os corredores das cabines dos passageiros. Encontrei os meus outros camaradas.
Despedi-me de todos: filipinos, peruanos, colombianos, argentinos, italianos, franceses, espanhóis…
Vasculhei os arredores da cozinha.
Despedi-me dos cearenses, dos gaúchos, dos baianos, dos catarinenses, dos cariocas, dos capixabas, dos santistas, dos conterrâneos…
Comprovei, momentos antes de abrir mão dessa vida, o maior tesouro que eu havia conquistado ali: eu havia feito amizade entre todos os povos do navio.

Subi aos andares superiores:

Lá estava Santos numa manhã chuvosa.
Todos os europeus se preparando pra desembarcar:

O deck da piscina era uma tristeza só:

Caminhei como um louco pra poder registrar cada cantinho das partes onde eu trabalhava:

Lembrei-me da primeira vez que eu caminhei ali: estava um frio cortante. Navegávamos pelo Mar Mediterrâneo, o navio balançava de um lado para o outro e eu tentava me equilibrar, ao mesmo tempo em que protegia meus ouvidos daquele vento imperdoável…

Finalmente havia chegado o dia 13 de dezembro! Eu havia entrado dia 23 de novembro e parecia ter vivido meses lá dentro.
Era divergente aquele ar quente de Santos com aquele clima cinza típico de céu de inverno europeu.
Essas confusões climáticas ainda são a assinatura do estado de São Paulo:

Comecei a perceber os edifícios tortos de Santos:

Foi difícil esconder a alegria:

O anúncio da chegada vibrou os sentidos: “-Hei! Estou aqui!”. – eu gritava por dentro.
O poderoso apito do navio ecoou pela cidade:

O coração saltou a boca:

Todos os hóspedes e tripulantes estavam em algum lugar com uma boa vista:

Muita, muita gente:

“A uma hora dessas, meus pais já tinham chegado em Santos!”. – pensei eu.
Rapidamente liguei pra eles e disse estar chegando ao porto. Haja coração!
Passamos pelos canais de Santos. Tentei imaginar a Fonte do Sapo e o edifício da minha tia Vera, mas quando dei por mim estava passando em frente a balsa:

A todo instante, barcos menores passavam por nós acenando boas vindas:

Alcançamos a balsa. Os carros tão pequeninos… Tudo tão perto e ao mesmo tempo tão inacessível:

Finalmente entramos no Porto de Santos!
Aquilo lá parece cenário de ficção científica.
O porto é imenso, descomunal!
Lembrou-me alguma fase industrial do game Sonic The Hedgehog:

Corri. Atravessei pela última vez o deck da piscina, local de tantos esforços, de tantas histórias… Nem bem cheguei às mesinhas do bar e encontrei com a vovozinha dinamarquesa.
Ela também já estava com tudo pronto pra desembarcar.
Ela me desejou sorte, me abraçou e me deu alguns dólares.
Eu recusei sem graça. Hahaha… Mais tarde meus amigos do bar me diriam que isso era uma gafe horrorosa… Hahaha… Mas é que eu realmente não estava acostumado a ganhar gorjetas.
Ela enrolou o montinho de notas e enfiou no meu bolso.
Agradeci sem graça.
Ela pediu meu endereço…
Para a sorte dela, eu estava com meus cartões dentro da mochila.
Pedi um momento. Escolhi um cartão bem bonito, escrevi uma dúzia de palavras, anotei o endereço e entreguei.
Apertei a mão da senhora e do seu marido, desejando ótimo regresso à Dinamarca e prometi que quando passasse pelo país escandinavo, visitaria o casal.
Continuei correndo pelo deck da piscina até tomar o elevador.

Reencontrei-me com o Felipe e a Simone e contei pra eles o acontecido.
Precisávamos ir até o 6º deck:

Saímos de frente pro terminal marítimo de passageiros:

De cara vi minha mãe, meu pai, minha tia Vera e meu primo Ricardo:

Não há palavras pra descrever tamanha emoção.
Não sei o que minha família sentiu nessa, hora, mas sei o que eles viram (pois eles fotografaram):

Por mais que eu tivesse cativado pessoas queridas nessa minha jornada, poder ver fisicamente a minha família, depois de ter navegado quase um terço do planeta foi de amolecer o coração:

Tentei chamar a atenção deles, mas eles estavam impressionados com a grandiosidade do Victoria:

Jamais reparariam num pontinho azul pulando pulando (eu), bem no rumo de suas visões:

Eu estava exatamente à frente deles, mas eles estavam focando seus esforços para me encontrar em qualquer outra parte do navio, exceto aquele que eu realmente estava.

O desembarque foi montado:

Liguei pro celular do meu pai. Vi ele apanhar o dito cujo no bolso e então falei:
“-Paaaaaaaaaaaaaaaai! Tô bem em frente!

Não tão me vendo não?” – eu tremia de alegria.

Ele ergueu a cabeça, procurou um pouco e finalmente o olhar dele se encontrou com o meu. Hahahhaa… Indescritível…

Os momentos seguintes foram embaraçosos, pois aqueles quatro ali: pai, mãe, tia e primo, começaram a acenar calorosamente e tentar comunicação através de sinais… Foi mais divertido que rodada em jogo de mímicas.

Eles ligavam pro meu celular a todo instante.
Apresentei meus amigos dessa forma e eles me apresentaram a mãe do Felipe…
Eles pediam pra gente se juntar, pra gente ir mais pra cá, ir mais pra lá, fazer pose na escotilha, se abraçar… Eram fotos daqui pra lá, fotos de lá pra cá… Uma chuva de flashes…

Ficamos umas boas horas ali. Enquanto eu conversava com alguns filipinos e indonesianos, que também estavam voltando pra suas casas, meus pais registravam tudo. Desde o desembarque dos primeiros oficiais:

Até a entrada do carequinha neozelandês, Wallace, que fez o treinamento comigo:

Já havia passado das 14hs:

A demora estava se tornando insuportável:

A turma estava quase pulando de desespero:

Eu tentava manter o controle:

Santa burocracia da Receita Federal!
A espera pra sair do navio foi tão grande, tão maçante, tão desnecessária, que a todo instante, mais e mais tripulantes que iriam desembarcar se juntavam ao nosso time.
Pensávamos que iríamos desembarcar às 8hs da manhã, por isso havíamos madrugado.

O Giovanni (italiano responsável por nosso desembarque) tava mais perdido que agulha em palheiro. Ele ia e vinha. Passava na nossa frente e bufava. Pelo jeito, havia coisa errada com algum passaporte filipino.
E assim, com medo de ir até o refeitório almoçar, tomar uma água, ir até o banheiro ou correr qualquer risco de perder o desembarque e as bagagens, fomos ficando pela região da Gangway:

Não havia a menor previsão de que horário desembarcaríamos. A Simone começou a se desesperar, pois ela estava com um caso extremamente delicado em sua família. O Felipe estava inflamado de tanta desilusão.
Uma brasileira que tinha vôo marcado armou um barraco gigantesco com os seguranças. Quase que a Receita Federal a bota no xilindró. Sem contar os indonesianos, os filipinos, o grande amigo francês, a italiana doida, o peruano gente boa e todos aqueles que estavam com seus vôos agendados para voltar aos seus países…
Acho que a brasileira escandalosa e o peruano gente boa devem ter saído por outro lugar, pois não os encontrei mais.

Enquanto isso, lá fora, meus familiares ocupavam o tempo como podiam:

Até foto com a mãe do Felipe tiraram:

Após horas intermináveis, o Giovanni chegou ligeirinho e finalmente nos disse para segui-lo.
Com nossos passaportes em suas mãos, ele pediu para fazermos uma fila.
Apanhei minha mochila pesada e encabecei a fila.

Pisar o solo de Santos foi meio que sagrado:

A família lá de cima não parava de nos dirigir fotograficamente com mímicas:

Até o francês tava confuso com esses idiotas da Receita:

O Giovanni (de branco) estava perdido. Parecia estar com um problemão nas mãos. Ele tentou disfarçar, tentou falar baixinho, pedia para esperarmos mais um pouco…

Por ser o italiano que falava melhor o português com os brasileiros da Receita, a gente conseguiu pescar alguma coisa.

Fomos levados como bois para uma sub parte externa do Porto.
Um ônibus ao nosso lado expelia drasticamente fumaça em nossa direção.
Ficar ali por meia hora conseguiu ser mais insuportável do que ficar dentro do navio.
Estávamos perdidos. Sabíamos disso.

A confirmação veio via celular, o caso extremamente delicado da família da Simone se transformou em um grande pesadelo. Ela não resistiu e desabou em prantos.
Todos que estavam ali, dos italianos aos indonesianos, estavam esgotados, desapontados, infeccionados com tanto descaso. Até os funcionários da própria Receita estavam espantados com tanta ineficiência por parte de seus supervisores.

Após muita canseira e fumaça, o Giovanni nos entregou nossos passaportes.

“-O abraço com os familiares está próximo!”.- pensei eu.

Que nada! Ainda entraríamos, um a um, numa sub parte interna da Receita para algumas declarações.
No meu caso as declarações não levaram nem um minuto, mas na vez dos filipinos e indonesianos a coisa se complicou.
E corre pro navio achar o Giovanni…

Situação ridícula!
Não há outra forma de avaliar o tratamento dado pelos funcionários do Porto de Santos.
Que vergonha de descaso para conosco!

Horas depois, quando as pernas já não respondiam de canseira, quando o estômago estava ácido de fome, a garganta seca de sede e a cabeça latejante de dor, a mocinha da Receita nos chama.

Seguimos em procissão pelo meio do caótico saguão principal. Não deu nem pra chamar a atenção dos meus familiares que estavam sentados logo ali!
Que coisa mais mal organizada! Tentei chamar a atenção deles, pulando, agitando os braços, mas eles estavam distraídos demais e apesar de próximos, o barulho no saguão abafava qualquer tentativa de me ouvirem…

Entramos no saguão com a mesma rapidez que saímos e percorremos a frente do Porto.
Eu não conseguia entender!
Que procedimento mais doido!
Saímos com nossos passaportes na mão, fila indiana, cruzamos o estacionamento debaixo de uma garoa marota…

Percorremos uma espécie de campo de concreto…
Andamos, andamos e andamos…
Saímos num outro campo com containeres emferrujados caídos ao lado…
Ultrapassamos um largo portão e só então entendemos para onde estávamos indo…
Chegamos num outro grande galpão, cheio de funcionários da Receita e cheio de malas e bagagens.

Na hora liguei para meus pais pra informar-lhes a nova situação.
Falei que onde estávamos já era lugar comum, ou seja, a presença deles já era permitida.

Após alguns minutos, vi meu pai se aproximando, vindo lá ao fundo.

Puxa! Eram eles! Não dava nem pra acreditar!

Minha mãe veio logo em seguida, minha tia, meu primo, a mãe do Felipe…

O reencontro foi aquela coisa bem brasileira, cheia de demonstração de carinho, beijos e abraços…
Aquela sensação de finalmente chegar em casa já se dava ali mesmo.

Como é bom reencontrar as pessoas mais importantes da nossa vida.
Por mais que eu tentasse mostrar que eu estava bem, mais eles perguntavam se eu estava bem… Loucura!

Apresentei fisicamente a Simone e o Felipe pra todos, meu primo foi pegar o carro, minha tia queria tirar mais e mais fotos… Todo mundo conversou com todo mundo!

Nem os internacionais amigos tripulantes escaparam das gentilezas da minha família.
Meu pai foi comprar água e batatinha Ruffles pra todo mundo…
Minha mãe foi cumprimentar os indonesianos, os filipinos… Arriscou um inglês macarrônico, desejou boa viagem ao francês…
Pequenas ações carinhosas, marca registrada dos meus velhinhos!

Tinha me esquecido de como isso era bom, de como meus pais são os melhores pais do mundo.
Senti o quanto foi bacana meus amigos conhecerem minha família. Ficou bem claro pra eles o quanto meus pais são a extensão da minha gentileza ou vice e versa.

Estava tão preocupado com meus familiares!
Desde que meus pais disseram que estariam no Porto para meu desembarque, até a confirmação de que minha tia e meu primo tirariam o dia inteiro de folga pra me recepcionar… E não consegui ficar despreocupado.
Durante este dia, em todos os momentos de espera dentro do navio, dentro do porto, eu só pensava neles. Se tava insuportável pra mim esperar aquele desembarque encantado, imagina pra eles!

Era tanta atenção empregada em alguém que não estava trazendo boas novas…
Senti-me muito feliz com a presença deles ali, mas pouco merecedor de tanto carinho…

Nossas bagagens foram liberadas às 16hs, mas estar com a família fez da espera um momento agradável.

Olhei com muito carinho aqueles amigos que nunca mais veria na vida. Despedi-me dos que ainda teriam que fazer aquele longo vôo até o velho continente, dos que iriam voltar para aquelas ilhas asiáticas paradisíacas…
Apesar de estar morto de cansaço, eu teria apenas que dar uma passadinha no apartamento da minha tia em Santos e no finalzinho da noite eu já estaria no conforto do meu pequeno, mas doce lar. Não conseguia imaginar os amigos com uma viagem tão punk dessas pela frente…

E assim se deu meu adeus aos amigos tripulantes.

Eu estava tão cansado, tão cansado, tão cansado, que afundei no banco do carro do meu primo. Só voltei à realidade quando estávamos dentro do elevador subindo ao apartamento.

O apartamento da minha tia fica de frente pra praia, literalmente de frente a Fonte do Sapo.
Tomamos um caprichado café da tarde tendo aquela vista panorâmica do mar por detrás.
Só não conversei mais, pois precisaríamos ainda pegar um busão até a rodoviária pra viajar pra Sampa!

Não tenho nem palavras para agradecer:

Tava tão cansado que até acertar o sorriso demorou…

Não conseguia manter os olhos abertos:

Não podia acreditar que meus pais estavam ali comigo:

Agradeci imensamente esses meus parentes e criei coragem pra voltar pra Sampa.

Meu primo nos levou até a frente de um Shopping.
Esperaríamos o ônibus rodoviário que cruza a cidade de Santos. É um serviço gratuito para aqueles que vão pegar ônibus na rodoviária com destino a São Paulo.

É muito bacana esse serviço, pois como estávamos com as minhas duas malas, não ia ser muito bacana entrar numa lotação em horário de final de expediente. O problema é que o bendito do ônibus gratuito demora horas pra passar.

Estávamos quase desistindo de esperá-lo quando ele felizmente passou.
Subimos eu, meus pais, as malas e desmaiamos de canseira.
Chegamos no Terminal Valongo depois de quase uma hora. O trânsito estava congestionado, horário de pico em Santos.
Descarregamos as pesadas malas e constatamos que iríamos pegar o mesmo ônibus pra ir pra São Paulo. Aproveitamos que as malas já estavam lá embaixo e as botamos naquele compartimento inferior do ônibus.

Meu pai foi comprar as passagens na bilheteria, eu e minha mãe colamos as etiquetas nas malas e então subimos no mesmo ônibus.
O motorista mudou a plaquinha com o novo destino: São Paulo – Metrô Jabaquara e lá fomos nós.

A viagem durou exatamente uma hora.
Nesse ínterim, recebi a ligação da Camilinha do treinamento. Ela tava em dias de embarcar no Costa Classica. Conversamos até quase chegar em Sampa.

Chegamos no Jabaquara trêbados.
Eu não conseguia nem abrir os olhos de tanta dor de cabeça.
Trocar o conforto e o escurinho do ônibus rodoviário por aquela cadeira dura e aquela claridade do metrô me fez ficar acordado até a Parada Inglesa.

Como foi bom rever a Estação Parada Inglesa!

Arrastamos as minhas bagagens pelas ladeiras do bairro até em casa.
Cheguei silencioso. Não agüentaria cumprimentar todos os familiares, não nesse dia…

Entrei em casa pontualmente às 22hs30.

Por mais que nossa casa seja pequenina, feia, desconfortável e velha, não há lugar como nosso lar.
Voltar pra casa da gente é como encontrar o pilar das nossas forças inabalável. É o que faz qualquer viagem, por mais distante que seja, valer a pena.

Após reencontrar minha irmã que chorou como uma condenada, e tentar convencê-la de que eu estava bem, revi cada cantinho da casa, tomei uma ducha demorada no meu chuveiro, comi a comida preparada pela minha mãe, liguei a tv velha, acessei a Internet para resgatar os e-mails acumulados, contei mais algumas desventuras e deitei na minha cama quentinha.

Eu nunca havia estado tão esgotado em toda a minha vida.
A canseira era tanta, que nem o sono era mais forte.
Era como estar delirando.
Fui apagando aos poucos, ainda dando importância maior aos sons da madrugada do que aos meus pensamentos…
Mesmo sabendo que estava em terra firme, ainda estava navegando em mente, sentindo o balanço do navio me açoitar o labirinto.

Herdei um hábito peculiar: às vezes, acordo no meio da noite achando que ainda estou lá na cabine. Com certeza alguma parte da minha alma ficou lá naquele navio!
Assim como trouxe comigo grandes ensinamentos e uma experiência incomum de vida, deixei uma boa parte de mim lá com os que ficaram.

Como disse um amigo meu que também passou por isso: “-A gente nunca recomeça do zero. A gente simplesmente recomeça, tendo no histórico tudo o que vivemos até hoje como repertório”.

Aprendi que não há dinheiro no mundo que compre felicidade, satisfação.
Aprendi que o amor, a amizade, o respeito e a educação são fundamentais na minha vida.
Aprendi o que é ser ruim, o que é fazer o mal, o que é viver uma mentira, o que é perder a essência e achar estar ganhando resistência.
Aprendi que desistir de algo que não serve pra vc é ser inteligente, por mais que os outros achem o contrário.

Caminhar, correr, navegar, voar…
A velocidade com que vc percorre o seu caminho no mundo, não é garantia de chegar primeiro ao seu destino final. Cada um tem um caminho diferente a se percorrer.
O importante é vc percorrê-lo por inteiro.

Devagar se vai ao longe.
O navio deixa bem claro que de pouquinho em pouquinho, cruzamos o mundo todo.

Não adianta passar pela vida e deixá-la passar em branco.
É preciso ter o olhar de uma criança, o julgamento de um poeta, a calma de um monge, a sabedoria de um filósofo, a humildade de um camponês, a educação de um príncipe…
Não adianta ir até o fim do mundo se vc não souber onde é o começo dele.
É preciso iluminar como uma estrela, ensinar como um professor, aprender como um discípulo, cativar e se deixar ser cativado, registrar a vida como um escriba, escrevê-la com a experiência de um ancião, descrevê-la com a paixão de um adolescente…

É preciso continuar a navegar, pois se parar, a gente afunda.
É preciso olhar para o lado sempre, reconhecer a importância da distância, a importância da saudade, o valor do adeus…

No final das contas, a única coisa que a gente leva conosco são as experiências: as boas e as ruins.

3 Respostas para “26- Santos “São Paulo” Parte 2 (Brazil)

  1. Se um dia você ler esta história pra algué, ou se talvez ela virar um filme, use como trilha sonora Laura Pausini.
    Ler tudo isso com ela de fundo, não tem preço.
    Sabe que eu sou suspeitissima para falar da tua história e da tua escrita, não é verdade?
    Está lá a minha promessa. post feito, incompleto, já que sou uma jornalista.
    hahahahaha

    Obrigada por tudo que tu escreve. Me da uma alegria ler cada palavrinha tua João, não tens noção.

    TUDO MESMO.

    FÃ NUMERO 1, sou eu com certeza!

    PARABÉNS AMIGO! POR TUDO! mais que tudo, por seres tu e ter orgulho disso.

    te admiro MUITO.

    Beijos.
    Manuh

  2. Linda sua experiencia, e o mais importante foi todas essas coisas boa que vc aprendeu com ela, que com certeza te ajudaram a ser uma pessoa muito melhor do que vc já é! Pena que nao consegui ver todas as fotos, pq meu computador é meio lesado rsrs… mais eu tbm estava no deck 6 fazendo mimicas para meus pais com lagrimas e lagrimas rolando no rosto, ooo sensaçao gostosa!!
    Parabens!! Deus te ilumine sempre!!
    Bjuss

  3. Alexandra Gonçalves

    Você não me conhece e, na verdade, eu também não o conheço, apesar de ter a nítida sensação de que sim… Enfim, encontrei seu blog enquanto pesquisava na internet informações sobre a Ilha da Madeira (Portugal), terra de meus avós maternos, e um lugar que sempre me encantou e o qual eu sempre tive muita vontade de conhecer. Digitei no Google imagens “ILHA DA MADEIRA PORTUGAL” e a primeira imagem que me chamou atenção na página de resultados foi uma foto em que figurava um transatlântico na Ilha da Madeira. Não pude deixar de clicar, pois nesta imagem se juntaram dois grandes sonhos da minha vida: conhecer a terra natal de meus avós e embarcar como tripulante em um transatlantico.
    No último ano estive pensando muito a respeito se devo ou não encarar esta empreitada de trabalhar em um transatlantico que, eu sei, não será nada fácil, mas que me abrirá as portas do mundo, as portas de lugares que em sonho e através de livros eu já conheço, mas que eu preciso ver com meus próprios olhos e tocar, respirar o ar, conhecer pessoas e culturas. Esta é uma necessidade que eu tenho dentro de mim e que cada vez me consome mais e mais.
    Quando cliquei na foto do transatlantico a página do seu blog se abriu e pude ver que ali estava sendo relatada uma experiência como a que eu procuro. Li primeiro o post de Funchal, mas depois quis ler desde o inicio e então fui ao primeiro post relacionado à sua “viagem”.
    Quando terminei de ler estava emocionada. Fiquei impressionadíssima com a sua capaciadade de nos transmitir todos os detalhes e emoções desta incrível jornada. Por vezes me peguei angustiada com sua falta de tempo para conhecer os lugares, pela solidão que você relatou em alguns momentos me sentia cansanda só de ler tudo o que você tinha de fazer no navio.
    No ultimo post, quando você relata seu reencontro com sua familia, não pude conter a emoção, me imaginei no seu lugar… acho que este seria o momento em que eu desabaria, rever a família depois de tantos momentos tão difíceis e também pelos momentos maravilhosos que você não pôde dividir com eles deve ter sido de bambear as pernas, estremecer o corpo inteiro e chorar como uma criança.
    Bom, depois de ler textos tão inteligentemente detalhados e que me tocaram de verdade, eu não poderia deixar de enviar uma mensagem ao responsável por eles. Gostaria de parabenizar você pela coragem de encarar uma experiência como essa e pela generosidade de dividí-la com pessoas como eu, que procuram um norte, uma direção à seguir.

    Vou continuar pensando se devo ou não perseguir esse sonho, estou quase decidida de que se surgir uma oportunidade eu abraçarei, mas enquanto essa oportunidade não surge vou continuar pesando os prós e os contras.

    Desculpe ter me estendido tanto nesta mensagem, mas eu precisava deixar você saber como me identifiquei com a sua experiência.

    Parabéns pelo blog, ele é ótimo!

    P.S.: Adorei a festa à fantasia e o video do seu amigo vestindo a jaqueta ao contrário… Ri muito!! rsrsrs

    Bjos
    Alexandra

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s