25- Santos “São Paulo” Parte 1 (Brazil)

Nem bem fechei os olhos e os abri.
Havia esquecido de levar as malas para os seguranças fazerem a revista.

Pulei da cama, apanhei as malas e me encontrei com o Felipe e a Simone, que já estavam no segundo deck, perto da Gangway, conversando com um senhor italiano da segurança.

O que ocorreu em seguida, por mais descritivo que eu possa ser “escrevendo” aqui, não vai ter o mesmo impacto do que foi “presenciando” aquela cena ali, mas ver aquela porta (Gangway) ser aberta quando já estávamos em pleno mar foi um susto considerável.

Estávamos todos esperando o tal do indiano vir revistar nossas malas.
Conversa vai, conversa vem… De repente, a porta da Gangway se abre.
Sim, se abre! Assim, do nada!

Aquele turbilhão de vento e o barulho ensurdecedor do navio rasgando o mar interromperam nossa conversa.
A chuva impiedosa açoitando aquela noite carioca contrastou aquela abertura na parede do saguão.

Rapidamente alguns marujos passaram por nós carregando um emaranhado de madeiras e cordas…
Eles estavam se dirigindo pra abertura…
As cenas seguintes foram ainda mais surreais…

Daquele emaranhado sem forma, um dos ágeis marujos esticou uma enorme escada feita de degraus de madeira maciça e cordas!
O outro, com uma certa habilidade, amarrou nós inomináveis da corda em ganchos acima da abertura na parede e jogou o resto da molenga escada pra fora do navio!

Não deu pra pensar muito. Podia ser um furo no casco, podia ser homem ao mar… Podia ser qualquer coisa.

Não era nada disso, mas o que se seguiu aconteceu rápido demais!

A enfermeira Simone ficou maluquinha da silva! Ela simplesmente largou o italiano da segurança falando sozinho e foi lá ver.
O italiano até tentou dizer pra ela que era proibido se aproximar ali, mas a Simone, do jeito que tava P. da vida com aquele povo do navio, já tava com a cara quase pra fora do navio! Hehehhe…
O Felipe também não resistiu, foi atrás!
Eu já tava sofrendo ondas progressivas de comichão curiosa da mais alta periculosidade, porém, a minha chata educação ainda mantinha meus pés fixos no mesmo ponto.

Uma legião de comandantes e oficiais entraram apressadamente no saguão e um senhor carioca, de uns 40 e poucos anos e com cara de Miami Vice, se precipitou por aquela abertura!

“-Puta que o pariu!” – pensei eu: “-O cara vai sair do navio!”…”-Taqueospariu! O que é aquilo ali?”…

Além do vento, do barulho e da escuridão emoldurados pela abertura na parede, pude notar um ponto de luz bruxuleante ao horizonte.
A luz estava desfocada, distante. Ela dançava freneticamente. Desenvolvia um movimento nauseante para cima e para frente, para baixo e para trás… Ela se aproximava e se distanciava… Ela subia e descia…

A todo instante a Simone e o Felipe gritavam para mim: “-Vem veeeeeeeeerr Joãaaaaaaaaaaao!!!”…

Olhei pro tiozinho italiano, ele consentiu com a cabeça um discreto sinal afirmativo e eu corri destrambelhado pro buraco na parede.

Cheguei a tempo de ver a luz bruxuleante de um barquinho se aproximar do navio.
Ele cortava ondas maiores que ele! Lutava sozinho para chegar mais perto, mas não tava obtendo tanto sucesso.
Às vezes ele desaparecia naquele mar negro. Outras horas ele chegava bem pertinho da gente, mas bastava apenas uma nova onda vir e ele sumia de novo.

A chuva não dava trégua! Molhava até o chão do saguão do segundo deck.

A Simone, o Felipe e eu babávamos lindamente. Nossas bocas abertas até o chão do saguão competiam com os fortes pingos da chuva.

Como se fosse combinado, o tal carioca se agarrou na escadinha na hora certa.
No instante seguinte, o barquinho se aproximou com tanta velocidade que por sorte não se chocou contra o navio.
O carioca pulou com a firmeza e o impulso de um acrobata de circo e segundos depois estava pendurado no mastro do barquinho, acessorado por um outro marujo que rapidamente o amarrava na atual embarcação.

Com um breve aceno, o carioca indicou estar tudo bem.
Sem perder tempo o barquinho se afastou do navio com uma velocidade estúpida.
Ele subia e descia com tanta violência que provavelmente seria engolido por aquele mar furioso.

Os marujos do nosso navio desmontaram e removeram a escada puxando estratégicamente um pedaço de corda.
A abertura na parede foi se fechando automaticamente e vagarosamente.
Os comandantes e oficiais foram se dispersando, voltando para seus postos.
Nós ainda continuávamos ali, com as bocas escancaradas… Era como se tivéssemos acabado de gravar uma cena cinematográfica de ação.

Claro que depois de voltarmos ao normal nos lembramos das malas e o que viemos fazer. Elas estavam lá no cantinho do saguão perdidas em seus pensamentos de mala.
O indiano “forgado” chegou e liberou a gente. Disse que amanhã durante o desembarque conferiria nossa bagagem!
Sei! Sei!

Mais tarde ficamos sabendo que aquele carioca à la Miami Vice era nada mais, nada menos que o prático do porto do Rio de Janeiro!

Despedi-me dos colegas, combinando encontro às 6hs da manhã pra os procedimentos de desembarque e voltei pra minha cabine tentar dormir.

De volta a cabine, quase cai ao subir no beliche. O mar estava estranhamente agitado.

“-Que coisa!” – imaginei comigo: “-Atravessamos o profundo e amedrontador Atlântico e vai ser na costa carioca que o bicho vai balançar pra valer!”…

Não deu outra, o meu sono foi interrompido várias e várias vezes por um balanço inigualável. Dava pra sentir a proa do navio afundando nas ondas gigantescas enquanto a popa se elevava. Dava pra calcular os segundos que a proa demorava pra voltar a sua posição normal.
Aquele balanço fazia o Barco Viking do Playcenter parecer brinquedo de parquinho de cidade do interior. A tempestade lá fora deveria estar brava.
Em alguns momentos a proa subia tanto, que pro navio voltar a sua posição normal, ele se chacoalhava todo.
Foi impossível dormir.

2 Respostas para “25- Santos “São Paulo” Parte 1 (Brazil)

  1. Oi João, tenho acompanhado cada capítulo dessa sua aventura. Queria falar com você pelo msn? é possível?

    abraços
    Filipe

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