20- Fernando de Noronha “Rio Grande do Norte / Pernambuco” (Brasil)

Ficar três dias e três noites inteiras cruzando o Atlântico não é pra qualquer um não.
Não no sentido “monetário” da palavra… Bom, também nesse sentido…
Tem neguinho que pira no Crossing. Tanto passageiro quanto tripulante.
Tem que ter a cabeça no lugar pra se fazer uma travessia dessas.

Ver céu e mar, nuvens e água por três dias não é tão relaxante assim para alguns.
Esses se pudessem pular do navio, certamente o fariam… Hehehe…

No sentido “balançante” da palavra, a travessia transatlântica foi bem sossegada.
Entramos numa preocupante tempestade apenas no segundo dia. Foi como se o navio estivesse navegando diretamente para um muro negro maciço no horizonte, tão intensa era a chuva.
Foi engraçado descer para o almoço nesse dia. Eu estava completamente encharcado, e os meus amigos perguntavam se eu tinha caído na piscina.
Avisei-os da tempestade e eles desacreditaram.

Impressionante! O capitão mesmo sendo braço e tendo feito um furo no casco do navio em Mindelo – que inundou boa parte dos decks inferiores – era satisfatoriamente habilidoso em alto mar. (Tá bom, vcs vão dizer que quem manobra o navio nos portos é o prático, mas uma coisa que se aprende sendo tripulante, é que o capitão é sempre o culpado!).

Naquele dia, ninguém sentira o navio passar pela tempestade.

Notável também, como lá no meio do oceano as cores da água variam do azul mais profundo ao mais claro, do verde mais intenso ao mais leitoso!
E o que falar do sol? O sol dá um espetáculo à parte.
Olhar pra ele e saber que ele percorre sem descanso aquela superfície sem fim do Atlântico, depois se dirige para os outros oceanos, ilumina e aquece a distante Itália que ficou na lembrança, a pontinha do estreito de Gibraltar, a imensa ponte de Lisboa, a ilha da Madeira, as lojinhas de Tenerife, minha casinha escondida entre os edifícios de São Paulo…

O navio é imponente quando está atracado nos portos da vida. Vc olha para ele lá da cidade e o respeita. Mas é em alto mar, no meio do mundão azul que ele se torna um colossus. O ronco da sua propulsão, os hélices (sim, no navio não temos “as” hélices e sim “os” hélices) promovem um barulho initerrupto. Esteja no escritório do chefe, nos decks da piscina, no chuveiro da cabine, no conforto da sua cama envolvido pela cortininha florida, o ronco é sempre presente. Em momentos ele some, desaparece da sua vida, vc se acostuma com ele. Outras vezes ele te assombra. Vc se dá conta que desde que deixou Mindelo, os propulsores não pararam de funcionar nem por um segundo.
E o bico do navio vai rasgando aquele mar, os hélices vão revirando aquelas águas e fazendo a espuma borbulhante levantar ondas e deixar um rastro, que aos poucos vai se apagando atrás do gigante branco.
O navio navegando é de tirar o fôlego. Ele vai navegando, como se dominasse os quatro cantos do mundo, os sete mares.
Não existe distância que não seja facilmente alcançada por sua força monstruosa.
Devagar se vai ao longe. Esse é o lema que não sai da cabeça ao se pensar nesse assunto.

Uma coisa que eu gostava muito de ver nos céus europeus, de dia, era o rastro deixado por uns aviões que pareciam estar a anos-luz de distância da gente. Nunca havia visto algo parecido. Vi muito em Savona, em Málaga, Gibraltar…
O avião era um minúsculo pontinho, mas dava pra ver que ele não era desses aeroplanadores acrobáticos que deixam aquele rastro de fumaça decorativa que logo se dispersa no ar. Esse tinha o formato de um avião de passageiros e deixava um rastro no céu que era diferente de tudo o que eu tinha visto até então. O rastro que esse avião deixava parecia assinar o céu por horas, sem sumir.
Alguns amigos me disseram que esse era o famoso avião que viaja na velocidade do som.
A partir do Crossing vi apenas um ou dois desses aviões.

Toda vez que eu entrava na minha cabine pra dormir, eu ligava a televisão no canal de navegação e contemplava a pontinha do Brasil já aparecendo no mapa!
Diferente do mapa na viagem de avião – cujos indicadores pareciam nunca se mexer – a evolução gráfica no mapa de navegação no navio é grande. Tá certo que o Atlântico é imenso, a velocidade do avião nem se compara a do navio, ainda faltava muito pra chegar ao continente brasileiro, mas era visível a evolução.

De noite era aquela contemplação. Não sei se já comentei sobre a constelação das Três Marias.
Uma das coisas que eu mais gostava de fazer a noitinha, era parar um pouco no meio do navio, no deck mais alto e procurar as estrelas, alguns planetas visíveis e as constelações mais famosas. Foi surpreendente constatar que as minhas queridas Três Marias, lá na Europa, ficam quase que verticais…

Eu pensava que o céu noturno visto do meio do Atlântico, fosse mais iluminado por estrelas.
Que doce engano!
Pensava que livre da poluição das cidades, poderia ver melhor as estrelas da Via Láctea…
Que decepção!
O céu do interior de São Paulo brilhava mais que lá no meio do oceano…

Foi então que numa noite, trabalhando até tarde, todas as luzes do navio se apagaram.
De repente, o céu me iluminou como nunca.
Nessa noite eu viajei as estrelas sem sair do lugar.

Constatei que não era o céu atlântico que era apagado. Era o navio que era muito iluminado. Bastou apagar todas as luzes para comprovar como o céu se acende!
As naves, as estrelas cadentes e os satélites artificiais eu juro que tentei, mas não consegui encontrar nenhum.

Constatei como somos frágeis e pequenos. Como não temos respostas de nada.
Não entendemos nem como uma geringonça daquele tamanho, com aquelas toneladas consegue flutuar naquele mar imenso.

E assim os dias se passaram.
No sentido “sufocante” da palavra, a travessia transatlântica foi atribulada.
A tempestade serviu apenas para refrescar um pouco aquele sol ininterrupto que torrava a pele dos passageiros.
O povo tomava o sol da manhã, do dia e da tarde. Alguns dormiam ainda brancos e acordavam torrados. Acho que nunca ouviram falar em câncer de pele, pois o descuido para com a dita cuja era extremo.
O trabalho na área da piscina não tinha fim.

Numa dessas, estava eu fazendo meu trabalho, quando vejo uma imensa gaivota sobrevoando a área da piscina.
O navio não é nenhum carro de fórmula um, mas grande daquele jeito e com seus propulsores funcionando a todo o vapor, o bichão tem uma velocidade surpreendente.
A bichinha voava na mesma velocidade que o bichão, ou seja, ela parecia estar parada em cima da piscina. Era uma coisa que ia contra a física. Coisa de louco.
Os passageiros ficaram maravilhados. Sacaram suas câmeras e começaram a fotografar e a filmar a bichinha planando graciosa e metida acima de suas cabeças vermelhas de sol.
Não demorou muito e um mundo de gaivotas apareceram se exibindo para os passageiros.
Foi a festa da fotografia.

Eu estava resistindo. A minha câmera estava com aquele problema. Eu tinha deixado as baterias carregando lá na minha cabine…
Não desci. Resisti às bichinhas voadoras.

Eu queria saber da onde elas estavam vindo, pois não havia nem sinal de ilha.
Por um tempo elas ficaram ali.

O navio tem um sistema muito ecologicamente correto.
Toda a comida sem osso do navio é reservada num grande compartimento nos decks inferiores e triturada por um colossal liquidificador. Uma vez triturada essa comida, mistura-se uma espécie de enzima que transforma todo esse bolo de alimento em floquinhos de ração para peixe.

Eles deviam estar soltando os tais floquinhos, pois assim os peixes e os golfinhos seguem o navio, e com eles, as tais bichinhas voadoras…

Mas não havia ilha, não havia sinal de terra alguma…

Depois de algumas horas, percebi um pequeno pontinho lá no horizonte enquanto eu passava pela proa.

“-Caraca!” – eu pensei comigo: “-Será que as bichinhas vieram de lá?”… “-Se sim, elas devem ser gaivotas biônicas pra voar distâncias tão grandes.”…

E para a minha surpresa, o pontinho no horizonte se transformou num arquipélago de vinte e uma ilhas.

Eu não conseguia acreditar.
Por estar sozinho em meu posto, eu só tinha meus pensamentos.
Sabia que tinha visto aquelas montanhas em algum lugar, em algum livro, revista de turismo…
Não podia ser.
Era emoção demais pra ser o que eu estava imaginando que fosse.

Então, deu o horário do meu break: 15hs!
Mas eu estava boquiaberto com a possibilidade de ser o que eu imaginava ser.
Os autofalantes do navio anunciaram a concessão que o capitão tinha conseguido com as autoridades da ilha, de que iríamos passar ao lado do Arquipélago de Fernando de Noronha.
A próxima frase esquentou os corações de brasileiros, gringos, tripulantes e passageiros: “-Bem-vindos a Fernando de Noronha, bem-vindos ao Brasil!”.

Corri para minha cabine embasbacado, interrompi o carregamento das pilhas, voltei tremendo pros decks altos do navio:

O meu amigo Junin sempre me falara que Noronha era um paraíso, que era inesquecível, que isso e aquilo…
Eu, particularmente nunca me interessei por um lugar que só pudesse me oferecer belezas naturais… Sempre procurei o exótico, o misterioso… Noronha nunca esteve em meus planos…

Pois é, nunca esteve…
Quem diria…

Noronha é mágica demais pra se explicar com palavras.
Não fosse o fato de estarmos privados de terra, ver qualquer pequena ilha já teria nos alegrado o dia, porém, ver uma jóia daquelas era demais pra qualquer coração marinheiro, pois mais marujo que fosse:

A emoção de estar entrando em águas brasileiras, a sensação de ver uma das coisas mais lindas do Brasil passar soberana ao nosso lado, inundava a mente de sensações positivas e a alegria tomou conta de todos, inclusive de mim:

Nessa hora encontrei a Marcela, que já tinha lágrimas nos olhos:

A gringaiada se acumulou de um lado só no navio. Deu até pra sentir o peso mudando de lado:

Quando vi, estava dando aulas em inglês, pois todos os gringos queriam saber que maravilha era aquela.

A vontade de pular do barco e ir nadando até a ilha era convidativa. Um pequeno avião de turistas sobrevoou umas duas vezes a ilha e se perdeu de vista.
Fomos passando pelas ilhas e ilhotas, compreendendo a fama internacional que a ilha ganhou nesses anos:

Aprendi que um lugar não precisa ser místico nem exótico para entrar na minha lista de lugares a se conhecer.
Noronha não era um lugar místico nem exótico, era paradisíaca e cheia de possibilidades em suas encostas íngremes, suas praias impecáveis e suas florestas verdes.
Sem sombra de dúvidas, um destino para se incluir na lista de desejos; acima de tudo, o melhor cartão de boas vindas que eu poderia imaginar ganhar ao regressar ao meu país:

E com os corações cheios de brasilidade, seguimos ao Recife.

8 Respostas para “20- Fernando de Noronha “Rio Grande do Norte / Pernambuco” (Brasil)

  1. Já falei para abrir uma conta no Gmail…
    Hahahaha

    Falou!

  2. Que incrííííiííííííível, John

    Os capítulos diferentes e inesperados de nossas vidas são os melhores.

    Aposto que o céu que vc viu, foi único!

    Bjs e Bjs
    Dé e Pedro

  3. ah, tenho que concordar contigo que realmente noronha é o lugar de boas vindas mesmo. deve ter sido mais do que inesquecível.

    a unica coisa q eu discordo é que em momento nenhum eu ouvia OS hélices. muito estranho, até senti falta, pra dizer a verdade.

    preciso dizer mais alguma vez que tu escreve muito? q tu fotografa muito?

    sem confetes!
    ahahahaa

    um beijo, joão querido!
    ;*

  4. Ae joão
    entrei pelo fórum aqui , e quando vi funchal / ilha da madeira não pude deixar de comentar
    a minha mãe é de lá !!! lugar muito bonito .

  5. Adorei todos esses lugares q vc passou.Espero poder passar por eles tb um dia.

    Mt obrigado por td Joao,mas acho q ainda eh cedo pra manter td isto em peh.

    T+

  6. Estar em alto mar eu acho que deve dar uma claustrofobia louca. O navio que é imenso, deve se tornar uma pracinha da qual não se é permitido sair, e que por mais que seja grande, por ser o único território permitido, se torna pequeno e clautrofóbico.
    Quanto ao capitão, caraco, furar o navio???
    E vc escreveu “O capitão mesmo sendo braço e tendo …”. O que significa ser braço?
    Que gaivotas possantes, “os” hélices dando tudo de si e elas em cima da pisicina humilhando com suas peninhas branquinhas… Hauheuehua…
    Pq chamam de “os” hélices? Pq são estrangeiros? Ou tem outro motivo?
    Não acreditei quando vc disse que do meio do oceano o céu é apagado, quem diria, e será mesmo que é por causa da luminosidade do navio? Será q não era pq o céu estava carregado de nuvens?
    E ver essa pontinha graciosa que é Fernando de Noronha, deve ser demais, depois de uma overdose de mar aberto…😀

  7. “Numa dessas, estava eu fazendo meu trabalho, quando vejo uma imensa gaivota sobrevoando a área da piscina.
    O navio não é nenhum carro de fórmula um, mas grande daquele jeito e com seus propulsores funcionando a todo o vapor, o bichão tem uma velocidade surpreendente.
    A bichinha voava na mesma velocidade que o bichão, ou seja, ela parecia estar parada em cima da piscina. Era uma coisa que ia contra a física. Coisa de louco.”
    Nada estava contrariando as leis da Física. acontece que o navio e a gaivota estavam na mesma velocidade. Simplesmente. com isso, o observador, tu, no exemplo, tem a sensação de a gaivota estar em repouso.

  8. Nossaaaa kkkkk me lembro que o capitao fez um furo no casco kkkk… vc so esqueceu de contar que entre esses dias de navegaçao o navio emperrou em alto mar por algumas boas horas e nao se movia nem com milagre, e nos tivemos que esperar o magica para seguirmos viagem em segurança, vc se lembra disso?? Foi um barato, adorei aquele drama todo, parecia que iamos ficar ali parados pra sempre, eu ria da propria desgraça kkkk… foi show a travessia, detalhe que o navio seguiu ruim ate mesmo depois do cruzeiro de ushuaia, fomos seguindo viagem com aquele probleminha basico rsrs… bjus

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