14- Savona (Itália) – Málaga (Espanha)

Dry Dock é o nome que se dá para o período de manutenção de um navio. É quando ele fica no estaleiro, completamente sem água, pra reparos, reformas, revisão…
Geralmente trabalha-se muito nesse período, pois o navio literalmente troca de pele.

Cheguei no Victoria em dia de Dry Dock. Encontrei o navio sendo lixado, pintado, montado, arrumado, encarpetado, polido…

Dizem os tripulantes que Dry Dock é prova de fogo.
Para eu e meus amigos que caímos de pára-quedas lá no navio, Dry Dock ou não, tudo já era um grande desafio.

O primeiro dia ainda estava longe de terminar.
Os olhos já não funcionavam direito, o corpo já não respondia.

Sem descanso, encontrei o 6º deck e fui apresentado para a minha equipe de trabalho. Uns dez indonesianos marombados me mediram com seus olhares distantes. Meu chefe, um indiano com o sotaque mais incompreensível do mundo me deu as boas vindas.
Toda noite após finalizar o trabalho, esticávamos nossos corpos nas cadeiras confortáveis do spa esperando o chefe trazer a lista de assinaturas. Eu e meus amigos literalmente desmontávamos nas cadeiras:

Essas fotos retratam a grande amizade que esses queridos indonesianos tinham por mim. No começo eu fiquei bem receoso. A minha primeira experiência com limpeza foi um desastre. Fomos todos fazer o setup da recepção. Um mundo de cadeiras e mesas precisavam ser libertadas de seus plásticos protetores. O silêncio imperava no ambiente. Fizemos esse trabalho nas próximas duas horas e então nos reunimos com o chefe novamente.
Fiquei sabendo que ajudaria um dos indonesianos no spa e na academia. Mal sabia eu que essa seria a minha rotina diária na parte da noite:

Pasek foi o primeiro indonesiano a falar comigo.
Lembro-me do meu pânico. Eu evitava ficar no mesmo ambiente que o amigo, com medo que ele puxasse assunto.
Por mais que eu não conseguisse me expressar, com o passar dos dias a comunicação se torna mais fácil.
Bastaram apenas alguns dias para que eu entendesse a magnitude desses indonesianos na minha vida.
Felizmente eu tenho uma sorte incrível com amigos. O Pasek foi um irmão. Ensinou-me o serviço, me contou histórias da sua distante Bali… Falava com tanta calma que era possível entendê-lo perfeitamente:

Com o passar dos dias, pude perceber que os outros nove indonesianos tinham a mesma luz do Pasek.
Aquela primeira impressão que eu tive deles na primeira reunião, de serem caras durões, impessoais e que não se importariam comigo me surpreendeu.
Todos eles eram incríveis professores, todos eles tinham essa calma ao falar. Eu os compreendia e eles me compreendiam.

E esses foram os meus companheiros nessa árdua jornada.
Aprendi tudo com esses pequenos príncipes. Se por um lado eu perdi pela falta de brasileiros, do outro lado eu ganhei pelo excesso de gentilezas, de atenção, disposição e paciência. Sem contar que dias depois, eu já estava contando minhas histórias em inglês.

O trabalho era muito árduo e era difícil eu acompanhar os guris. O mais fraquinho entre eles tinha um muque de fazer inveja para pitboy nenhum botar defeito.

Uma vez que eu me propus a fazer esse tipo de trabalho, e isso eu tinha bem definido pra mim, eu era capaz de fazer de tudo.
Claro que no final do dia eu era só o pó da rabiola, mas se meus amigos me conquistaram pela gentileza, eu os conquistei pelo meu trabalho.

Por mais difícil que fosse lavar as mil cadeiras de sol, varrer todo o convés, polir o infinito corrimão do deck principal, lavar todas as jacuzzis, cobrir as piscinas, enrolar, distribuir e coletar as milhares de toalhas, montar as mesas, carregar cadeiras, limpar os equipamentos da academia, lavar parede, remover os restos de carpete, lavar as sacadas de todas as cabines superiores, limpar cinzeiros, jogar lixo nas caçambas, preparar os produtos de limpeza, fazer o setup das áreas das piscinas… Eu conseguia sorrir no final do dia.
O trabalho nunca foi problema, pelo contrário, ele sempre foi a solução. Ele era tão intenso que te destruía de uma forma, que bastava deitar na cama para adormecer num sono profundo acordando apenas no outro dia.

Ainda estávamos em Dry Dock. O navio ainda estava paradinho, paradinho e eu já me sentia enjoado.
Nos meus horários de folga eu tentava me adaptar a rotina do tripulante.
A todo instante eu olhava pelas janelinhas do navio para ver se eles estavam enchendo de água o Dry Dock.
Eu estava doido para dar notícias para meus pais, mas era impossível sair do navio nesses dias.

Voltei novamente para a interminável fila de uniformes para pegar uma jaqueta show de bola – depois de um tempo descobri que o motivo dela ser tão gigantesca e pesada é que ela era duas, uma conectada internamente à outra – e senti o Dry Dock enchendo de água.

Lembro-me de estar preocupado demais, pois faltava pouco para o navio navegar até Savona, onde pegaríamos finalmente os passageiros para dar início ao cruzeiro.
Naquela noite, antes do jantar, fui na recepção e peguei as famosas pastilhas que evitam o enjôo.
O navio faria uma navegação teste de dez minutos pela região do porto de Gênova.

A sensação de navegação me amoleceu as pernas. Trabalhar com aquele vai e vém não iria prestar. A dor não tardou a invadir a parte de trás da minha cabeça. Foi quase impossível trabalhar nesse dia.
Mesmo sem vontade, jantei muito nessa noite, seguindo as recomendações do treinamento: barriga cheia evita enjôo.
Comi muito pão, arroz, mas bebi pouco.
Confesso que a sede era algo quase insuportável. Mas como disseram que o inimigo número um do mareado eram os líquidos, evitei tomar qualquer coisa aquela noite.

Fui dormir com medo de passar mal.
Apanhei meu saquinho de bolachas e o escondi debaixo do travesseiro. As bolachas forravam o estômago, inchando-o em questão de minutos. Isso garantia um sono tranqüilo.

Acordei em Savona.
Como explicar Savona com palavras, já que não pude registrar fotograficamente?
Savona vai sempre habitar minha mente. Uma cidade inteira num imenso morro. Medieval, com o sol nascente iluminando seus muros e suas árvores com um dourado sagrado.
Gaivotas, ciclistas e uma linda marina cheia de veleiros e barquinhos coloridos.

Nessa manhã descobri os decks mais elevados do navio. O 12º e o 14º. Acho que o 13º não existe por motivo de superstição.
Um frio cortante lutava contra os fracos raios daquele sol preguiçoso.
Trabalhamos até o sol atingir o meio dia.
O navio ainda estava um caos e os passageiros já entravam…

Esses dias se arrastaram com dificuldades. O fato de não poder dar notícias para a família me deixou muito mal.
O trabalho era a fuga, era a ocupação que me mantinha na linha para não pirar. O resto era sonho que se tornava pesadelo. Com o passar dos dias vi o quão desorganizada, complicada e confusa era essa companhia. Sentir na pele que a companhia só precisa de vc para poder entrar no país – já que para o navio entrar no Brasil é preciso ter 15% de tripulação brasileira – faz com que vc entenda o pouco caso que os italianos fazem de vc.

Mas falemos de coisas boas.
Málaga na Espanha foi o primeiro lugar que eu desci.
A primeira impressão é que vc está entrando num porto colossal, com aqueles guindastes robóticos a perder-se de vista:

É impossível esconder a excitação.
O navio dança em todas as direções para atracar-se.

Descobrir que eu teria apenas uma hora para conhecer os lugares foi uma facada no coração.
Eu trabalhava das 7hs às 11hs, tinha uma hora de almoço, voltava a trampar das 12hs às 15hs, tinha duas horas de descanso, voltava a trampar às 17hs até às 18hs, uma hora pra jantar, voltava a trampar das 19hs até quase às 23hs.
Como disse anteriormente, era muito difícil trabalhar tantas horas por dia, mas isso era uma constante, eu sabia que seria assim. A facada foi descobrir que essas horas de folga não podiam ser conectadas para formar uma longa hora de folga…
Como o navio atracava de manhã e partia lá pelo meio-dia, era quase impossível ter mais que uma hora em cada parada.

Pensei seriamente em abrir mão do passeio em Málaga, mas aproveitei a companhia da Beatriz – a anja que havia me salvado na noite passada – e junto com uma turma de brasileiros fomos passear pela cidade.

Descer do navio para conhecer essas cidades foi maravilhoso:

Só não tirei mais fotos, pois minha máquina estava com dor de barriga e desligava-se a cada clique:

Málaga é uma cidade cosmopolita, muito florida e cheia de montanhas ao fundo, árvores coloridas e muitas lojas:

Os brasucas desciam para comprar laptop.

Passeamos por calçadões e avenidas imponentes:

O barato aqui era atravessar uma rua. Os carros paravam quase que automaticamente.
Fomos direto àquelas cabines telefônicas e ligamos para o Brasil. A minha sorte fez ouvir a minha gravação na secretária eletrônica de casa e tudo o que eu consegui foi deixar um sinal de que eu estava vivo. Conectamos 15 minutos de internet – pra quem tem uma hora de visitação, 15 minutos é uma eternidade – e fomos procurar postais e um correio.
Não achamos os postais, mas acabamos achando o prédio dos correios, que também não vendiam postais. Aproveitei para tirar uma foto pra minha mãe:

Então fomos a um desses grandes shoppings. Santo Deus, imaginem um shopping center que só vende coisas fantasticamente européias por um precinho de 25 de março! Assim era o comércio nesse shopping.
Passei por todas essas ofertas e promoções com muita classe… Hehehehe… Fomos até um Mc Donald´s.

Não me lembro de muita coisa além disso. Lembro-me que quando estava começando a ficar bom, já estávamos no táxi rumo ao porto.

Olhar para aquele gigante branco quietinho lá no horizonte e saber que lá dentro é aquela confusão de gente indo e vindo é terrivelmente engraçado:

Como primeiro destino, voltar são e salvo para o navio era por si só uma conquista:

Por termos voado em Málaga, sacrificado o horário de almoço, andado quilômetros num pique de maratonista, voltar ao trabalho aquele dia não foi moleza.
E foi exatamente na hora de voltar para o navio que eu vi uma cena que ficou gravada na minha cabeça: o desembarque de um grupo grande de tripulantes desesperados que não agüentavam ficar mais um minuto a bordo.

8 Respostas para “14- Savona (Itália) – Málaga (Espanha)

  1. Oi, John

    Acredite. Eu gostaría de estar no seu lugar!!!!!!!!!!!

    Bjs

  2. Caramba, q aventuraaaa!!!!! ainda nao li seus textos… so depois q comprar um micro… hehe

    bjsssssssssss

  3. Eh, Jo….
    Vida de tripulante naum eh facil mesmo!
    Trabalhar 12 horas por dia jah eh complicado… ter que ter o dia inteiro disponivel para espalhar as horas de trabalho entaum…

  4. João

    deveremos embarcar em santos 17.03 rumo savona – como contata-lo no navio?

    obrigado
    Ricardo

  5. Pow João, que ansiedade cara, daqui a pouco sou eu passando por todos esses apertos lá, fico até imaginando!
    Parabens pelo blog!
    =*

  6. Jõao..consegue seu msn ou algum contato seu..sou de ssa ba a infinity fez uma seleção aqui com a Costa…fiz uma entrevista com a Patine da Costa fui aprovado agora a infinity mando data de 25/05 para começo e vou se for vou gastar uns 1500 com passagem para santos stwc….quero trocar uma idéias com vc ..por favor !!
    Abraço

  7. Lindas as fotos,felicidades. O meu sonho fazer uma viagem dessa.

  8. Querido, minha filhota está exatamente em Málaga, no MSC Orquestra, me ligou hj à tarde e tbm foi sua primeira parada depois de Gênova.
    Eu estou acompanhando pela net, conhecendo tds os lugares que ela irá visitar. Ai que saudade! e recém ela se foi. Infelizmente o horário de trabalho dela termina as 18h, só restou a noite pra conhecer a cidade.

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