13- São Paulo (Brasil) – Milão (Itália) – Gênova (Itália)

“E eis que começo o relato da minha aventura transatlântica. Tentarei contar um pouco das alegrias e decepções dessa experiência incrível que eu vivi nesses últimos dias. Da despedida no aeroporto de Guarulhos com meus pais, passando pelos primeiros amigos conquistados, a longa viagem aérea até Milão, a conexão até Gênova, o encontro com o Costa Victoria no Dry Dock, o atribuladíssimo primeiro dia que durou quase 48 horas, a vida a bordo, os portos, o trampo, as cidades, o crossing, as dificuldades, as felicidades… e os principais fatores que me fizeram abrir mão dessa vida para voltar pra casa. Como já disse para poucos, é preciso ter muita coragem para abrir mão de tanto investimento e decidir voltar pra casa. Tentarei aqui nesses próximos posts, expôr um pouco do que é a companhia, do que me foi oferecido e do que eu encontrei, assim como falarei das curiosidades, das conquistas e do que tudo isso causou, causa e causará na minha vida.”

Ir ao aeroporto sem carro já é sempre um mau começo. A sorte é que meus pais não foram trabalhar, ou seja, me acompanharam em todos os aspectos.
O azar se deu no caminho até Guarulhos, após descermos no metrô Tatuapé e tomarmos o micro ônibus com destino ao aeroporto. Um filho da puta de um senhor suspeito desceu num dos pontos com a bagagem de uma senhora. Na hora, a pobre senhora se desesperou. Mas como se tudo fosse matematicamente combinado com o motorista do micro ônibus, o ladrão conseguiu uma enorme vantagem, já que o motorista dirigia a toda velocidade, pouco se importando com o desespero da senhora.

Após muito desespero, a pobre senhora foi ajudada pelos funcionários do aeroporto e se dirigiu à delegacia.
Apanhamos as minhas duas malas e fomos fazer check in.
Santas 5 rodinhas das minhas malas de giro 360! O que seria de mim sem elas?

Eu estava aéreo. Aquele frio na barriga não vinha. Eu sentia falta daquele nervosismo que antecedia as viagens. Sempre fui do tipo que não dormia um dia antes da viagem. Mas lá estava eu, uma muralha. Inabalável. Estranhei demais essa minha falta de nervosismo.

Se por um lado estava tranquilo, do outro estava ansioso. Mas era uma ansiedade sem nervosismo.
Foi duro despedir-se de meus pais. Vê-los tão deslocados, tão sozinhos e tão nervosos me cortou o coração.

Encontrei dois amigos que fizeram o treinamento comigo: o Alisson e a Amandita.
Após esperar naquelas enormes salas de embarque, subimos ao airbus.
Para minha surpresa o Cacá da seleção sentou-se muito próximo a mim. Eu havia conseguido lugar na saída de emergência e estava bem próximo a primeira classe.

A viagem é cansativa mesmo estando no melhor lugar da classe econômica. Não pelo fato do lugar ser apertado, pelo contrário, sentar-se na saída de emergência foi certamente a melhor opção, mas pelo fato de na minha frente haver uma enorme tv de lcd, que nunca se desligava, mostrando num mapa detalhado, todo o percurso da viagem.
A tela da tv era tão brilhante, que precisei transformar o meu cobertor em um tapa olhos improvisado.
14 horas, 15 horas e nem sinal do sono. Na tela da lcd, acompanhei todo o plano de vôo. Vi o aviãozinho deixar o rastro desenhado no mapa por onde sobrevoava. De São Paulo voamos em direção a Campos do Jordão, e fomos sobrevoando Minas, Bahia, até começarmos a sobrevoar o interminável Atlântico. Enquanto o sol imperava no horizonte, fui contemplando o jardim de nuvens que se desenhava ao horizonte:

O avanço do avião no mapa me lembrou um download de filme através de uma conexão discada. O avião se movia no mapa como uma formiga se moveria entre a linha de metrô Tucuruvi – Jabaquara. Após horas sobrevoando a escuridão do Atlântico, finalmente entramos na pontinha da África. O mapa se alternava. Horas mostrava as cidades principais, horas mostrava as cidades mais próximas. Passei por lugares impronunciáveis que eu nem imaginava existir.
Entramos em Dakar e sobrevoamos todo o deserto do Saara até finalmente, depois de muitas olhadas no mapa, atingirmos o Mediterrâneo.
Incrível como esse sistema de informação te deixa impaciente. A viagem já é longa, mas olhar de cinco em cinco minutos para essas terríveis lcds, fazia com que a longa viagem se tornasse ainda mais longa.
Após ter Casablanca, Barcelona, Atenas, Jiddah e Moscow na mesma tela da lcd, finalmente Milão entrou no mapa. Impressionante como tudo é perto: Palmas de Mallorca, Roma, Marseille, Veneza, Paris…
Demorou mais algumas horas até a gente chegar numa Milão debaixo de chuva.
Chegamos na escuridão da manhã, um frio cortante.

Passar pela imigração foi insignificante. O tiozinho perguntou pra onde eu ia. Eu disse que iria trabalhar no navio e ele me liberou carimbando a passagem pelo aeroporto de Malpensa no meu passaporte.
Com as meninas a situação foi um pouco diferente. Quase que elas voltam pro Brasil. O mesmo tiozinho exigiu das meninas um visto. As gurias explicaram pra mim mais tarde, que é por causa das brasileiras que entram no país para trabalhar no mercado sexual. Claro que era só antipatia por parte dos italianos. As gurias precisaram apenas mostrar o contrato e tudo se resolveu.
Abaixo uma foto antes de deixar meus pais em Guarulhos e já no aeroporto de Milão, os amigos:

A nossa conexão atrasou. Isso garantiu um pouco mais de caminhada pelo aeroporto. Conferimos os Duty Free, fomos comer num restaurante italiano que tinha uns sandubas muito loucos e ficamos tirando sarro da variedade de pessoas do mundo todo que ali se encontravam.
Finalmente entramos no ônibus que nos levou para o meio da pista do aeroporto. Ultrapassamos todos os gigantescos airbus e para nossa surpresa, paramos na frente de um micro avião, daqueles de filme de aventura:

A viagem nesse pequenino foi incrível. Passamos por uma turbulência do cão. Pra vcs terem uma idéia, havia apenas uma fileira de cadeiras do lado esquerdo, o corredor e duas fileiras do lado direito.
Eu amei a viagem. Foi quase uma constante montanha-russa, mas a paisagem de Gênova sob nossos pés fez valer qualquer enjôo:

Gênova é cheia de portos, containers, navios militares, navios de cruzeiro, marinas:

Numa grande volta que o pequeno avião deu, eu consegui ver o Costa Victoria no seu Dry Dock. Ele era imponente mesmo a distância. O frio na barriga imperou.
O pequenino pousou deliciosamente. Descemos na pista e fomos andando até o saguão do aeroporto. Lá, encontramos uma italianada maluca que nos esperava com plaquinhas da Costa.
Povo doido, ninguém abriu a boca pra nos desejar boas vindas, apenas mandaram a gente se agrupar e esperar as malas.
Apanhamos as nossas malas e eu constatei que as minhas estavam com os cadeados estourados, e a italianada nos empurrando pra fora do aeroporto.

Tomamos o ônibus da empresa para merecidamente descansarmos no hotel. Pelo menos essa hospedagem iria cair como uma luva. Os olhos quase não abriam de tanta canseira.

A primeira impressão de Gênova se deu através da janela panorâmica do ônibus em movimento. Gênova é uma cidade bem antiga, com construções que relembram o nosso centro de São Paulo. Prédios antigos em todos os lugares, grandes encostas montanhosas e mais prédios pendurados nessas ladeiras. Parece que toda a população de Gênova mora nesses edifícios amarelados.
Não é agradável de se apreciar, mas também não posso dizer que é feio. Dá a sensação de uma cidade medieval feita de prédios descascados.

O tráfego é caótico, mas não no sentido de engarrafamento e sim no sentido geométrico da palavra. As vias elevadas e as estradas são sinuosas e se contorcem em subidas e descidas, curvas fechadas e grandes retornos que entram dentro de construções, túneis e, acreditem, edifícios amarelos…
Claro que se de um lado tem as montanhas, do outro tem o mar. E é esse contraste que faz da cidade um lugar único.
Os navios, os barcos, os transatlânticos, as balsas, os veleiros, os cargueiros… É muita informação lado a lado… Sem contar o sistema rodoviário, ônibus lindos indo e vindo, pessoas esquisitas nas ruas, a vida acontecendo…

Paramos numa enorme praça, cheia de vida, de cores e de possíveis sabores.
Avistamos um enorme hotel de paredes amarelas. Já nos preparávamos para descer, mas o motorista chamou apenas os indianos que estavam com a gente.
Pensamos que a companhia havia reservado um hotel para os indianos e um outro hotel para os brasileiros… Então veio a primeira grande decepção.
O motorista nos levou ao porto e minutos depois, estávamos todos arrastando as nossas pesadas malas para dentro do porto. O Costa Victoria nos esperava:

A longa viagem de avião, a conexão, a falta de sono, a falta de um banho, as malas, as novidades e a certeza de que não nos levariam para o Hotel foi quase um tapa na cara.
Entramos no navio nos arrastando.
Não conseguimos captar nada de bom.

Eu estava com duas malas, com a pasta de documentos, com a mochila nas costas, tentando acompanhar os outros que iam na frente…
Me perdi do pessoal.
Após percorrer a via principal do navio até o fim, com as duas malas, com a mochila e com a pasta de documentos na mão, encontrei alguns anjos da guarda e reencontrei o meu povo. Eles estavam todos no crewbar entregando os exames médicos e o contrato.

Numa mistura de medo e de decepção, apanhei a chave da cabine, peguei o livro de informações, encontrei a cabine depois de duas horas, me troquei, voltei para o mesmo local após achá-lo depois de mais duas horas, conheci o meu companheiro de quarto, entreguei-lhe as havaianas para causar uma boa impressão, fiz o primeiro treinamento de segurança, voltei pra cabine para tentar tomar um banho, mas fui chamado para começar a trabalhar. Achei a minha estação de trabalho, mas como não tinha uniforme precisava ir até um supervisor para solicitar uma solicitação para pegar as roupas de trabalho. Depois de muito tempo encontrei todo mundo na fila do uniforme, depois de mais duas horas peguei o básico. Uma anja bahiana me ajudou a achar minha cabine para me trocar. Dirigi-me a estação de trabalho. Tive que voltar, pois precisava pegar roupa de cama, ou iria ficar sem lençóis, toalhas e cobertores… Voltei, fui, andei, cambaleei e finalmente fui trabalhar…

Eu não consigo me lembrar como esse dia terminou.

10 Respostas para “13- São Paulo (Brasil) – Milão (Itália) – Gênova (Itália)

  1. caracas Jão…
    fodastico…
    to com um friozinho na barriga
    hheheh
    mas vindo de vc,sei q eh seguro
    bjoss

    tudo de boumm

  2. Grande João! Aproveite! Abraços!

  3. Imagino o seu cansaço. Vc não conseguiu dormir no avião então?

    Vc pegou sol direto?

    Eu tb cheguei bem grogue na NZ, pena que eles não deixaram vc ir ao hotel. Alguém contestou isso?

  4. Ei!!!
    Esse Caca que vc falou aih…
    Serah q eh o mesmo Caca da Sun & Sea, o grao-vizir de quando eu fazia os embarques em Santos???

  5. Meu João voce deveria escrever um livro, sinceramente adoro viajar na sua historia, lendo tudo isso, vejo o Gui lá também, como você conta..
    abraços, pena é que tudo isso nao é maravilha como pensam né.

  6. Boa tarde. Li sua aventura. Na hora, deve ser de matar.
    Tanto trampo e nada! Mas tenha certeza que isso será uma experiência para a vida toda.

  7. Primeiro dia é sempre igual para todos ne… parece que o mundo vai acabar… para o mundo que quero descer, nesse caso, pare o navio que queremos desembarcar rsrs.. nao sabemos o que é pior o primeiro dia ou os outros que ainda estao por vir… rsrs… adorei sua historia… bjuss

  8. Putz… e fim da história?

  9. favoritei aqui. muito boa a história, e a narrativa melhor ainda.

  10. olá; companheiro,passei também por verona, gostei do translado que fizemos,voltamos pra castelraimundo,fomos para o sul, no calcanhar da bota, as cos talfitanas, e voltamos para o norte ,não muda nada daquilo
    que vocês passaram em verona, ok

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