ZOODOJOO

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62- 100 Anos Da Imigração Japonesa

Junho 18, 2008 · 4 Comentários

Parte 1: Do Tietê Para O Anhembi

14 de Junho de 2008. E lá fomos nós para o primeiro dia de comemorações dos 100 Anos da Imigração Japonesa no Brasil no Anhembi.
Fomos à pé desde o Metrô Tietê. Ninguém sabia dizer se havia ou não condução gratuita.

A caminhada até o Anhembi não é muito minha praia, mas pra não perder o pique, resolvemos não perder tempo.
Chegamos aos portões de entrada e encontramos uma carência de multidão.

Será que eu havia errado o dia?

O porteiro pediu para atravessarmos a ponte principal.
Contornamos aquele hotel amarelo e caímos diretamente no lounge oriental.

De cara, percebi que aquele lugar iria ser perfeito para um futuro cochilo.
Mal sabíamos que aquele lounge seria palco para futuras acrobacias e pirações sonoras…

Bernardo é loco! Definitivamente é o cara mais divertido pra se levar a qualquer canto. A presença dele por si só, já é garantia de gargalhadas infinitas.
Ele nem chegou a sentar no puff… Ele já foi virando cambalhota!

As criancinhas não acreditavam naquele tio! Era bom demais pra ser verdade.
Em pouco tempo, a molecada começou a imitar a brincadeira e as coisas fugiram do controle.

Eu falei pra ele que ainda tínhamos um evento inteiro pra descobrir. Voltaríamos ali mais tarde, com menos luz! Hehehe…

Foi então que descobrimos o salão principal.
Aquilo tinha dedo do Hideki Matsuka! A arquitetura impecável daquele lugar, aquela decoração, aquelas cores e espaços vazios…

Por mais que eu tenha fotografado, ainda assim, deixei de fotografar tantas coisas bacanas!
Pensei que voltaria mais alguns dias, mas uma gripe do tamanho do mundo me pegou e realmente vou ter que me contentar com os três dias de visitação.
Mas acho que dá para passar o que eu senti nesses três dias.

Parte 2: Papero

Nem bem entramos no salão principal e já estávamos na fila pra conhecer o robô da NEC, o Papero.
O inventor japonês, o pai do robô, estava pessoalmente lá. Não dava pra perder essa!
A Globo mais uma vez entrou no meio da apresentação, atrapalhando toda a evolução… (E pensar que ainda falta eu aparecer na entrevista dos Yamadas)
Eu e o Bernardo estávamos de olho na camisa estampada que o japonês usava. Safado duma figa de um japonês mesquinho. Não deu a camisa pra gente nem com pedido polido em nihongô.

A apresentação só serviu pra gente aparecer na Globo mais uma vez e pra eu ter certeza de que eu quero um Papero.

Parte 3: Voluntária

Encontramos nos corredores alienígenas do pavilhão, pois os corredores estavam impecavelmente encapsulados de tecido branco, um salão cor-de-rosíssima de Pump It Up.
Lá conheci a Voluntária, uma amiga do Ber que nos acompanhou pra cima e pra baixo.
Conferimos as sakurás de papel, vimos ikebanás…

Ela nos conseguiu a programação e nos acompanhou à exposição de bonecos do Sr. Atae.

Parte 4: Yuki Atae

Meu, os bonecos de pano do Sr. Atae são impressionantes.
O olhar, a fisionomia, o corpo, as mãos e os pés…
As roupinhas, a humildade, a ingenuidade…

São tão lindos, tão lindos que dá uma nostalgia inexplicável.
Eu fiquei imóvel de tanta emoção.

Os detalhes eram preciosos, mas nada se comparava aos seus olhares. Eles enchiam os bonecos de humanidade, de vida. Nunca vou me esquecer.

Parte 5: Nós Gatos…

Até a gatinha mais famosa do Japão a gente encontrou por ali. Com direito a muita bala e sorvete mole.

Parte 6: Look At The Bright Side

E caminhando sem rumo, encontrei uma salinha oscilando rosas cítricos.
Não resisti aquele jogo de luzes. Rapidamente dei um jeito de fazer alguns cliques ali.
Foi dessa maneira que acabei descobrindo que ali aconteceria um visagismo.

Parte 7: Hibiki Family

Como disse, acabei sabendo do Visagismo da Hibiki Family por acaso.
Não podia perder. Não depois de ter contemplado o Visagismo da montagem da noiva japonesa em Amai Michi.

Sentei no chão, fiquei de frente para Akito-san.

A transformação é pura arte. Ela começa com força e decisão.
Akito-san se despe e vai para trás de um grande kasá vermelho se maquiar.

Lá, ele se esfrega.
Em uma massagem firme com as mãos, ele esfrega orelhas, nariz, olhos, pescoço, bochechas.
É como se ele estivesse se libertando de qualquer suor.

Rapidamente ele salpica aquele pompom cheio de talco branco pelo rosto, pescoço e peito.

Ele se despe com muita diversão.
Na hora de tirar seu jeans, ele brinca. O público ri.
Ele começa a passar o pompom na mão e começo do braço e ao pintar os pés, leva o pompom até o nariz e faz cara de chulé!

Seu corpo está enrolado por tiras, como numa múmia.

Ele volta para trás do kasá.
Ele se tinge de um branco mais puro. Traça linhas tênues de um vermelho que exalta a forma oval do rosto.
Ele modifica seus olhos. O caminho para a androgenia se dá.
Nos encara pela primeira vez com sensualidade.

Pinta os lábios com um vermelho explícito.
Nos encara novamente. É como se ele estivesse iniciando um ritual hipnótico.

Ele prende o cabelo com uma faixa.
Em poucos minutos, não há mais cabelos.

Com ajuda de seus irmãos, ele começa a vestir a primeira camada do kimono.
E assim ele vai até a última.

Do tamanco de 30cm à colocação da peruca que é quase um tesouro, todas as fases são de uma poesia visual.

Akito se vira em sua plenitude.
Seus movimentos são graciosos.
Ele arrasta os seus tamancos desenhando um caminho no chão.
Ele levanta o pé, congela o movimento, prende o impulso e solta em poesia. É inexplicável.

O mais próximo de explicar isso sem palavras, remete-se àquela apresentação do filme “Memórias de uma Gueisha”.
É simplesmente o máximo!

No final da apresentação, a família foi ovacionada.

Akito-san, simpático pra caramba, desceu da plataforma e explicou um pouco várias curiosidades.
O povo foi ao delírio.

Não resisti e fui pedir uma foto com ele.
Porém, a cena mais engraçada ficou na hora do agradecimento.
Ah, se as imagens falassem! Hahaha…

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55- Azulejos De Lisboa

Maio 26, 2008 · 1 Comentário

Finalmente consegui dar uma passada na Galeria de Arte do SESI pra prestigiar as coleções do Museu Nacional do Azulejo de Lisboa.

Pode até parecer programa de português, sair de casa pra contemplar azulejo, mas longe de qualquer piada, a parada não deixa nada à desejar no quesito “beleza artística”.
Confesso que à princípio, eu estava curioso com a possibilidade de encontrar algum estímulo que me remetesse àquela Lisboa que conheci em 2007.
Como bom curioso que sou e como tudo me influencia, não podia resistir aquele enorme convite-panorâmico montando na frente do prédio da FIESP/SESI.

Ao adentrar a exposição, embarquei numa viagem no tempo.
Os azulejos são decoradíssimos. Das influências árabes às holandesas, é possível encontrar painéis, vasos, travessas e balaustres.
Os estilos são muitos: barroco, rococó, neoclássico, art nouveau, art déco…
Motivos geométricos, mosaicos, referências à tapeçaria persa, albarradas (florais), mitologia, brasões da nobreza, cenas do cotidiano, hagiológicos (santos), fauna das colônias…

Tudo é retratado impecavelmente em cada azulejo.
O resultado é uma explosão de quebra-cabeças que contam histórias.
9 toneladas de material exposto.

A nostalgia que eu tanto procurava, eu encontrei no meio da exposição.
Lisbonne Aux Mille Couteurs, Paolo Ferreira, 1937, MNA inv.5928.

Eu simplesmente congelei.
O pintor Paolo Ferreira (1911-1999), havia feito para o Pavilhão de Portugal na Exposição Internacional de Paris (1937), o painel de azulejos mais fantástico que até então eu tinha visto.

Aquilo representava tudo o que eu havia conhecido em Lisboa!
O coração saltou à boca e a apreciação levou vários minutos.

Desenhei uma linha imaginária vermelha a partir daquela grande praça.
Havia descido do táxi ali, amedrontado e maravilhado com a histórica cidade que se ampliava ao meu horizonte.
Comecei minha procissão.
Ultrapassei o Arco do Triunfo, percorri a Rua Augusta atrás do cartão-postal e dos bolinhos doces, avistei o Elevador de Santa Justa, contornei a Praça Dom Pedro IV, avistei a próxima parada, me perdi em caminhos encantadores, atingi às alturas de Lisboa, comprei o galo, cheguei ao Castelo.

Desenhei uma linha imaginária azul a partir daquele grande castelo.
Após contemplar o Rio Tejo de lá do alto, precisava regressar até a grande praça.
Segui morro abaixo.
Desci a ladeira me guiando pelos trilhos do bonde, passei por ruas e vielas charmosíssimas, encontrei a magnífica igreja, contemplei o resto de luz do Sol que saturava suas paredes, me banhei com o barulho das pessoas voltando para suas casas, dos bondes seguindo seus cursos
Assim cheguei ao ponto inicial.

Viajei tão longe em pensamento!
Quando voltei, estava parado na frente daquele painel, numa tarde de sábado, em plena Paulista…
Demorou pra cair a ficha. Hehehe…

Pude compreender melhor como essa arte é completa.
Além de ter um propósito arquitetônico, ela tem uma importância histórica e uma relevância intercontinental.

Indicado para aqueles que assim como eu, viajam sem sair do lugar.

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53- Fragmentos De Tokyogaqui

Maio 20, 2008 · 1 Comentário

Por João, Lemy & Bernardo.

Ps1: Domo arigatou, Hideki-san;
Ps2: Atenção Taubaté, o Tokyogaqui está chegando por æ!

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49- Ukiyo-ê & Korean Girl

Maio 11, 2008 · 1 Comentário

Fui nesse sábado à Pinacoteca, acompanhado pela Mrs. Sae, “The Korean Girl”.

Estilista, mais pra modelista e também ilustradora, a guria também bebe da fonte que é a ilustração oriental e, indiretamente, é influenciada pelo Ukiyo-ê e todo esse mundo flutuante.

Não dava pra ir lá sem ela.
Apesar do meu interesse estar focado no workshop do pessoal do Japan Ukiyo-E Museum, eu precisava mostrar os kimonos e a exposição “Arte Do Período Edo” pra guria.

Encontrei-a tomando o restinho de sol à borda do Parque da Luz.

Chegamos bem cedo pra garantir a senha. 144 lugares não é um número muito bonito!
Certifiquei-me de estar com a câmera afiada pra registrar alguns detalhes, confirmei permissão para fotografar o workshop e lá fomos nós.

O workshop começou com uma rápida explicação do que é o Ukiyo-ê pelo curador Kunio Sakai.
Ukiyo-ê são gravuras coloridas feitas com técnica de xilogravura à base de água, o que confere fluidez e tons claros à obra. O desenho é talhado e pintado em blocos de madeira, e depois passado para o papel.

Já falei muito sobre o Ukiyo-ê no meu antigo flog, o /JEDB. Esse estilo era parte do meu projeto de pesquisa para o Monbukagakusho.
Eu não fui bem na provas do terrível exame, mas nunca abandonei a idéia do projeto.

Após a explicação do curador, o mestre impressor Shingo Ueda começou o processo xilográfico.
O impressor, super reservado, mas bem simpático, aplicou tinta em determinados lugares na placa de madeira…

Não resisti ficar tirando fotos do lugar onde eu estava.
Avisei a Sae que iria registrar os processos lá na frente e fui.

Enquanto o impressor nos contava curiosidades e conversava com a platéia através do tradutor, também demonstrava sua técnica.
A tradução das explicações, um brasileiro fluentíssimo em japonês realizava na hora. No começo, pensei que este tradutor estava seguindo algum script, pois ele era infalível. Com o passar do workshop, pude ver que o cara era realmente iluminado. Ele dominava o idioma japonês de um jeito meio mágico. E ele nem era japonês!

Para se fazer uma das xilogravuras mais famosas do Ukiyo-ê, aquelas ondas de Katsushika Hokusai “Kanagawa-ooki Nami-ura” (A Grande Onda De Kanagawa), Shingo-san utilizou-se de várias placas, que continham os sulcos entalhados para imprimir as diferentes partes do mesmo trabalho.

Ele deitou delicadamente uma folha úmida de papel japonês em branco na placa de madeira com tinta, aplicou pressão à folha com o auxílio de uma ferramenta confeccionada com bambú e cordas cheias de nós, e assim, obteve a primeira impressão.

A impressão no papel ainda úmido era sutil, incompleta.
Para se alcançar o objetivo final, era preciso repetir esse processo utilizando a mesma folha de papel japonês nas outras placas.

Coisa de louco, coisa de japonês!
Lindo, a mais pura tradição japonesa!

Paciência por ser um trabalho em camadas.
Sutileza pela leveza das cores.
Poder e precisão para aplicar a pressão perfeita.

Captei uma ínfima parte da técnica do mestre.
Detalhes e mais detalhes, técnicas passadas de mestre para discípulo.

A culpa foi dele em perguntar se alguém ali queria ser seu discípulo. Eu não esqueceria disso!

Décadas de experiência e ainda assim, na última impressão, o mestre nos diz que está realmente nervoso.
É na impressão final que se colocam os tons mais negros e é preciso muita concentração, mesmo pra quem domina a técnica. Qualquer deslize aqui, pode significar a ruína de todo o processo.

Como haveria de ser, o resultado final estava impecável. Porém, a impecabilidade era apenas aos nossos olhos.
O mestre disse que infelizmente, sob pressão de uma apresentação, o resultado final não fora feliz. Por isso mesmo, essa xilogravura não poderia ser dada, doada, muito menos comercializada. Ela deveria ser considerada apenas como um exercício.

Ocidentais demoram pra entender atitudes como esta.
A platéia soltou um suspiro inconformado. O mestre sorriu!

Quase três horas depois, estávamos lá, eu e a Sae, trocando idéia com o mestre impressor.
Através do amigo tradutor, eu disse para o Shingo-san que tinha interesse em estudar o Ukiyo-ê no Japão, contei um pouco do meu projeto e em troca recebi seu cartão.

O Kunio-san, o curador, também quis saber um pouco mais do meu projeto, pediu pra eu contatá-lo através do e-mail e me presenteou com uma cópia de um dos trabalhos mais lindos do Ukiyo-ê pelo mestre Hiroshige, a Vista do Monte Fuji a partir de Satta, o “point” na Baía de Suruga. A Sae ganhou uma linda “Bijinga” (retratação da beleza feminina).

Comunicamo-nos em japonês, inglês e português. Aquela mistureba que brasileiro adora fazer.
No final ganhamos até “Shashin Ishoni”. Hehehe…

Saímos do workshop tão animados que quase esquecemos de contemplar a exposição “As 36 Vistas Do Monte Fuji” (Fuji Sanjyuurokkei) do mestre Hiroshige (1797 - 1858). Ele é considerado o último mestre do Ukiyo-ê.
As xilogravuras são obras de arte. Através delas é possível estudar os hábitos e costumes do Japão antigo.
A série retrata o Monte Fuji visto a partir do campo, da cidade e de outros locais que fazem parte do cotidiano japonês, durante as quatro estações do ano.
As obras pertencem ao Museu de Ukiyo-ê do Japão, localizado em Matsumoto (Província de Nagano), reconhecido mundialmente por seu rico acervo.

De lá, contornamos o imenso quarteirão do Parque da Luz e acabamos caindo nas ruas do bairro coreano do Bom Retiro.
Mrs. Sae como boa anfitriã que é, levou-me para um passeio pela rua principal, apinhada de restaurantes típicos, lojinhas de doces e salgados…

Provei doce coreano pela primeira vez: Jong Lo bok tuk ou seja lá como essa gostosura se chama.
É uma espécie de moti. A diferença da versão coreana pra japonesa está na massa que envolve o doce de feijão. O coreano tem a massa mais consistente e é umedecida com o famoso óleo de gergelim árabe, o Tahine!

Ganhei da guria uma bandeja inteirinha desses doces. Quase que não sobra nenhum pra contar história! Arigatou, Sae!

Ainda passamos pelo Parque da Fatec, aquele de frente pra um batalhão da Polícia Militar, ao lado do metrô Tiradentes.
As tiazinhas coreanas iam e vinham em sua caminhada religiosa. O frio parecia não incomodá-las, mas rachava minha pele!
Conversamos um quilômetro de palavras e mais uma vez, notei como essa Korean Girl valia ouro!

Cheguei em casa meio hipotérmico. Hehehe…
Amo frio, mas aquele lá tinha poder demais no ar…
Cheguei, fiz um chá quente, dividi os doces coreanos com meus pais e fui desenhar as influências do dia!

D+++++++++++++++++++++

Ps: Agradecimentos especiais ao Sr. Roberto Palazzi (Gestão Cultural). Sem ele, voltaríamos sem nossas cópias do Ukiyo-ê e sem o convite para o workshop de Sumi-ê. Arigatou, san!

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40- Peregrinação Cultural

Abril 21, 2008 · Não Há Comentários

1. Haru No Umi

O dia 19 de Abril começou bem cedo.
Eu precisaria estar às 11hs na Caixa Cultural para assistir Mar De Primavera de Camilo Carrara e Tamie Kitahara.

A casa estava cheia.
O hype era grande!

O show começou com uma música que eu não conhecia.
O violão de Carrara-san e o kotô de Kitahara-san eram puro equilíbrio.
O dedilhar de dedos entre o ocidente e o oriente teceu uma atmosfera hipnotizante que me fez esquecer de registrar a primeira música.
Talvez seja culpa da riqueza de harmonia ou da felicidade explícita reverberada nos quatro cantos da casa. A única certeza que eu tinha, é que aquela primeira música havia me desestruturado.

As demais músicas repassaram aquela atmosfera mágica encontrada no Cd solo de Carrara-san, Canção Do Sol Nascente. Músicas mais atmosféricas, aquela poesia sonora para se elevar o espírito.

Enquanto o violão improvisa, a mestra focaliza a tradição. O casamento não poderia ser mais feliz. Em pouco tempo estávamos todos num estado de graça e paz.

Violão, kotô, shamisen… As cordas se misturavam em sons etéreos.

Como se não bastasse ser um músico formidável, Carrara-san se mostrou excelente professor.
Ele tem ótima didática para comentar suas evoluções, explicar alguns termos técnicos de suas criações musicais e, entre uma canção e outra, contar como conheceu a música tradicional e folclórica japonesa.
Coincidências ou não, Camilo Carrara foi apresentado a este tipo de música, através de uma coletânea emprestada por um amigo. Foi amor a primeira audição.
Ele também ganhou aquele fantástico catálogo de compilações da música infantil e tradicional do Japão, presente da exposição de Taizi Harada em São Paulo e suas ilustrações sobre as 100 mais famosas canções japonesas de todos os tempos. A partir deste catálogo, que trazia as 100 partituras, Camilo começou a tocar as 100 canções em seu violão.
Por não ter tido outro tipo de contato com este universo, tudo o que ele tinha eram as partituras.
Apesar das informações anotadas e todos os detalhes que acompanham a música escrita, ele acabou desenvolvendo uma nova maneira de tocar aquelas canções, ora mudando o tempo, ora improvisando… A questão é que ele desenvolveu um jeito único e totalmente novo de interpretar aquelas tradicionalíssimas canções.

Conversando com ele mais tarde, expliquei que tínhamos uma história parecida para com estas canções.
Apesar de não ser músico, eu também fui apresentado a estas canções através de uma coletânea infantil: Yu - Yuyake Koyake; e havia ganhado os catálogos do Taizi Harada e me inspirado a criar um dos meus futuros projetos, fazer exatamente “o caminho oposto” ao Taizi Harada em suas ilustrações.

Pela primeira vez, conversar sobre kodomo no uta (músicas infantis japonesas) não era um bicho de sete cabeças.
Eu nunca soube explicar direito porque essas músicas me emocionavam tanto…
A verdade é que pela primeira vez na vida, eu não precisava me explicar, o Camilo me entendia perfeitamente.

Ele ficou surpreso ao constatar que eu não era músico, muito menos tivesse qualquer descendência japonesa.
Foi uma conversa muito simpática.
Grande figura, o Camilo Carrara!

Careimi me disse que após o espetáculo, quando eles foram almoçar no patrocinador, Kitahara-san falou de mim. Disse que ficou realmente honrada em saber que Nanatsu No Ko havia me emocionado daquele jeito.

Eu não resisti. Assim que terminou o show e a Globo liberou a Kitahara-san da entrevista, fui lá agradecê-la.
Poder ver e ouvir alguém cantando e tocando lindamente uma das minhas kodomo no uta preferidas, não é algo que se vê todos os dias.
Comentei o quanto essa música era importante, falei do meu projeto de desconstrução do Ukiyo-ê para com as canções brasileiras e cantamos um trechinho de Chinsagu no Hana, uma das mais tradicionais canções de Okinawa.

Despedi-me de todas essas figuras talentosas e agradeci demais a anfitriã Careimi.

Guardei tudo no coração, mas consegui registrar o momento de maior emoção:

2. Koinoboris no CCBB

Da Praça da Sé até o Centro Cultural Banco do Brasil é um pulinho.
Como eu ainda tinha que passar até alguma papelaria pra comprar grossas canetas pretas pra desenhar a noite, resolvi esticar a perna até o “Gringotes” (apelido carinhoso que a Veresa deu ao edifício do CCBB).

Apesar das interessantes exposições de Foujita e Kaminagai, gostei apenas da expo do jovem Mori, o garoto de 14 anos que era um prodígio na pintura na década de 40.

Entretanto, o que mais me chamou a atenção estava pendurado na clarabóia.

Um móbile de Koinoboris, as birutas japonesas em forma de carpa que são hasteadas por todo o Japão para comemorar o dia dos meninos.

3. Florescer Das Cores na Pinacoteca

Desci até a 25, comprei minhas canetas (que usaria no Tokyogaqui), vi o preço do Ds pro Ber (R$360,00 Lite), passei no apartamento da minha irmã pra almoçar, descansei 30 min., atravessei a passarela da Luz e cheguei à Pinacoteca.

Fui ver a exposição dos kimonos e cerâmicas do período Edo, aproveitar que de sábado a entrada na Pinacoteca é gratuita.

Aquilo tava apinhado de estudante de moda…
Não pude fotografar os kimonos. Tive que sossegar com a foto do site! Que crime!

Aquilo é um tesouro! Doeu só de olhar.
Séc. XVII!
Como eles podiam vestir aquelas obras primas naquela época?
O japonês estava a anos luz de distância fashion dos outros povos!

Cada kimono é divino.
É até falta de educação imaginar um homem usando tal perfeição.
Inacreditável como são confeccionadas as costuras, seus motivos… Os kanjis saltam aos olhos em seus fios de ouro. A direção da linha, o movimento…

Fui então conferir as cerâmicas e percebi muita influência chinesa.

As caixas decoradas com os brasões circulares em ouro fazem a imaginação da gente ir longe. Impossível não pensar que tipos de tesouros elas guardavam, como se vestiam seus donos, em que tipo de armário eram guardadas…

Saí de lá frustrado por não ter podido fotografar. Não mais frustrado, pois aquilo é de uma delicadeza tamanha e se todos os visitantes que por lá passassem, metralhassem flashes e mais flashes, era certo que esses tesouros não durariam mais alguns séculos…

A frustração evaporou-se ao me deparar com a “Contaminação” da portuguesa Joana Vasconcelos dentro do Projeto Octógono.

Putz! Sei que isso não tem nada a ver com o Superflat, mas meu, era totalmente Superflat!

A massa disforme tentacular com suas imensas tetas e sua genitália colorida contaminava as paredes e os dois andares da Pinacoteca.

Afundei-me em suas curvas. Só depois me toquei que não podia afundar do jeito que eu afundei. Eu literalmente mergulhei na contaminação da Joana.

Gomen ne?

4. Sumô X Huka-Huka

Desci voando a escadaria da passagem subterrânea em frente à Pinacoteca para tomar o metrô. Aquele mundo underground de transferências, corredores, baldeação e confusão da Estação da Luz ficou coisa de primeiro mundo! Lembrou-me o agradável caos do aeroporto de Milão.

Desci no Trianon. Queria pegar a expo de azulejos portugueses no Sesi, mas já havia passado das 18hs.
Segui o velho caminho até o Sesc Paulista e o Festival Tokyogaqui.

Retirei meu ingresso para a apresentação do Versus.

O ringue provisório já estava esquematizado.

Foi muito interessante ver uma luta de Sumô, mesmo que de projeção menor.

Já a luta dos índios Xingu foi muito mais que interessante, foi realmente cativante. Os índios conquistaram todo mundo.

Quando eles fizeram Sumô X Huka-Huka, não houve quem não reparasse que a torcida era unânime para os sólidos índios!

5. Gomuñiquetan

Santo Deus!
Falar de Butô é algo novo pra mim.
Faltam-me adjetivos pra ilustrar justamente.

Após ter vagado como um fantasma por vários dias no espaço Ohno 101 + Kusuno, após ter conferido as inúmeras fotos da exposição, após ter lido alguns artigos nos jornais em painéis nas paredes e ter visto alguns vídeos de apresentações de Takao Kusuno, após e somente após eu crio coragem pra tentar falar um pouco sobre esse tema.
A gente percebe que apesar da primeira estranheza, o Butô é de uma originalidade artística completamente fodástica.
Acho que por isso, e apenas por isso que eu posso dizer que estava preparado para a performance da inacreditável Patrícia Noronha.

Estava tudo lá, desde a performance daquela mulher semi nua que se equilibra com as nádegas, até A Argentina!

A coreografia forte, poderosa, infalível, quase mumificava a artista. Seu olhar vazio era profundo, como se pudesse ver o fundo da alma e nada lá houvesse.

Não sei falar muito bem sobre o Butô, mas sei sentir.
A descentralização do palco, os movimentos acontecendo longe dos nossos olhos, a escuridão e os certos focos de luzes… O suor, o nu, a carne, o vestido, a música…

Saí de lá com um encantamento perturbador.

6. Fragmentos De Qioguem?!

Desci até a recepção prevendo que os ingressos estariam esgotados. Nas últimas duas horas eu estava em constantes apresentações…

Não deu outra. Dos 40 lugares disponíveis, 40 a mais foram arranjados de última hora em almofadas no chão! Não caberia nem metade da mim…

Bah, não custava nada tentar com os chefões do Sesc. Eles sempre me vêem ali, sabem que eu sou um cara do bem, nada bagunceiro, apreciador, respeitador…
Quem não arrisca, não petisca!

Hehehe… A sorte mais uma vez estava do meu lado. Finalizei a minha noite com muitas risadas.

Qioguem foi uma colagem de boas idéias.
Foi como se eu estivesse assistindo aquela apresentação de Kagura ou Nô no Bunkyo, tendo a tecla SAP pressionada.

7. Banda Sinfônica Jovem no Memorial

A Peregrinação Cultural que se iniciou no dia 19 e terminou na noite do dia 20 desse final de semana fechou-se com chave de ouro. Fui assistir mais uma apresentação da irresistível Banda Sinfônica Jovem com regência de Mônica Giardini.

O programa da vez foi um apanhado de vesuvius, zimbos, samba 40º, fantasias espanholas, batukes e até uma rapsódia dividida em alegro, moderato, andante e presto! Dia 18 de Maio estarei lá de novo!

Não sei da onde tirei tanta disposição, mas em dias assim, temos que aproveitar a saúde das nossas fortes pernas e deixá-las nos conduzirem.
Outra dessas, sabe-se lá quando!

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