ZOODOJOO

Entradas do Fevereiro 2008

24- Rio de Janeiro “Rio de Janeiro” (Brasil)

Fevereiro 25, 2008 · 3 Comentários

A 1ª vez que vi o Rio foi através da janela de um ônibus de viagem. O percurso até a rodoviária passando ao lado do porto foi inesquecível.
A 2ª vez que vi o Rio foi através da janelinha de um avião da ponte-aérea. Confiscar a Ilha Fiscal das nuvens foi estonteante.
A 3ª vez que vi o Rio foi através do convés de um transatlântico italiano. Atracar aquele monstro quase dentro do centro foi arrepiante.

A 1ª vez eu fui pra trampar. Precisava fazer uma ilustração da cidade e seus pontos turísticos para a empresa Conectel.
A 2ª vez eu fui pra trampar. Precisava voar num desses balões de ar quente e cestinha pela praia da Barra da Tijuca. Fui divulgar uma campanha da Casio.
A 3ª vez, decididamente eu não iria pra trampar!

Era dia de entregar o name tag, os uniformes, as roupas de cama… Pegar assinatura com o Padre, com a búlgara misteriosa da minha chefa… Levar os documentos pro Crew Officer, assinar mais alguns documentos… Arrumar cabine, organizar as malas, trocar contatos com os amigos que permaneceriam por lá…

Depois de entregar tudo menos o Crew Card, combinei com o Felipe do restaurante e com a Simone do hospital, da gente tirar o dia pra passear pelo Rio.

Daria o cano no chefe mesmo! Nem avisaria aquele cabra safado.
Quando eu voltasse lá pro fim da tarde, depois de ter aproveitado o dia na cidade maravilhosa, eu lidaria com o estresse.
Eu tava tão decidido em sair sem avisar, que tava até animado com a idéia de voltar e encontrar o meu chefe soltando fumaça!

Apanhei meu boné, minha mochila, alguns trocados e a danada da câmera e rezei para que o Crew Card ainda estivesse ativo pra passar pela Gangway.

Se eles tivessem dado baixa no meu Crew Card, com certeza na hora que eu fosse passar lá no pessoal da segurança, a catraca iria acusar alguma coisa e eu teria que passar o dia dentro da nave!

Tive sorte! O cartão ainda era válido.

Encontrei o Felipe na entrada do porto. A Simone infelizmente não conseguiu dar o cano no pessoal do hospital. Tadinha.
Esperamos alguns minutos lá no porto, pra ver se alguém conhecido aparecia pra ir com a gente…
Ninguém!
Resolvemos ir andando.

Saindo do porto, encontro um dos oficiais do navio.
Gelei! Hehehe…
Ele sabia que eu não deveria estar ali.

O pior de tudo era que esse oficial não dava pra dar o cano, o italiano era muito gente fina.
Gelei bonito!

Ele me cumprimentou e perguntou aonde eu ia.
Eu, mesmo sem graça não ia mentir. Não na altura daquele campeonato! Eu não tinha mais nada a perder!
Se eu tivesse que voltar pro navio eu voltaria. Pelo menos eu havia tentado ter um último dia digno de recordações!

Com a maior simplicidade do mundo, eu disse que ia tentar subir até o Cristo Redentor.

Claro que eu fiquei esperando a comida de rabo vir em SAP italiano!

Ele fez uma pausa dramática.
Aspirou demoradamente aquele ar quente carioca que nos envolvia, encheu seus pulmões vigorosamente e soltou uma gargalhada.

Pra minha surpresa, ele disse que eu tinha mais é que aproveitar aquele dia:
-Vai passear, filho! Vai na boa, vai sossegado!

Olhei pro Felipe, que também tinha se surpreendido e seguimos à risca os conselhos do tiozão italiano.

Após receber a autorização para aproveitar o Rio do próprio oficial do navio, fomos até uma casa de câmbio. Eu precisava trocar minhas últimas cédulas da moeda européia. Tava com apenas R$5 no bolso!

Troquei o dinheiro, apanhamos nosso mapa para chegar ao Cristo e fomos pegar um busão até o Corcovado!

Tinha me esquecido de como é gostoso passear pelo Rio de Janeiro. É uma mistura de morro verdinho + centro velho da cidade + praias bonitas + sol dourado…

Chegamos lá no Corcovado depois de uma boa hora rodando no busão.
A sorte é que já tínhamos balançado tanto dentro do navio, que acabamos nem sentindo o pula pula do busão. Busão carioca pula mais que pipoca!

Nem bem saímos do busão e um povo já colou na frente da gente.
Eles queriam oferecer o serviço de carro pra subir o Corcovado: mesmo preço do trenzinho.
Nem rolaria.
A graça do passeio está em subir com o trenzinho:

Fomos comprar o ticket na estação do Cosme Velho. Trinta e poucos Reais! Facadinha!
A estação foi construída num lugar bacana aos pés do Parque Nacional da Tijuca, bairro de Laranjeiras. Não tem a mesma infra das construções similares lá no exterior, mas é funcional e tem um certo charme.

Os passageiros do Victoria já estavam todos lá, reconheci um monte de velhinhos e velhinhas.
Aquilo parecia a ONU: bandeiras penduradas de vários países, representantes gringos de várias partes do mundo… Loucura a mistureba de idiomas!

Nosso trem ia demorar:

Aproveitei pra comprar um Guaraná pelo dobro do preço e tava quase levando um postal nas mesmas condições, quando avistei uma lojinha charmosinha lá fora da estação.

Acertei em cheio! O postal era três vezes mais barato lá e o melhor: a lojinha era de uma senhora japonesa, que barbaridade tchê, era de uma simpatia tamanha.
Claro que tive que demonstrar meus dotes nipônicos. O Felipe é testemunha: cantei meia dúzia de músicas tradicionais japonesas (Douyou) com a Obaa-chan (vovó japonesa), escrevi cartinha em japonês e desenhei alguns kanjis…
As tiazinhas ficaram malucas! Hehehehe…
Até esqueci que tinha ido lá pra comprar postal.
Escolhi o postal, escrevi a mensagem, comprei o selinho, colei, agradeci as tiazinhas e botei o dito cujo na caixinha dos Correios na pracinha.

Voltamos pra estação e encontramos uma fila imensa pro próximo trem.
O pior é que esse trem nem era o nosso ainda.

Imagina fazer um passeio desses tendo apenas duas horinhas?

Tive que jogar um xaveco na menina da catraca do trem.
Ela pediu pra gente esperar ao lado. Se sobrassem dois lugares, ela nos encaixaria.
Vinte minutos depois, estávamos no topo do Corcovado.

A viagem de trenzinho é deliciosa:

A estrada de ferro é tão íngreme que parece que vc está dentro de um foguete se preparando pra decolar.
Na saída da estação, a estrada quase passa no quintal de algumas casas no morro. É maluco demais!
Ao adentrar a mata, a gente vê enormes jacas penduradas em suas árvores. É a festa da jaca!

Há também aquelas esculturas horrorosas dos personagens do folclore brasileiro espalhadas ao longo do trajeto. Digo horrorosas, pois são de extremo mau gosto e estão simplesmente enfiadas na terra, sem o menor cuidado… Estão lá apenas pra ocupar espaço!
O trenzinho vai subindo, vai subindo… A estrada vai ficando cada vez mais íngreme.
Vez ou outra, um raio mais forte penetra através da copa das altas árvores e a gente visualiza a cidade ficando cada vez mais pequenina. A mata cria um telhado de folhas, é bem fechada.
De repente, emoldurada pelas folhas das árvores, surge uma panorâmica da cidade maravilhosa lá embaixo. É de perder o fôlego.
Se a gente que é brasuca e já está familiarizado com as imagens do Rio através das alturas do Corcovado se impressiona, os gringos então… Eles parecem sair do corpo de tanta felicidade!

Atualmente, o sistema Riggenbach, onde uma terceira roda funciona como cremalheira movendo o trem, é totalmente indispensável.

E pensar que na época de Dom Pedro II – Imperador do Brasil e primeiro passageiro ilustre a subir o morro do Corcovado – que inaugurou a Estrada de Ferro em 9 de outubro de 1884, o simples fato do trem percorrer 3.824 metros de linha férrea em terreno totalmente íngreme, fora considerado um milagre da engenharia… Hehehehe…
Depois de Dom Pedro II, muitos visitantes ilustres também viajaram no trem do Corcovado. Em 1934, o trem recebeu a visita do então secretário de Estado do Vaticano, Eugênio Pacelli. Cinco anos depois, Pacelli se tornou o Papa Pio XII.
O Pai da Aviação, Santos Dumont, também era um freqüentador assíduo do Trem do Corcovado. Segundo relatos dos antigos maquinistas, ele sempre subia ao alto com seu característico chapéu desabado, dava boas gorjetas e, de vez em quando, pedia para conduzir o trem. Os ex-presidentes Getúlio Vargas e Epitácio Pessoa também eram passageiros freqüentes.
Em 1980, foi a vez do Papa João Paulo II e, assim como ele, também realizaram o passeio o cientista Albert Einstein, o rei Alberto da Bélgica e a princesa Diana.

Em 20 minutos, o trem atravessa, a uma velocidade média de 12Km/hora, a maior floresta urbana do mundo. Esse é o tempo para a gente encontrar o Cristo e atingir o teto do Rio.

O teto de Sampa a gente contempla da Pedra da Cantareira, do Pico do Jaraguá ou da Torre do Banespa no centro velho.
O teto do Rio, por mais que se contemple do Pão de Açúcar, é do Corcovado que ele se mostra na sua totalidade.

Saí do trenzinho e dei de cara com aquela dimensão:

Aquilo lá não é um lugar comum, é como ter os globos oculares arrancados. Vc tem a sensação de estar enxergando 360 graus.

Não quis subir de escada rolante. Falei pro Felipe que ia subir degrau por degrau, pra aproveitar a paisagem:

Sábia decisão! Ela nos proporcionou um pouco mais de tempo para observar a maravilha que é o Rio de Janeiro:

Rapidamente o sol foi sumindo, o tempo foi fechando:

O Rio de Janeiro continuava lindo do mesmo jeito:

Durante a ascensão ao Cristo, uma nuvem do tamanho do estado do Amazonas nos engoliu:

A nuvem apagou o Cristo com uma precisão das ferramentas mais notáveis do Photoshop:

Como em Silent Hill, fomos envolvidos por uma névoa branca misteriosa. A nuvem fez aquela dimensão se desligar do Rio de Janeiro.
Era como se tivéssemos numa outra Galáxia.
Aquela experiência estava ganhando ares surreais.
A religiosidade se ampliava amendrontadoramente ao redor das nossas cabeças. O dia quente havia se transformado numa tarde refrescante.
A sensação de se estar dentro de uma nuvem era inexplicável. Era como se eu pudesse sentir o teto do Rio:

Por mais que eu tentasse ver o Cristo, mais a nuvem o escondia:

Por mais frustrado que eu pudesse estar, aquilo me deslumbrava mais do que se o céu estivesse azul. Eu estava tão feliz de estar ali, tão feliz, que nem consigo explicar. Não era felicidade de estar longe do navio, era felicidade em estar ali.

Vcs sabem como sou viajado na maionese. Pra eu ficar louco basta uma luz incidir de um jeito diferente sobre um objeto, basta ouvir um som errado na hora certa, basta um comentário empolgado de alguém, um perfume doce no ar, uma nuvem do tamanho do estado do Amazonas umedecendo minha cara…

E quando eu menos esperava: a misteriosa nuvem se dissipou, o Cristo se mostrou, a câmera ressuscitou, o Felipe correu pra trás, eu pulei pra frente e garantimos assim a minha primeira foto com uma das sete maravilhas do mundo moderno:

O Cristo Redentor, símbolo da Cidade do Rio de Janeiro, foi eleito como uma das 7 Novas Maravilhas do Mundo Moderno, em votação realizada pela internet e por mensagens de celular, organizada pela New 7 Wonders Foundation, da Suíça, entre 21 monumentos participantes de todo o planeta:

O cartão postal carioca de 38 metros, teve sua pedra fundamental lançada em 1922 e a inauguração em 12 de outubro de 1931, sendo a única maravilha brasileira, ao lado de importantes outras maravilhas, também eleitas, como a Muralha da China (entre 200 a.C. e 1500 d.C.); o templo helênico de Petra, na Jordânia (9a.C. a 40 d.C.); Machu Pichu, no Peru (século XV); Coliseu de Roma, na Itália (70 d.C. a 82 d.C.); Taj Mahal, na Índia (1630 a 1652) e o templo da civilização maia de Chichén Itzá, no México (435 d.C a 455 d.C.). As Pirâmides de Gizé, no Egito receberam o título de hors-concours, por ser o única maravilha (2500 a.C.), remanescente do mundo antigo.

Pirei. Só faltava agora conhecer as outras 6 Maravilhas.
Fiquei pulando nas nuvens que nem bebê no céu antes de nascer.

O Felipe tava um pouco chateado por não termos tido a sorte de pegar tempo bom.
Eu até o entendia.
Os gringos estavam inconformados com a nuvem, as criancinhas cariocas de uma excursão escolar então… Deu até dó!

Acho que eu era o único feliz da vida ali:

Era hora de agradecer.
Grudei no mármore da base do Cristo e agradeci tanto cuidado e guarda:

Apesar das coisas não saírem como o planejado, eu não havia adoecido nessa minha jornada maluca, eu não havia me desesperado, a travessia transatlântica não teve nenhum problema, eu só encontrei pessoas do bem…

Nessas, descobri uma capelinha bem embaixo do Cristo.
Não resisti a tentação da capelinha: rezei um Pai Nosso e uma Ave Maria e aproveitei pra fazer um novo pedido.

Era hora de regressar. Não sem antes tirar uma foto que provasse minha subida ao Corcovado:

Entrei no trenzinho, sentei no meu lugar e o pensamento voou longe, longe.
Fizemos amizade com um casal carioca super bacana. Eles também estavam lá pela primeira vez.

Ao chegarmos ao Cosme Velho, pedi pro Felipe tirar uma foto minha na saída do famoso trenzinho. Sabe-se lá quando iria voltar àquele paraíso:

O casal se ofereceu pra tirar uma foto nossa:

A tarde descia apressada do céu e a nuvem Amazonas já cobria a cidade.
Tomamos o busão de volta pro porto.
A chuva nos pegou quase uma hora depois de entrarmos no busão.
Aquele trânsito estava infernal, levamos quase duas horas pra voltar pra região do porto.
A tarde virou noite.

Nos abrigamos debaixo de um ponto de ônibus.
A chuva castigava a cidade sem dó.
Vi um monte de passageiros velhinhos ensopados atravessando a perigosa avenida pro porto. Tudo era festa!

Esperamos um pouco.
Resolvemos gastar os últimos Reais num lanchão reforçado no Mc Donald´s!
Ninguém merecia navegar aquela noite inteira até Santos de barriga vazia.

O encontro com o chefe foi insignificante. Bunda mole de uma figa!

Terminei de arrumar minhas malas, limpei o armário do banheiro, deixei o guarda-roupa vazio, estiquei minha cama e fui curtir os amigos.

Jantei no Staff, troquei e-mails, abracei amigos e acabei voltando pra cabine bem depois da meia-noite. Estava ansioso, amanhã seria o último dia no Victoria.

A única vitória foi de ter passado por tudo isso com consciência, sem traumas!

Quando finalmente deitei na minha cama, aproveitei o gostoso balanço do barco, vasculhei com o olhar todos os cantinhos da minha cabine, agradeci a hospitalidade daquele pequeno, mas acolhedor lugar, respirei fundo e fechei meus olhos.

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23- Ilhéus “Bahia” (Brasil)

Fevereiro 19, 2008 · 1 Comentário

A mais forte recordação de Ilhéus, não é assim tão agradável.

O cheiro de peixe putrefado do porto incomodava não só os gringos, mas a todos nós.
Era meio insuportável.
Bom, meio é até um elogio. Era desumanamente alienígena aquele cheiro!

Não dava pra ligar o “foda-se” e ignorá-lo.
Por mais que tentássemos nos acostumar com aquele fedor, mais ele penetrava nas nossas narinas.

Eu estava assando sob o escaldante sol do nordeste lá na piscina, quando meu amiguinho indonesiano me avisou que estavam me chamando lá embaixo, na Gangway.

“-Pá!” – pensei: “-Será que eu tenho algum conhecido aqui em Ilhéus?”…

Minhas suposições evaporaram ao chegar na Gangway.
Era o chefe do seguranças que solicitava minha ilustre presença.
Ele estava precisando de alguém pra ficar entre uma pequena passarela, instalada toscamente em cima de uma estrada de ferro.
Eu precisaria apenas segurar um enorme guarda-sol, pra literalmente não cozinhar, e alertar os passageiros pra andarem com cuidado.

-Attention, sir!
-Take care, mademoiselle!

Tava tão quente, mas tão quente, que meus pés dentro dos meus sapatos brancos pareciam borbulhar.
Aproveitei pra me queimar mais um pouquinho com o mormaço baiano ininterrupto.
Santo Deus!

Foi assim que eu conheci a dinamarquesa!

Uma velhinha super simpática estacionou sua canseira no meu guarda-sol.
Ela podia muito bem esperar o marido lá no quiosque ou na sombra colossal do navio, mas não, ela ficou ali comigo, no meio do caminho entre o céu e o inferno, naquele deserto de concreto e sol.
Graças a essa distinta senhora escandinava, tive o diálogo em inglês mais formidável de toda a viagem. Nem eu era capaz de imaginar que meu inglês pudesse me conduzir por uma conversa tão profunda.

Após falar sobre a minha vida e sobre a realidade da vida a bordo, a vovózinha me convidou para ir visitá-la na Dinamarca algum dia.
Agradeci o convite e tanta gentileza, indiquei o Shuttle Bus e acenei um adeus. Provavelmente nunca mais a veria de novo…

Olhei para o relógio! Eu havia passado do ponto de cozimento!
Eu estava tão quente, tão quente, que o segurança quase me mandou pra enfermaria.

Que enfermaria, que nada!
Eu precisava correr pra minha cabine, trocar de roupa, apanhar minha mochila, minha câmera suicida e tentar tomar um Guaraná e molhar os pés numa praia baiana, digo, bacana.

Voei.
Em 15min lá estava eu, no mesmo Shuttle Bus que a dinamarquesa e seu marido.
Após conversar mais um pouquinho, chegamos ao centrinho de Ilhéus!
Despedi-me deles e apertei o passo.

Como aquela cidade me lembrou os bairros paulistanos de Santana e Tucuruvi, mas claro que mais bonitinha, mais bem cuidada… Mas aquele caos urbano era igualzinho…
Passeei entre Casas Bahias, lotéricas, escolas de computação, largas praças, igrejinhas… Consegui até achar a Casa de Cultura Jorge Amado, mas olhei para o relógio e não dava nem pra pisar no primeiro degrau da construção.
Tentei fotografar a fachada, mas a bendita da câmera se recusou a ligar…

O jeito foi entrar no primeiro boteco atrás da Guaraná, pois o banho dos pés ficaria pra uma outra oportunidade.
Não tinha Antarctica. A Quat foi mais que suficiente.

Uma garoa refrescou a espera pelo próximo Shuttle.
Um bando de conhecidos desceram do navio e quase me arrastaram com eles de volta. Eles estavam indo pegar uma praia.

“-Bá!” – pensei: “-Passei por tantas cidades litorâneas tão bonitas e não consegui nem molhar os pés no mar…”…

Engoli o último sopro de ar puro e voltei pra nave.

Definitivamente vou ter que voltar à Bahia.
Ilhéus não pode ser apenas isso!

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22- Salvador “Bahia” (Brasil)

Fevereiro 3, 2008 · 5 Comentários

Sempre fugi de carnaval…
Nunca fui fã de axé…
Muito menos provei acarajé…

Também não posso dizer que o batuque do Olodum me incomodava… Ou que o tempero da baiana fosse menos picante…

Salvador para mim nunca fora um lugar almejado.
Era um dos destinos mais escolhidos entre meus amigos, mas longe de ser meu destino dos sonhos.
Claro que eu não negava a curiosidade de estar ali um dia… Só não esperava que fosse tão rápido.
Talvez o fato da visita do Michael Jackson tenha trazido um pouco mais de fama ao lugar… Talvez não.
Mesmo assim, Salvador era apenas uma imagem desfocada na minha mente.

Era…

Salvador se apresentou pra mim como um abraço de um dia de domingo.
Nem muito sol, nem muita sombra.
Nuvens no céu, como diriam os anjos.

O navio atracou onde a Bahia é mais famosa.
O Pelourinho logo acima, o elevador logo adiante e a Baía de Todos os Santos abençoando os abençoados.

Lá estava eu dando aulas de baianês pros meus amigos indonesianos:
“-A gente precisa subir aquele elevador! Aquele logo ali!”.
Eu havia perdido de subir o Santa Justa em Lisboa. Não perderia o Lacerda por nada!

Salvador não é só carnaval. Salvador é acima de tudo cultura. É uma abundância de cultura.
Na verdade, é cultura em cada esquina, a cada passo.

A imagem que a gente faz de que Salvador é apenas bagunça e carnaval, é coisa típica de sudestino desinformado.

Algumas horas trabalhando com aquela cidade como paisagem de fundo, foram suficientes para morrer de amores por Salvador pelos próximos cem anos.

Combinei com os indonesianos do trabalho em sairmos todos juntos.
Eles, diferente de mim, amavam axé e eram apaixonados por carnaval.
Da pimenta mais picante eles faziam refresco, ou seja, a Bahia pra eles tinha um “quê” de Bali, Sumatra e Jacarta.
Eles estavam excitadíssimos!

Marcamos encontro na Gangway do navio.
Lá estavam eles! Baianos orientais! Havaianas nos pés, calças largas de capoeira, camisetas de capoeira, pingentes, colares, pulseirinhas…
Hahahaha… Esse fanatismo deles pela capoeira era algo cativante.
O jogo de capoeira e a pimenta estão no coração dos indonesianos do Costa Victoria, assim como o futebol e a caipirinha estão no coração dos brasileiros.

Nem bem saímos e percorremos aquela avenida do porto até viramos para a direita, dando de cara com o Mercado Modelo!
Caraca! Que coisa linda!

Atravessamos aquela divertida bagunça caótica de lojinhas e seus penduricalhos extravagantes, resistindo fortemente às cores dos lindos artigos artesanais. Haveria tempo para eles mais tarde.
Foi assim que eu vi a pontinha do Elevador Lacerda:

Bixin, aquilo era bonito demais!

O Lacerdão se mostrou pra mim como um farol em artedecô.
Na verdade, de frente, ele mais parecia um farol do que um elevador, mas quando a gente o vê de lado, percebe suas duas torres.
A primeira torre sai da própria rocha e perfura a ladeira da montanha, servindo pra equilibrar as cabines. A segunda fica mais visível e se articula à primeira torre, descendo até o nível da Cidade Baixa:

Por R$0,05 sobe-se o Lacerdão até a Cidade Alta.
A viagem não dura nem um minuto.
Uma pena o elevador não ser transparente. A imagem da elevação só se faz na mente da gente.
Ao percorrer o corredor do Lacerdão pra sair na Cidade Alta, a gente se depara com uma das vistas mais famosas de Salvador: o Lacerdão em seu ângulo fotográfico mundialmente conhecido e a Baía de Todos os Santos se gabando de beleza extrema lá embaixo:

Não tem cristão, mulçumano, protestante ou budista que não se emocione com essa panorâmica.
Essa é a primeira flechada que acerta o coração e faz vc compreender porque a Bahia encanta o mundo.

Eu estava tão desnorteado de encantamento que registrei o Mercado Modelo e a esquininha do porto lá no fundo. Era tudo tão próximo:

Adentramos então às ruas do Pelourinho.
Que mané Michael Jackson que nada! Aquilo por si só era tudo que aquele lugar precisava pra ser famoso.

O ar naquelas ruas era de história.
O centro histórico da cidade de Salvador, o centro histórico da Bahia.
Pra falar a verdade, o centro histórico do Brasil, pois foi na Bahia que o Brasil começou, foi em Salvador que começou a Bahia e foi no Pelourinho onde tudo começou!

Percorrer aquelas ruazinhas, quase me fazia esquecer que ali era o lugar onde os senhores de engenho chicoteavam publicamente seus escravos.

Com certeza, a posição geográfica da cidade contribuiu e muito para tanta história.
Tomé de Souza quando chegou aqui, cumprindo as ordens do rei, fundou a cidade cujo nome homenageia Jesus Cristo, o Salvador, no melhor ponto para a construção da “cidade fortaleza”, o Pelourinho.
Era impossível não reconhecer as vantagens de se fixar no Pelourinho: a parte mais alta da cidade, o porto logo em frente, próximo ao comércio… Sem contar com a proteção natural da grande depressão existente que forma uma muralha, de quase noventa metros de altura, por quinze quilômetros de extensão, o que facilitaria a defesa de qualquer ameaça vinda do mar.

Com o fim da escravidão, em 1835, o local passou a atrair artistas de todos os gêneros e passou a ser um riquíssimo centro cultural atraindo turistas.

A cidade vista do navio me lembrou Lisboa. Não por sua característica arquitetônica do barroco-português, mas pelo grande número de igrejas num espaço geográfico tão pequeno:

Não dava pra esconder a alegria:

É bom ter a história viva na nossa cabeça.
O melhor turismo do mundo é aquele que se faz, com pelo menos um pouco de história, de informação e de pesquisa.
Muitos turistas passavam ali com cara de bunda. Soltando “gases exclamativos aterrorizantes”. Esses não mereciam as fotos que tiravam.
Falando francamente, quem não merecia a câmera que carregava era eu.

Tá certo que eu não sabia onde ficava a Igreja do Senhor do Bonfim – pois eu queria fazer um pedido lá pra minha tia Lena – mas isso não me impediu de fazer vários pedidos sempre que eu avistava uma igreja…
Afinal de contas, não dava pra fugir muito do meu caminho pré-definido. Eu não contava com tanto tempo…

Fui conduzindo os meus amigos capoeiristas para as compras de penduricalhos, berimbaus, cocadas e acarajés…
Eu era o tradutor oficial dos indonesianos.
Eles compraram um mundo de artigos baianos, filmaram tudo, fotografaram como loucos e experimentaram vários pratos típicos.
Por estarem vestidos a caráter, os indonesianos capoeiristas eram cumprimentados a todo instante pelos soteropolitanos.

Aliás, nada melhor do que um post sobre Salvador, para desmistificar o porquê do gentílico “soteropolitano”.
Tudo porque Salvador – de seu antigo nome completo “São Salvador da Baía de Todos os Santos” – cujos habitantes são chamados pelo etnônimo “soteropolitanos”, foi criado a partir da tradução do nome da cidade para o grego: Soteropolis.
Deixando a Wikipédia de lado, a recepção calorosa dos soteropolitanos era um atrativo à parte.

Fomos numa sorveteria de frutas tropicais, numa dessas tantas plaquinhas coloridas penduradas nas fachadas das lojinhas.
Escolhi o sorvete de massa de maracujá. Estava irresistível.
Os indonesianos até conheciam a passion fruit (maracujá); mas daquele jeito, nem eu havia experimentado.
Talvez fosse o fato de que tínhamos diariamente como sobremesa no nosso almoço lá no navio, sorvete de chocolate, café ou creme… Sabores menos tropicais.
Talvez fosse o fato de que tínhamos que pegar o sorvete ao mesmo tempo em que apanhávamos a comida quente, o que acabava fazendo com que o sorvete se transformasse em sopa de chocolate, café ou creme.
Talvez fosse o fato de que o sorvete do navio fosse melado, apagado…
Talvez…

Mas era fato que aquele sorvete de maracujá, tomado ali com os amigos, nas ruas do Pelourinho era muito mais gostoso…

E fomos caminhando.
E fomos descendo a ladeira.
E eu tentei tirar fotos com meus amigos… E a câmera parecia só querer funcionar nas mãos deles:

E assim fui contemplando a colorida arte Naïf tão presente naquelas calçadas.

O dia foi voando e as duas horinhas terminando.
A gente ia apertando o passo. Sacrificando se distanciar um pouquinho mais. Sacrificando a próxima rua, a próxima descoberta… Riscando lugares da lista de prioridades de última hora.

Olhar o relógio vai se tornando algo maçante… A preocupação vai aumentando, os batimentos também…

É. É hora de voltar pra nave!

Salvador me pegou desprevenido, me laçou e eu nem pude resistir.
Não encontrei carnaval, mas ouvi o batuque do meu coração.
Suas ruas, seu povo, sua história, seu ar:

Por não ter provado o acarajé, volto lá algum dia desses nem que seja a pé.

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