ZOODOJOO

Entradas do Janeiro 2008

21- Recife “Pernambuco” (Brasil)

Janeiro 30, 2008 · 3 Comentários

Recife mostrou suas caras às 8hs da manhã do dia 8 de dezembro.
Seu mar de duas cores se abria ao horizonte convidando a gente para um mergulho:

Eu só sairia lá pelas 15hs, então aproveitei que a câmera tava carregada e tentei fotografar um pouco as áreas que eu freqüentava no navio:

Esses eram os decks altos.
Este carpete azul foi um dos maiores pesadelos no Dry Dock. Antes dele, não havia nada, apenas um chão rústico e desgastado.
Quando eu dizia que eles trocaram absolutamente tudo no Dry Dock, não era força de expressão…
De proa à popa, o trabalho nesses decks era infinito.

Incrível como meus amigos indonesianos me poupavam de certos tipos de trabalhos. Era regra eles me ensinarem todos os procedimentos. Aprendi a aspirar pó e água, a lavar as jacuzzis, lacrar as piscinas, montar as mesas, enrolar as toalhas, lavar o piso, enxugar as janelas de vidro e, obviamente, a desinfectar os banheiros…
Curioso foi que durante toda a minha vida a bordo, eu limpei um único banheiro, uma única vez, sem ser pra valer, durante o treinamento.
Os meus amigos nunca deixaram eu fazer esse tipo de serviço. Eu me oferecia pra fazê-lo e eles me indicavam outras coisas. Até hoje não entendi muito bem o porquê disso, mas eles diziam que esse tipo de serviço, eles não deixariam eu fazer.
Quando digo que eles valiam ouro, não estou exagerando.

Meu maior medo nesse tipo de função eram quanto as coisas nojentas que eu poderia encontrar: lixos, melecas e cacas…
Por incrível que pareça eu nunca encontrei essas coisas nojentas pra limpar.
Encontrei muita farpa, muito vidro, madeira, poeira, lata, cinzas de cigarro (yeacat)… Mas as nojeiras mesmo, quem encontravam eram os cabinistas…

O lixo era limpo, era muito, mas era limpo. Além de tudo, ele já vinha separado. Os gringos tem uma consciência fora do comum para com essas questões.
O trabalho pesado consistia no setup das cadeiras e mesas dos decks da piscina, limpeza das jacuzzis, cuidar da academia, do carpete dos decks altos, providenciar toalhas limpas…

Como eu disse, o trabalho era muito pesado, mas realmente era com ele que eu ocupava minha mente e esquecia um pouco de pensar em casa.

Esses eram os caminhos que eu percorria todos os dias, antes mesmo dos primeiros atletas acordarem para suas corridas matinais:

Nesses carpetes azuis eu passava horas indo e vindo.
O sol me queimava bonito. As pernas ainda precisariam de mais algumas horas de sol, mas eu não reclamava.

Recife parecia ser uma cidade bem interessante:

De um lado a cidade e seus prédios, do outro a calmaria do mar e suas cores:

O porto era gigantesco.
A maior parte dos passageiros já estava longe, provavelmente nas praias de Olinda…
O restaurante da popa, o Terrasa, estava vazio:

Marquei bem onde o Shuttle Bus estava e quando deu meu horário de almoço, voei pra minha cabine trocar de roupa, apanhar meus Reais e tentar conhecer o máximo da cidade em apenas 40 minutos, pois 20 deles eu já tinha gastado tentando descer do navio.

Encontrei o Bus vazio, um imenso ônibus rodoviário.
O motorista se mostrou muito atencioso, já que aquele ônibus imenso estava sendo exclusivo para mim.
Eu era o único passageiro. Todo mundo já tinha ido.

Passear pela cidade dentro daquele ônibus com suas janelas panorâmicas, seu ar condicionado no último, seu balanço amortecido por aqueles amortecedores fabulosos, além do fato do motorista dar uma de guia turístico, fez com que eu quase tirasse uma soneca alí mesmo…

A cidade é linda! Passear por ela dá aquela sensação de ficar pra sempre ali, relaxado, vendo aquelas paisagens portuárias misturadas aqueles fortes de pedra…
Nem bem contemplava a beleza histórica e já dei de cara com um shopping center.
Agradeci o motorista, que me avisou pra não ir muito longe por causa do perigo de assalto.

Desci ao lado de um grande rio, numa região de pontes e mais pontes.
Queria atravessar uma dessas pontes, mas um taxista me aconselhou a não fazer isso. Do outro lado da ponte, uma turminha especializada em bater carteiras, certamente estaria me esperando.
Já que o tiozinho confirmou a dica do motorista, resolvi confiar e pedi pra pelo menos tirar uma foto minha:

3 dias de navegação pelo Atlântico, deixam qualquer marinheiro, por mais marujo que seja, totalmente desiquilibrado.
Reparem no meu eixo. Eu simplesmente não conseguia ficar parado para tirar uma foto.
O labirinto da gente fica tão maluco, que foi preciso muita concentração pra não cair:

Resolvi andar pelos arredores.
Encontrei muitos passageiros do navio. Eles estavam aguardando as portas do shopping se abrir.

Rapidamente compreendi que Recife para mim seria apenas uma refeição!
E quê refeição!
Uma vez que a gente se conforma e abraça a decisão, ela se torna a solução.
Como não daria tempo de fazer mais nada, fui até a praça de alimentação e depois de tantos dias, tive a primeira refeição decente…

Ah, nada melhor do que um filé de frango à brasileira, arroz à grega brasileiro, batatinhas brasileiras, Guaraná e Fanta brasileiras…
Noooooossa, eu tava nas nuvens! Nunca R$15 foram tão bem investidos quanto esses.

Apanhei novamente o Bus, que já estava cheio de passageiros, e voltei com o estômago feliz da vida!

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20- Fernando de Noronha “Rio Grande do Norte / Pernambuco” (Brasil)

Janeiro 20, 2008 · 7 Comentários

Ficar três dias e três noites inteiras cruzando o Atlântico não é pra qualquer um não.
Não no sentido “monetário” da palavra… Bom, também nesse sentido…
Tem neguinho que pira no Crossing. Tanto passageiro quanto tripulante.
Tem que ter a cabeça no lugar pra se fazer uma travessia dessas.

Ver céu e mar, nuvens e água por três dias não é tão relaxante assim para alguns.
Esses se pudessem pular do navio, certamente o fariam… Hehehe…

No sentido “balançante” da palavra, a travessia transatlântica foi bem sossegada.
Entramos numa preocupante tempestade apenas no segundo dia. Foi como se o navio estivesse navegando diretamente para um muro negro maciço no horizonte, tão intensa era a chuva.
Foi engraçado descer para o almoço nesse dia. Eu estava completamente encharcado, e os meus amigos perguntavam se eu tinha caído na piscina.
Avisei-os da tempestade e eles desacreditaram.

Impressionante! O capitão mesmo sendo braço e tendo feito um furo no casco do navio em Mindelo - que inundou boa parte dos decks inferiores - era satisfatoriamente habilidoso em alto mar. (Tá bom, vcs vão dizer que quem manobra o navio nos portos é o prático, mas uma coisa que se aprende sendo tripulante, é que o capitão é sempre o culpado!).

Naquele dia, ninguém sentira o navio passar pela tempestade.

Notável também, como lá no meio do oceano as cores da água variam do azul mais profundo ao mais claro, do verde mais intenso ao mais leitoso!
E o que falar do sol? O sol dá um espetáculo à parte.
Olhar pra ele e saber que ele percorre sem descanso aquela superfície sem fim do Atlântico, depois se dirige para os outros oceanos, ilumina e aquece a distante Itália que ficou na lembrança, a pontinha do estreito de Gibraltar, a imensa ponte de Lisboa, a ilha da Madeira, as lojinhas de Tenerife, minha casinha escondida entre os edifícios de São Paulo…

O navio é imponente quando está atracado nos portos da vida. Vc olha para ele lá da cidade e o respeita. Mas é em alto mar, no meio do mundão azul que ele se torna um colossus. O ronco da sua propulsão, os hélices (sim, no navio não temos “as” hélices e sim “os” hélices) promovem um barulho initerrupto. Esteja no escritório do chefe, nos decks da piscina, no chuveiro da cabine, no conforto da sua cama envolvido pela cortininha florida, o ronco é sempre presente. Em momentos ele some, desaparece da sua vida, vc se acostuma com ele. Outras vezes ele te assombra. Vc se dá conta que desde que deixou Mindelo, os propulsores não pararam de funcionar nem por um segundo.
E o bico do navio vai rasgando aquele mar, os hélices vão revirando aquelas águas e fazendo a espuma borbulhante levantar ondas e deixar um rastro, que aos poucos vai se apagando atrás do gigante branco.
O navio navegando é de tirar o fôlego. Ele vai navegando, como se dominasse os quatro cantos do mundo, os sete mares.
Não existe distância que não seja facilmente alcançada por sua força monstruosa.
Devagar se vai ao longe. Esse é o lema que não sai da cabeça ao se pensar nesse assunto.

Uma coisa que eu gostava muito de ver nos céus europeus, de dia, era o rastro deixado por uns aviões que pareciam estar a anos-luz de distância da gente. Nunca havia visto algo parecido. Vi muito em Savona, em Málaga, Gibraltar…
O avião era um minúsculo pontinho, mas dava pra ver que ele não era desses aeroplanadores acrobáticos que deixam aquele rastro de fumaça decorativa que logo se dispersa no ar. Esse tinha o formato de um avião de passageiros e deixava um rastro no céu que era diferente de tudo o que eu tinha visto até então. O rastro que esse avião deixava parecia assinar o céu por horas, sem sumir.
Alguns amigos me disseram que esse era o famoso avião que viaja na velocidade do som.
A partir do Crossing vi apenas um ou dois desses aviões.

Toda vez que eu entrava na minha cabine pra dormir, eu ligava a televisão no canal de navegação e contemplava a pontinha do Brasil já aparecendo no mapa!
Diferente do mapa na viagem de avião - cujos indicadores pareciam nunca se mexer - a evolução gráfica no mapa de navegação no navio é grande. Tá certo que o Atlântico é imenso, a velocidade do avião nem se compara a do navio, ainda faltava muito pra chegar ao continente brasileiro, mas era visível a evolução.

De noite era aquela contemplação. Não sei se já comentei sobre a constelação das Três Marias.
Uma das coisas que eu mais gostava de fazer a noitinha, era parar um pouco no meio do navio, no deck mais alto e procurar as estrelas, alguns planetas visíveis e as constelações mais famosas. Foi surpreendente constatar que as minhas queridas Três Marias, lá na Europa, ficam quase que verticais…

Eu pensava que o céu noturno visto do meio do Atlântico, fosse mais iluminado por estrelas.
Que doce engano!
Pensava que livre da poluição das cidades, poderia ver melhor as estrelas da Via Láctea…
Que decepção!
O céu do interior de São Paulo brilhava mais que lá no meio do oceano…

Foi então que numa noite, trabalhando até tarde, todas as luzes do navio se apagaram.
De repente, o céu me iluminou como nunca.
Nessa noite eu viajei as estrelas sem sair do lugar.

Constatei que não era o céu atlântico que era apagado. Era o navio que era muito iluminado. Bastou apagar todas as luzes para comprovar como o céu se acende!
As naves, as estrelas cadentes e os satélites artificiais eu juro que tentei, mas não consegui encontrar nenhum.

Constatei como somos frágeis e pequenos. Como não temos respostas de nada.
Não entendemos nem como uma geringonça daquele tamanho, com aquelas toneladas consegue flutuar naquele mar imenso.

E assim os dias se passaram.
No sentido “sufocante” da palavra, a travessia transatlântica foi atribulada.
A tempestade serviu apenas para refrescar um pouco aquele sol ininterrupto que torrava a pele dos passageiros.
O povo tomava o sol da manhã, do dia e da tarde. Alguns dormiam ainda brancos e acordavam torrados. Acho que nunca ouviram falar em câncer de pele, pois o descuido para com a dita cuja era extremo.
O trabalho na área da piscina não tinha fim.

Numa dessas, estava eu fazendo meu trabalho, quando vejo uma imensa gaivota sobrevoando a área da piscina.
O navio não é nenhum carro de fórmula um, mas grande daquele jeito e com seus propulsores funcionando a todo o vapor, o bichão tem uma velocidade surpreendente.
A bichinha voava na mesma velocidade que o bichão, ou seja, ela parecia estar parada em cima da piscina. Era uma coisa que ia contra a física. Coisa de louco.
Os passageiros ficaram maravilhados. Sacaram suas câmeras e começaram a fotografar e a filmar a bichinha planando graciosa e metida acima de suas cabeças vermelhas de sol.
Não demorou muito e um mundo de gaivotas apareceram se exibindo para os passageiros.
Foi a festa da fotografia.

Eu estava resistindo. A minha câmera estava com aquele problema. Eu tinha deixado as baterias carregando lá na minha cabine…
Não desci. Resisti às bichinhas voadoras.

Eu queria saber da onde elas estavam vindo, pois não havia nem sinal de ilha.
Por um tempo elas ficaram ali.

O navio tem um sistema muito ecologicamente correto.
Toda a comida sem osso do navio é reservada num grande compartimento nos decks inferiores e triturada por um colossal liquidificador. Uma vez triturada essa comida, mistura-se uma espécie de enzima que transforma todo esse bolo de alimento em floquinhos de ração para peixe.

Eles deviam estar soltando os tais floquinhos, pois assim os peixes e os golfinhos seguem o navio, e com eles, as tais bichinhas voadoras…

Mas não havia ilha, não havia sinal de terra alguma…

Depois de algumas horas, percebi um pequeno pontinho lá no horizonte enquanto eu passava pela proa.

“-Caraca!” - eu pensei comigo: “-Será que as bichinhas vieram de lá?”… “-Se sim, elas devem ser gaivotas biônicas pra voar distâncias tão grandes.”…

E para a minha surpresa, o pontinho no horizonte se transformou num arquipélago de vinte e uma ilhas.

Eu não conseguia acreditar.
Por estar sozinho em meu posto, eu só tinha meus pensamentos.
Sabia que tinha visto aquelas montanhas em algum lugar, em algum livro, revista de turismo…
Não podia ser.
Era emoção demais pra ser o que eu estava imaginando que fosse.

Então, deu o horário do meu break: 15hs!
Mas eu estava boquiaberto com a possibilidade de ser o que eu imaginava ser.
Os autofalantes do navio anunciaram a concessão que o capitão tinha conseguido com as autoridades da ilha, de que iríamos passar ao lado do Arquipélago de Fernando de Noronha.
A próxima frase esquentou os corações de brasileiros, gringos, tripulantes e passageiros: “-Bem-vindos a Fernando de Noronha, bem-vindos ao Brasil!”.

Corri para minha cabine embasbacado, interrompi o carregamento das pilhas, voltei tremendo pros decks altos do navio:

O meu amigo Junin sempre me falara que Noronha era um paraíso, que era inesquecível, que isso e aquilo…
Eu, particularmente nunca me interessei por um lugar que só pudesse me oferecer belezas naturais… Sempre procurei o exótico, o misterioso… Noronha nunca esteve em meus planos…

Pois é, nunca esteve…
Quem diria…

Noronha é mágica demais pra se explicar com palavras.
Não fosse o fato de estarmos privados de terra, ver qualquer pequena ilha já teria nos alegrado o dia, porém, ver uma jóia daquelas era demais pra qualquer coração marinheiro, pois mais marujo que fosse:

A emoção de estar entrando em águas brasileiras, a sensação de ver uma das coisas mais lindas do Brasil passar soberana ao nosso lado, inundava a mente de sensações positivas e a alegria tomou conta de todos, inclusive de mim:

Nessa hora encontrei a Marcela, que já tinha lágrimas nos olhos:

A gringaiada se acumulou de um lado só no navio. Deu até pra sentir o peso mudando de lado:

Quando vi, estava dando aulas em inglês, pois todos os gringos queriam saber que maravilha era aquela.

A vontade de pular do barco e ir nadando até a ilha era convidativa. Um pequeno avião de turistas sobrevoou umas duas vezes a ilha e se perdeu de vista.
Fomos passando pelas ilhas e ilhotas, compreendendo a fama internacional que a ilha ganhou nesses anos:

Aprendi que um lugar não precisa ser místico nem exótico para entrar na minha lista de lugares a se conhecer.
Noronha não era um lugar místico nem exótico, era paradisíaca e cheia de possibilidades em suas encostas íngremes, suas praias impecáveis e suas florestas verdes.
Sem sombra de dúvidas, um destino para se incluir na lista de desejos; acima de tudo, o melhor cartão de boas vindas que eu poderia imaginar ganhar ao regressar ao meu país:

E com os corações cheios de brasilidade, seguimos ao Recife.

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19- Mindelo (Cabo Verde)

Janeiro 14, 2008 · 3 Comentários

Depois de Tenerife, minha máquina simplesmente entrou em greve.
Só consegui tirar algumas fotos de Mindelo, na hora da partida. Já estávamos a uma boa distância da ilha.

Voltar aos decks superiores e trabalhar até o sol se por, era realmente compreender um pouco a força da natureza.
Era o meu momento “Shadow of the Colossus”. A grandiosidade das paisagens panorâmicas tinha esse poder. Uma beleza colossal se aquietava a nossa traseira:

Eu sempre adorei viajar de ônibus pelas estradas… Poder contemplar as paisagens passando através da janelinha do ônibus era um poder que eu não entendia muito bem. Adorava olhar para trás e saber que aquele lugar que se perdia de vista, de alguma forma estaria lá, esperando meu regresso.
Desvaneios infantis de lado, aqui, essa sensação era multiplicada por mil.
Deixar aquelas silhuetas de ilhas, com o sol como borrão de luz explodindo numa espécie de falso vulcão, aquele mar desenhando o adeus solar em sua superfície… era épico, era mágico, jurássico, aventureiro…

A Mindelo que eu guardo na mente é essa Mindelo de luz e sombra, não o passeio que eu fiz de Shuttle Bus:

Claro que eu sacrifiquei meu almoço!
Desci voando para o Shuttle Bus, mas a equipe de animação era mais numerosa. Faltava um animador, o Bus saiu com atraso.
Eles iam para uma das praias mais paradisíacas da ilha… As 6hs de folga deles contra a minha 1h me esmagaram. Foi o tempo de chegar e voltar imediatamente no mesmo Bus.

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18- Santa Cruz de Tenerife “Ilhas Canárias” (Espanha)

Janeiro 9, 2008 · 4 Comentários

Sair de um paraíso e cair em outro é típico nessas ilhas do Atlântico.

Ir dormir na Itália, acordar na Espanha, almoçar em Portugal, jantar no Reino Unido…
As coisas não pareciam mágicas, elas realmente eram!

Essa era a parte boa.
Por mais rápido que fosse passar por todos esses lugares maravilhosos, por mais sozinho que eu estivesse, bastava pisar o pé nessas terras para poder flutuar.

O trabalho, de forma alguma não era a pior parte da minha vida a bordo. Não era a melhor, mas nem de longe era o pior pesadelo.

O pior pesadelo era o meu horário maluco de trabalho, das 7hs às quase 23hs.
O que nos foi proposto é que apesar do trabalho duro e de ter a certeza de nunca ter um dia inteiro de folga, teríamos um horário justo e a oportunidade de descer e conhecer os lugares.
O contrato dizia que se meu turno fosse do dia, eu trabalharia do meio-dia à meia-noite; se meu turno fosse da noite, eu trabalharia da meia-noite ao meio-dia.

Era um pouco frustrante ver os amigos trabalhando 3x menos e tendo 3x mais tempo pra curtir as cidades.
Talvez o fato de ter sido o único Pool Atendent brasileiro fizesse minha voz não ser ouvida.
Meu chefe não era ruim, mas pouco se importava se o meu horário maluco de trabalho era injusto.

Tentei de tudo para conseguir conciliar meu horário com os demais brasileiros. Tentei explicar o que me foi proposto, levei o contrato, fui atrás de supervisor do supervisor… Quanto mais tentava, mais compreendi que ninguém me ouvia.

Por outro lado, a vida a bordo tem suas vantagens.
Uma vez que vc se adapte ao trabalho, ao balanço do navio, a comida do refeitório, a dor no corpo, ao surto de diarréia, as máfias, aos trotes dos veteranos, ao pouco caso dos bam bam bans e a insegurança que é cada dia mais evidente, vc descobre que o que pega mesmo é o tal do Crewbar.
A vida para quem gosta de fumar, beber e pular de galho em galho é nota mil.
Como eu não fumava, não bebia e não era tão “dado” assim, a melhor parte da vida confinada pra mim, foram as amizades.
Num lugar tão maluco quanto este, onde a maioria das pessoas não estão nem æ para as outras (não pelo fato de elas serem más ou insensíveis - tirando a guria do bico - mas por realmente não haver tempo nem para olhar pro lado), ainda assim eu encontrei pessoas formidáveis, que apesar de tantas atribulações, se preocupavam com a gente.
Tirando a guria do bico (a única fingida falsa) e dois ou três caras de bunda, as pessoas que eu conheci, digo, as pessoas que eu cativei e as que manterei contato a minha vida inteira, foram a parte mais compensadora dessa vida.

Várias pessoas me salvaram.
Os meus queridos “anjos”.
Mas vários desses anjos eu acabei não conseguindo fotografar. Minha câmera me pregava várias peças.

A Dany era coisa de louco, sorriso de orelha a orelha. Salvou-me em várias situações com seu alto astral. Seu abraço era reconfortante e vinha sempre no momento certo. Ela se preocupou comigo desde o dia que eu entrei no navio até o dia que eu sai. No dia que ela vestiu seu uniforme oficial todo branco, ela se tornou mais angelical do que já era. Nesse dia ela se tornou irresistível! Não havia um único ser humano que não pagasse pau pra guria. Não posso esquecer que ela foi quem começou a vender e comprar minhas ilustrações vetoriais lá no navio.
O Breno sempre foi muito bacana comigo, mas quando eu recusei o pedido dele, pois ele queria que eu me mudasse pra cabine dele, ele nunca mais foi o mesmo.
O Vinícius “capoeira” foi o amigo mais nobre. Ajudou-me, certa noite, a mandar um sinal de vida para meus pais, enquanto todos os outros evitavam ensinar o procedimento. Nunca mais o perdi de vista. O esportista também era designer, e uma vez que ele conferiu meus trabalhos e ilustrações, nos tornamos fãs um do outro. Eu, dele, por sua amizade impecável; ele, meu, pelos meus trabalhos e deslumbramento para com tudo ao meu redor. Sempre nos encontrávamos no Crewbar pra bater longos papos e escrever os emails diários.
Meus amigos indonesianos eram todos boa gente: o meu roommate, Lanang (tatoo no braço) era educadíssimo, um pouco barulhento, mas totalmente confiável e extremamente atencioso. Por essas e outras que mudar de cabine e trocar de roommate estava totalmente fora de questão.
E tinha aqueles anjos que a gente não sabia nome, muito menos função. Aqueles que a gente encontrava uma única vez, como o caso dos aniversariantes. Pessoas realmente que engrandecem qualquer ambiente. Alguns eram tão angelicais (independente de posição, grupo ou nacionalidade) que dividiam o próprio bolo de aniversário com a gente:

As festinhas do Crewbar também eram uma boa oportunidade pra encontrar os queridos que a gente via pouco e conhecer os que a gente não conhecia.
A mineirinha Michele do spa e meu querido Agus vão morar no meu coração até o fim dos meus dias.
Alisson e sua cervejinha na mão, quase não conseguia conversar de tanta canseira…
A italiana gordinha da padaria que trazia os doces mais gostosos do mundo, me ensinava italiano, a italiana egípcia que falava fluente mais de seis línguas se apaixonou pelo meu portifólio, a sempre Dany que estava em todas e o alto astral do Thiago:

O professor de português da tripulação era o cara mais literário do mundo. Apesar da pouca idade, o guri era um desses prodígios. Mineirinho como a Michele, eles eram a simpatia e a alegria. Professor a bordo tinha certas prioridades, horas de internet, notebook, salinha de aula… Era ele quem salvava meus cliques no pen drive…
O Adaucto era o guri do restaurante, sempre presente no deck da piscina:

Os amigos eram fantásticos.
Claro que não dava pra decorar o nome de todos, mas tenho cada um deles registrados na minha mente: a anja baiana que me guiou pelo labirinto que eram os corredores do navio no meu primeiro dia, a japonesa com a tatoo de sakurá no braço que literalmente iluminou o meu caminho, a Beatriz, a cabinista que me pegou pela mão e me levou até sua cabine para compartilhar os brownies de chocolate, o italiano dos olhos claros que não falava nem inglês e se interessou pelos meus vetores, os peruanos que contavam histórias mágicas de Machu Pichu, as filipinas do bar que me contavam suas histórias de vida, o povo da animação que comprou meus vetores, o banho que eu tomei na cabine de um por estar com meu chuveiro quebrado, as frutas que as indonesianas dos restaurantes me davam, os sucos que as búlgaras da cozinha me abriam…
Isso sem falar no pessoal do shopping, as minhas meninas queridas, o romeno brasuca, as tiazonas italianudas do spa, o maluco do Safety Officer, os carinhas incompreendidos do Crew Office, o acessível Enviroment Officer…

Mas lá estava eu em Tenerife.
O navio iria partir muito cedo. Novamente aquela minha folga no meio da tarde não serviria para nada.
Sacrifiquei meu almoço! Quem precisa almoçar com aqueles meus queridos amigos indonesianos guardando alguma coisa pra mim?

Desci naquele paraíso no meio do Atlântico e quase caí pra trás! Coisa linda!
As montanhas pareciam desérticas, o mar era tão profundo e azul que dava até vertigem. O céu, invejoso que só ele, competia com o azul do mar.
Ao fundo, o melhor lugar que se podia imaginar para comprar eletrônicos. Dizem que nem em Miami é assim. As taxas aqui inexistiam:

Aproveitei minha uma hora e voei.
Não daria pra fazer muita coisa. Dinheiro eu não tinha, tempo eu não dispunha, mas eu iria andar até onde pudesse. Pelo menos encontrar uma lan house, comprar um postal… (doce engano)…
O Victoria estava sendo abastecido:

Eu estava registrando a fila de navios, quando um grupo de passageiros brasileiros me abordou:

O porto estava apinhado de pessoas do mundo todo e eu estava de costas para o grupo. Nem havia percebido que era comigo.
Os brasileiros (cada um carregando duas caixas de Sony Vaio), pararam apenas para bater esta foto de mim:

Esse era o poder de ser reconhecido fora do navio. Ainda mais por brasileiros. Era sempre uma demonstração de carinho.

Por estarem com pressa (estavam voltando ao navio pra deixarem os laptops e correr de novo a cidade para comprar mais), nem deu tempo de tirar uma foto com eles, mas depois eu os encontraria no navio (doce engano…). Eles me disseram para subir as escadas lá no final do porto e contemplar o mar, que com uma hora apenas não daria tempo de ir até o centro da cidade e voltar para o navio.

Continuei meu caminho até a ponta da tal escada:

Tenerife pra mim seria apenas o porto.
Podia parecer triste, mas ao subir a tal escada que os brasileiros haviam me indicado, não desejei mais nada:

Fiquei bestificado com a beleza do mar.
O barulho da arrebentação me hipnotizou.
Fiquei parado, eletrocutado, encantado.

Pensei em casa, nos amigos, na minha avó.
Como era incrível poder ser levado para esses lugares inacreditáveis, mas como era duro ter apenas a embalagem desses lugares.

Tirar fotos sozinho já era difícil, tirar boas fotos sozinho então, era mais difícil ainda.
Acho que tive muita sorte com as fotos.
A máquina estava com algum tipo de conflito com a bateria, que mesmo cheia e carregada, durava apenas 10 cliques.
Eu ligava o temporizador, corria pra foto e a câmera se desligava…
Sinceramente não sei como consegui bater tanta foto bacana:

Por mais que eu pudesse ser levado para lugares lindos como esse, mais e mais eu percebia as coisas sobre outra forma.
Quanto mais eu tentava me convencer que esses lugares maravilhosos bastavam para tentar apagar as promessas esquecidas que nos foram prometidas, mais eu me convencia de que esse não era o jeito correto de se fazer as coisas.
Estava muito pensativo, porém calmo. Eu precisava aproveitar as coisas e cuidar de mim. Eu precisava encontrar a felicidade, onde ela estivesse. Afinal de contas, eu já tinha me decidido:

Só foi o tempo de correr até o vermelhinho, bater esta foto e voltar para o navio:

O Victoria partiu imediatamente. Começou a contornar a fila de navios:

Nessa hora os navios se dão adeus. É a coisa mais linda do mundo.
Oficiais, tripulantes e passageiros se juntam nas sacadas e varandas para acenar.
Encontrei outra shopgirl perdida por lá:

Ver as pessoas dando tchau pra nós é inexplicável. Não dá pra não se emocionar com isso:

O capitão rompe o silêncio com um apito longo e grave. A emoção queima nossos corações e o som nos faz vibrar por dentro:

De repente, os navios respondem com seus apitos em uníssono. A emoção se multiplica:

A gente ultrapassa o gigantão:

E assim, deixamos Tenerife rumo a Mindelo (Cabo Verde - África), a última parada antes de dar início ao Crossing (Travessia Transatlântica).

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