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Entradas do Dezembro 2007

17- Funchal “Ilha da Madeira” (Portugal)

Dezembro 29, 2007 · 14 Comentários

Depois que eu descobri o Shuttle Bus, minha vida nunca mais foi a mesma.
Na verdade, depois que eu descobri o Shuttle Bus surgiu uma nova questão: esperar ou não pelo Mr. Gratuito?
O Bus não era tão inconstante assim, entretanto, mesmo indo e vindo de 15 em 15 minutos, perdê-lo e esperá-lo + 15 minutos era um luxo que eu não poderia me dar.

O navio deixou Lisboa à meia-noite daquele cansativo, mas proveitoso dia.
Terminei o serviço às 22hs. Consegui descer no porto apenas para ligar para casa e encontrar a Dani e o francês pirata.

Dei uma última olhada para a agradável cidade, visualizei a imensa ponte com seus carrinhos indo e vindo, o Cristo iluminado, os enfeites de Natal acesos…
Fiz um pensamento bem positivo de um breve retorno. Definitivamente essa cidade havia me encantado.
Seguimos chorosos para a Ilha da Madeira.
Chorosos pois o 30 de Novembro seria dia de navegação, e dia de navegação…

Toda manhã recebíamos o Today, a programação de tudo o que ia acontecer no navio: shows, festas, bingos, vendas, cafés, buffet, restaurantes…
O Today de 30 de Novembro trazia a seguinte informação em italiano: “Navigazione nell’Oceano Atlantico con rotta WSW alla volta dell’Arcipelago Di Madeira, formato da 3 isolette. Nella piú grande vi è Funchal, suggestiva città ricca di fiori e frutta dai splendidi colori e profumi”.

Li isso e imediatamente comecei imaginar uma ilha paradisíaca perdida no meio do oceano.
Só fui associar a Ilha da Madeira com Funchal, quando uma amiga minha disse que eu não deveria perder por nada o passeio de teleférico até o topo da montanha.
Ela disse que uma vez lá em cima, o percurso de volta era feito ladeira abaixo, dentro de uma espécie de caixote-trenó-carrinho-de-rolemã empurrado pelos portugueses, como num tobogã.
Na hora me lembrei de uma entrevista do Repórter Record, que mostrava a aventura em descer as famosas ladeiras da Ilha da Madeira nesse caixote.

Eu ainda não sabia como arranjaria tempo para visitar esses lugares, já que minha amiga me alertou que só a subida de teleférico demorava uns 25 minutos.
Enquanto meu corpo trabalhava nas intermináveis tarefas do meu dia a dia, a minha mente trabalhava numa solução para Funchal.

Às 4:30hs da manhã do dia 1º de Dezembro, já era possível ver a Ilha de Porto Santo, uma das quatro ilhas do arquipélago. Aproximadamente às 6hs, navegamos pela costa da Ilha da Madeira e às 7hs, o navio bailava para se aproximar do porto.

A Ilha da Madeira ou Funchal fica mais perto do continente Africano do que do Europeu.
É curioso saber que essa ilha fica quase na altura de Marrocos e se traçarmos uma ilha imaginária, Funchal se encontra na altura das Bermudas…

A ilha da eterna primavera, o lugar onde o verão atravessa o inverno tem um clima suave e satisfatório.
Madeira não poderia ser nome mais apropriado para a ilha, uma vez que seus descobridores avistaram gigantescas árvores, cujos troncos serviram para reparar seus próprios navios.
O nome Funchal se deu pela existência dos funchos, uma espécie de planta aromática que cobria quase toda a ilha e se alargava até à beira-mar.

Apesar de ser uma região autônoma de Portugal, Funchal é a capital de província da ilha.
Por encontrar-se no centro de correntes extremamente favoráveis, a costa e o interior da ilha se tornaram uma gigantesca serra de flores coloridas e perfumadas.
Desde sempre Madeira é uma localidade turística. Os marítimos das longas viagens destinadas à África e Índias, antes de voltar para casa e enfrentar chuvas, neblinas e mar agitado, paravam algum tempo aqui para repousar do cansaço das travessias oceânicas. Cristóvão Colombo foi um dos primeiros mercantes a freqüentar a ilha, após ter se casado com a filha do governador de Porto Santo, viveu por aqui algum tempo.

A solução para conhecer Funchal se deu enquanto eu trabalhava na piscina.
Era certo que o navio partiria para Santa Cruz de Tenerife às 17hs, ou seja, o meu break das 15hs às 17hs não valeria absolutamente nada, já que a tripulação precisava estar uma hora antes do navio partir do que os passageiros.

Lembrei-me da minha família imaginária portuguesa que morava por aqui.
Mas é claro! Como não havia pensado nisso antes?

Rapidamente fui ao meu chefe com essa tática e perguntei-lhe se poderia trabalhar no meu break e sacrificar o meu horário de almoço, juntando meu horário de break… Fazer um bem bolado pra poder voltar às 16hs…
Depois de deixar bem claro que essa seria a única vez que ele permitiria isso, meu chefe nem sabia, mas havia me dado o dia mais legal de toda essa minha aventura transatlântica. Madeira foi minha paixão.

Eu voei para minha cabine, me vesti de Chapolin Colorado, apanhei a mochila, a câmera, alguns tostões para os postais de sempre, para um lanche no Mc Donald´s e para tentar subir o tal teleférico.

Nem bem sai e vi que o Bus não estava por ali.
Rapidamente fui acompanhando os passageiros. Estavam todos indo a pé, resolvi segui-los.

Contornamos o braço do porto e já alcançamos a cidade. O centro de Funchal era bem pertinho.
Pude ver o gigante branco lá atrás: bonitão, imponente, silencioso.
É engraçado olhar pra ele. O navio, visto de longe, mesmo pra gente que trabalha nele, transpassa uma paz, uma harmonia, uma calma. Ninguém imagina o inferninho que são aqueles corredores da área Crew (área de tripulantes) e a bagunça descomunal que é lá dentro:

A cada passo que eu dava eu me libertava.
Eu ia contornando as ruas limitadas por muralhas bem construídas até avistar os casarões monumentais. Mc Donald´s ao lado de Pizza Hut, pontos de ônibus coloridos ao lado de cyber cafés, lojinhas e bancas, barraquinhas e restaurantes abarrotados de gente do mundo todo. Comprei meu postal, meu selo e botei na caixinha redondinha no meio da avenida principal.
Essa avenida era de uma delicadeza tamanha. Seus jardins eram imaculadamente cuidados e suas plantas jurassicamente gigantescas:

Não resisti à beleza dessa avenida principal, ela era imensa.
Disseram-me para segui-la até o fim da vida, que eu encontraria o teleférico.
Nem tava me importando muito com a distância. Percebi que Funchal era segura já nos primeiros minutos de contemplação.
Os táxis, todos Mercedes Série E, já anunciavam a riqueza do lugar.
Andar por aquele lugar era inacreditável. Os vários New Beetles que passavam pela avenida principal cheio de gente jovem, as duas dúzias de ônibus de todos os tipos, cores e tamanhos embarcando e desembarcando turistas, gente do mundo todo sorrindo, tirando fotos:

De um lado havia o mar, do outro a cidade equilibrando suas casas no morro.
Aquela vontade em pedalar de bike por essas ruas quase me desviou do meu objetivo: o teleférico.
Observar a vida acontecendo era um prazer:

Encontrei o tal do teleférico.
Sem pensar duas vezes, apanhei a minha carteira e comprei a ascensão.
A ida + a volta custavam €14, mas como eu queria descer de caixote ladeira abaixo, paguei apenas a ida €10.

O teleférico é todo modernoso. A cabine é muito confortável, protegida, tem ar condicionado, musiquinha de elevador…
Ao passar o bilhete eletrônico na catraca e entrar na estação, a gente embarca numa plataforma especial, que abriga uma engenhoca cheia de trilhos suspensos e engrenagens giratórias, onde as cabines são colacadas no cabo de aço. Tudo é muito louco, pois essa gigantesca roda giratória funciona com velocidade diferente à velocidade de viagem.
Pensei na minha nona. Com certeza a Dª Tunica iria conseguir subir nesse teleférico. A cabine quase parava pra gente entrar.
Lógico que fui sozinho. Eu estava sempre sozinho, isso nem era mais um problema…
Tava tão contente, pois sou fanático por teleféricos. Esse especialmente me lembrava um dos mais fantásticos teleféricos que eu já andei na minha vida: Cerro Otto em Bariloche.
Saber que dentro de instantes eu estaria tendo mais uma dessas recordações teleféricas panorâmicas cravadas na minha mente me deixou impaciente.
Após registrar esse momento, entrei na cabine:

Minha teoria de que sempre é delicioso e inesquecível acessar um teleférico se confirmou na primeira contemplação:

Nem bem tinha saído do chão e já dava pra ver uma boa parte da cidade:

Voar é bom, navegar também é, mas viajar de teleférico é mais mágico. É voltar a ser criança. A sensação que se tem – seja teleférico de cabine fechada, de cadeirinha aberta, bondinho do Pão de Açúcar, skylift – é de se estar num magic carpet ride (tapete voador).
O barulho e a agitação da cidade vai sendo substituído aos poucos pelo silêncio das alturas, pelo som do vento:

Sabe quando não dá pra acreditar no que os olhos estão vendo?
Quanto mais eu olhava, mais eu não conseguia separar céu de mar, sonho de realidade:

A viagem de ida durou quase meia hora.
Desci lá no topo de Funchal e gelei. A temperatura estava completamente diferente.
Era como se a ilha tivesse duas dimensões:

Encontrei mil caminhos e vi um totem com informações:

Rapidamente tomei o caminho pra esquerda pra me informar sobre a descida através dos caixotes:

A mocinha do jardim japonês disse que os “Carreiros do Monte”, os meus “caixoteiros”, não estavam trabalhando hoje por causa do tempo.

Raios!
Eu queria tanto ser empurrado ladeira abaixo, que acabei ficando para ouvir mais sobre os carreiros.

A mocinha do jardim me disse que os carreiros estão sempre prontos pra descida. Vestidos como manda a tradição: camisa, calça branca, bota típica de pele e chapeuzinho de palha, estão sempre esperando seus passageiros entre um ou outro joguinho de cartas…
“O caixote” consiste nada mais nada menos do que um carro com forma de cadeira almofadada com cabeceira alta feita de vime. Ele desliza sobre esquis de madeira ensebados ladeira abaixo e sua capacidade de transporte variam entre duas ou três pessoas.
O combustível utilizado não se prende com petróleos ou derivados, a boa adrenalina move os aventureiros de idades tão díspares quanto se pode imaginar. Desde jovens em lua-de-mel a idosos de bengala na mão que precisam ser ajudados para subir no carro.

Agradeci a mocinha, que já queria me vender um ingresso para o jardim japonês e segui para o outro lado:

Acabei encontrando um caminho fantasmagórico: A M E I !!!
Todo mundo sabe que eu amo lugares misteriosos.
Esse aqui era bonito demais, mas envolto em nuvens do jeito que estava, o simples casarão ganhou ares de mansão assombrada.
O casarão que parecia abandonado era escuro e cheio de largas janelas fechadas.
Não havia viv’alma naquelas redondezas. Isso foi mais que suficiente para fazer minha cabecinha trabalhar e criar mini histórias fantasmagóricas com a velocidade da luz:

Andei mais um pouco e acabei encontrando duas estudantes alemãs. Insisti em algumas fotos na imensa praça coberta de árvores de chorão – aquelas que cujas folhas parecem chorar e atingir o chão – mas para a infelicidade do meu registro fotográfico, uma nuvem nos engoliu literalmente e as fotos se perderam.
Não consegui registrar nem os chorões, nem a igrejinha medieval que desapareceu aos meus olhos. Muito menos consegui encontrar as duas alemãs… Agradeci as meninas com um grito e descobri um outro ponto panorâmico:

Sim. Lá no fundo havia um cemitério! Hehehe…

Lamentei não ter comprado o bilhete de ida e volta por mais €4 e tive que desembolsar + €10.
Entrei na cabine quentinha e me encolhi:

30 minutos de sossego era tudo o que eu queria.
Olhar a Ilha da Madeira de lá de cima me esquentava o coração.
Era como um sopro de vida que entrava e me fortalecia:

Era informação demais para uma pessoa só.
Eu até me sentia um pouco egoísta em estar naquela cabine sozinho, com aquele monte de vida sob meus pés.
Pensei em me esconder na cabine e subir novamente, mas me lembrei do tempo que eu não dispunha:

Mas esses pensamentos eram passageiros.
Logo eu caia na real e me dava conta de que tudo aquilo era pra mim:

Fiz várias fotos posers. Não podia perder a oportunidade de registrar aqueles telhadinhos vermelhos todos voltados pra mim.
Aquilo era muita energia pra explicar apenas com palavras.
Das tantas fotos, pelo menos uma se salvaria.
Pra minha surpresa, conferindo as fotos mais tarde, comprovei que mais do que uma ficaram boas:

Poder sentir que o gigante branco lá de longe me causava uma sensação… Sabem, até hoje não consigo explicar direito. É uma mistura de sentimentos.
Nem o meu band-aid ficou de fora dessa:

Lembrei-me da tão sonhada casa da minha mãe:

Contemplei mais um pouquinho a riquesa alheia:

Aproveitei o restinho da viagem:

Eu não sei o que era mais inconveniente: ver a cada minuto os ponteiros de todos os relógios parecendo estar mais acelerados do que deveriam estar ou ter a visão do gigante branco atracado lá no horizonte, me lembrando a cada piscar de olhos que eu ainda tinha uma tonelada de trabalho pra fazer:

Descer do céu é sempre difícil.
Antes de pisar novamente naquela terra florida e perfumada, fiz um pensamento bem forte para poder voltar algum dia com a minha família, subir novamente o teleférico, visitar o jardim japonês, registrar a igreja, seus chorões e descer a ladeira com os carreiros:

Nem bem desci e já estava próximo ao Mc Donald´s e a Pizza Hut.
Precisava achar aquelas cabines telefônicas pagas e me indicaram subir uma daquelas bonitas ruas em direção a pracinha dos taxistas.
As ruazinhas já estavam todas enfeitadas para o Natal. Desejei poder estar ali de noite para ver a iluminação natalina, mas lembrei que às 17hs o navio zarpava. Apertei o passo por esse caminho desenhado no chão:

Após encontrar um cyber café e falar com minha mãe por quase 20 minutos pagando apenas €2, resolvi tirar uma foto da fila dos táxi:

Foi a minha sorte grande, pois assim que acabei de tirar esta foto, vi as meninas do shopping do navio: Marcelinha cor-de-rosa e Chris tudo de bom.
Muita, muita sorte! Essas duas gurias foram as companhias perfeitas até o final dessa aventura.
Minha câmera nessa hora já estava dando seus espirros traumatizantes e quase me deixou na mão.

Encontrá-las me deu tanta alegria, mas me fez esquecer completamente que eu, até então, não tinha almoçado:

A caminho do Mc, encontramos uma parque com um gramado tão verdinho que não resistimos. As meninas mergulharam na grama. Fizemos várias sessões fotográficas declarando o nosso amor pela ilha. Essa foto tem um quê “tokusatsu” (superheróis japoneses) e foi inspirada numa linda foto que o Gamewatch tirou lá no Japão:

As meninas ficaram descalças. Pularam e rolaram na grama como crianças. Eu tentei pegar a bagunça delas, mas só saiu minha carona de felicidade. Vou precisar pegar as fotos com as meninas:

Era impossível não brincar com o nosso branquinho escondidinho por entre as árvores e suas chaminés amarelinhas:

Nem bem deu tempo de descansar:

Foi só o tempo de comprar um Big Mac, devorar o hambúrguer com apenas 3 mordidas, quase morrer engasgado com a Fanta, guardar as batatas na mochila, correr como um louco para honrar a pontualidade e ainda assim, conseguir centralizar o navio numa foto em movimento:

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16- Lisboa (Portugal)

Dezembro 24, 2007 · 4 Comentários

Após deixarmos Gilbraltar, o Mar Mediterrâneo e suas cidadezinhas brilhantes lá no horizonte escuro, entramos finalmente no imenso e profundo Oceano Atlântico.
O coração bateu mais forte. Ainda estávamos contornando a costa da Península Ibérica, mas mesmo esse contorno já era suficiente para sentirmo-nos distantes de qualquer pedaço de terra.
Navegar no Mediterrâneo é um pouco mais tranqüilo, no sentido de que nas noites, é possível visualizar as cidades oscilando suas luzinhas lá no horizonte.
Uma vez no Atlântico, a gente perde um pouco dessas referências. A noite é um breu que só. Impossível de se localizar.
Mas só não se localizava quem era muito perdido ou não ligava a tv da cabine. Havia uma programação bastante interessante em um dos canais televisivos do navio. Era o canal da Costa, que trazia informações constantemente atualizadas sobre direção do vento, velocidade do navio, distância percorrida, mapas de navegação, cidade de partida, cidade de destino, cidades próximas, temperatura…
A nota mais importante da noite era o aviso para não se esquecer de atrasar o relógio uma hora. Estávamos ultrapassando os fusos. Mal sabia eu que ainda teria a felicidade de retroceder as horas do relógio umas quatro ou cinco vezes ainda… Hehehehe… Isso garantia Crew Party, (festa da tripulação).

Às 5hs da manhã do dia 29 de Novembro, entramos pelo canal de Lisboa e navegamos pelo imenso Rio Tejo. Uma hora depois, estávamos atracando no colorido porto de Lisboa.
A temperatura de 9°C da manhã escondia a cidade e a imensa ponte 25 de Abril. Uma imensa neblina se espalhou a perder de vista e só mais tarde pude então ver um Cristo de braços abertos do outro lado do rio e conferir a magnitude da tal ponte.

Nesse dia, meu chefe me disse que eu teria um extra job, um trabalho a mais para realizar.
Nem me preocupei muito. Trabalho convencional, trabalho extra, não importava. Todo o trabalho era sempre trabalhoso, então relaxei e fiquei curtindo a vista da curiosa Lisboa que chamava muito a minha atenção. Ora por seus telhados, ora por suas igrejas espalhadas em cada canto, por seu trem cruzando a cidade a cada minuto, pelo movimento no porto logo abaixo, pelos carrinhos passando em cima da imensurável ponte como forminhas num galho de árvore…
Então meu chefe me avisou que eu ia fazer as balconies.
Isso não podia ser tão difícil assim. Pensei comigo: “Limpar balcão não deve ser tão mais difícil que limpar piscina”.
Para o meu doce engano, as balconies eram as varandas do navio.
O trabalho, sem dúvida, foi o mais terrível e pesado que eu fiz lá no navio.
Primeiro precisávamos abrir todas as varandas de todas as cabines. Somente o trabalho de abri-las demorou uma hora.
Olhei lá da última varanda para a primeira e não acreditei na distância percorrida. As varandas iam de proa à popa.
Depois, precisávamos colocar as duas cadeiras de cada varanda juntas e colocar a mesinha de cada uma delas em cima das duas cadeiras. Mais uma hora fazendo isso.
Havia esquecido a jaqueta lá na primeira varanda. Aproveitei que estava na última e cronometrei quanto tempo eu levaria pra andar de um lado para o outro do navio, apenas pulando as divisórias. Demorei 10 minutos.
Nem vou falar que precisei lavar os vidros das todas as sacadas e as divisórias, enquanto meu amigo enxaguava com água corrente e o meu outro amigo secava o chão com o rodo.
Lembro-me bem ao chegar à última varanda e soltar um suspiro de satisfação. Estava completamente esgotado, mas havia terminado a última varanda em cima do meu horário de almoço.
Então, aparece meu chefe com sua carona lavada dizendo que fizemos um bom trabalho.
Eu já estava tirando luvas, botas e para minha surpresa o tal chefe, com o sorriso mais amarelo do mundo, nos manda pro outro lado do navio fazer a mesma coisa…

Não sei bem como eu consegui finalizar aquele outro lado. Acho que foi intervenção divina.
Quando terminei o outro lado, até tinha perdido a vontade de descer em Lisboa, mas como era extra job, havia ganhado uma horinha a mais.
Arrastei-me para minha cabine, troquei meu uniforme molhado e meus sapatos ensopados por roupas limpinhas, calcei meu confortável tênis que parecia pesar uma tonelada. Carreguei a mochila com minha máquina fotográfica, alguns trocados, uma cópia do meu passaporte, um agasalho e desenterrei a vontade de conhecer a famosa cidade portuguesa.
O sol estava querendo aparecer, mas ainda estava fraco.
Rastejei-me para a gangway, a porta de saída/entrada do navio.
Bastou atravessar aquela pequena ponte e quando pisei no solo português uma força, que eu não sei da onde surgiu, me impulsionou e me encheu o peito.

Já tinha perdido 20 minutos e ainda estava na frente ao navio!
Não havia ninguém pra dividir táxi.
Todo mundo que eu conhecia já tinha saído há horas e só voltariam bem depois de mim…
Raios!
Eu não tinha muitos €uros no bolso, mas se não pegasse um táxi com um destino bem bacana eu provavelmente não teria tempo para ver nada.

Peguei o primeiro Joaquim que vi e entrei no táxi. O safado do Joaquim se chamava Antônio e me fez a corrida até o centro por €15.
Pelo menos ele foi atencioso e me garantiu levar para um lugar em que eu poderia tirar excelentes fotos, já que para atender ao meu pedido, de me levar até Fátima, necessitaríamos de mais tempo, coisa que eu não tinha.

A Praça do Comércio foi onde desci.
Eu estava renovado!
Naquela praça, estar cansado por causa das balconies, estar sozinho por causa do meu horário maluco, estar €15 mais pobre e com a lembrança de que a tia Lurdinha e o tio Carlão já tinham pisado aqui, de alguma forma me renovou.

Não acreditei na beleza do lugar.
Caminhei para o meio da praça e me ajoelhei para tirar uma das primeiras fotos:

Nem bem terminei de tirá-la e abordei meu primeiro casal de turistas. Com meu inglês britânico… Hehehe… pedi com muita educação para o casal tirar uma foto minha:

Corri para atravessar o Arco do Triunfo da Rua Augusta, um arco situado na parte norte da Praça do Comércio:

Atravessei o arco e um mundo europeu se abriu pra mim. A Rua Augusta concretizou pra mim a idéia que eu tinha do que seria a Europa.
Aquele ar europeu estava ali, em cada cantinho. Cada passo que eu dava, eu me maravilhava com aquela bagunça sofisticada:

Lisboa me lembrou, num primeiro contato, a Londres retratada através dos relatos dos meus amigos viajantes. Pessoas do mundo todo circulando ao lado dos moradores da cidade.
Encontrei mais nacionalidades naquelas ruas do que no navio. Era um mar de turistas do mundo todo.
Esse clima de centro de cidade, com o ar do Rio Tejo que mais parece o Atlântico, associado aos numerosos monumentos de arte manuelina, museus e edifícios centenários construídos com inteligência e uniformidade, fazia com que eu esquecesse que aquele povo falava a minha língua.
A cidade tem o formato de um anfiteatro ao longo de seus declives e de suas colinas baixas. Ela se reflete totalmente nas águas do seu rio.

A tal Rua Augusta é impressionante, cheia de vida, de lojinhas, de artistas de rua… Comprei um postal numa lojinha coloridíssima e testei o meu português de Portugal, que foi bem aceito pelo vendedor. Comprei selos, escrevi meia dúzia de palavras e dessa vez resolvi encontrar uma caixinha de correios para ter certeza de entrega. (Até hoje não chegou em casa!):

Eu andava velozmente sem rumo. Não me incomodavam as dores nas costas, nas pernas e nos pés. Eu estava de alguma forma anestesiado com a beleza do elegante bairro do século XVIII, projetado pelo famoso marquês de Pombal (olha as aulas de história da Profª Bartira!).
Eu tive que parar numa das ruas. Algo monumental me chamou a atenção.
Era o Elevador de Santa Justa. Uma enorme torre em design neogótico romântico que mais parecia um foguete saído dos livros do Mochileiro das Galáxias:

Claro que não subi a Santa Justa, acabei esquecendo de passar lá na volta.
Na verdade prefiro culpar o tempo a meu esquecimento.
Na verdade verdadeira, como não tinha destino definido, acabei andando muito e me distanciei horrores do elevador.
Como tudo era uma grande descoberta, acabei encontrando outras curiosidades e me arrepiando com cada uma delas, o que me fez esquecer um pouco do elevador… (Eu iria compensar em Salvador…).
Mas se de um lado eu não subi a Santa Justa, do outro eu sabia tudo sobre ele.
Que ele fora concebido por um aprendiz de Gustave Eiffel e que sua principal serventia, era ligar o bairro baixo ao bairro alto. Ele abriu em 1902 e funcionava a vapor. Só em 1907 passou a trabalhar a energia elétrica, sendo o único elevador vertical em Lisboa a prestar um serviço público. Ele sobe 45 metros e leva 45 pessoas em cada cabine (existem duas) até um café panorâmico lá no topo, para vistas magníficas sobre o centro de Lisboa e o Tejo.

Após voltar para a Rua Augusta, encontrei uma daquelas docerias irresistíveis e gastei uns €5 em uns bolinhos doces. Lembravam um pouco os bolinhos de chuva, mas tinham sabor de sonhos de padaria. Fui comendo os bolinhos, que se acabaram assim que eu cheguei à Praça Dom Pedro IV.
A praça era enorme, um monte de gente indo e vindo, o metrô era logo ali. Uns malucos estavam com uns headphones alienígenas e aqueles microfonões felpudos gravando o som ambiente. Quase fui lá falar com eles. Acho que alguma agência estava gravando imagens e sons para um filme ou comercial.
Lá, havia uma barraca linda de flores. Lembrei da minha mãe e da minha tia Vera na hora:

Foi então que quando eu estava lá no meio da praça, vi o meu destino iluminado pelo sol da tarde:

Na hora tive o insight de subir ao castelo.
O castelo ficava na parte alta da cidade.

Como eu chegaria ali?
Não pensei muito, pois pensar consumia minutos.
Botei os neurônios pra funcionar e segui meu instinto GPS.

Caminhei incansavelmente por ladeiras cheias de paralelepípedos e vi construções completamente clássicas abrigarem tantas lojinhas bacanas.
Os africanos aqui andam em grupos de no mínimo cinco companheiros. Estão em todos os lugares e são mais numerosos do que os próprios portugueses.
Os turistas também são fáceis de se notar, pois estão sempre falando alto e munidos de poderosas basucas fotográficas.
Os mais notáveis, porém, eram uma turminha colorida que vinha descendo uma enorme ladeira enquanto eu ia subindo. Ainda não sabia o nome daqueles brasileiros, mas sabia que eles estavam no mesmo navio que eu. Eles fizeram uma festa ao se depararem comigo. Foi assim que as meninas que trabalhavam no shopping do navio se tornaram minhas grandes amigas: Chris e Marcela.
As meninas estavam lá desde cedinho e ainda ficariam zanzando por mais algumas horas. Após elas demonstrarem compaixão para com a minha peregrinação e me redirecionarem, elas bateram uma foto:

Após me despedir das garotas, pensei comigo: “Não me importo tanto com o castelo, mas tenho certeza que se eu conseguir chegar próximo às muralhas, vou ter uma excelente visão da cidade”.
Apertei o passo e descobri os caminhos.
Andar pelas ruas baixas me dava um prazer absurdo. Entre as ruazinhas eu ia vendo quintais cheios de flores, roupas no varal, gatos preguiçosos em becos aconchegantes iluminados por um sol dourado:

Encontrei um tiozinho português, que além de tirar uma foto minha, indicou a escadaria que levava até a região do castelo:

Descobri mais caminhos aconchegantes e um monte de velhinhos formidáveis,que me indicaram continuar subindo.
Os caminhos pareciam sair dos animes do Studio Ghibli. Parecia que o diretor Hayao Miyazaki já tinha passado por ali e captado a essência daquela existência, daquele chão, daqueles muros e paredes…
Todos os caminhos me lembravam os caminhos do Studio Ghibli:

O dia nublado e cheio de neblina havia se transformado num dia de céu azul e sol dourado, como os meus preferidos dias de Agosto no Brasil.
Olhava para as janelas e imaginava o interior das casas, seus moradores…
Rapidamente comecei a imaginar como deveria ser bom ser criança e poder crescer nesse lugar.
Era como se eu tivesse entrado numa máquina do tempo e voltado centenas de anos, para uma Lisboa completamente diferente daquela lá embaixo:

E fui subindo os degraus, como se eles existissem apenas para mim.
Contemplei os telhados vermelhinhos e vi o horizonte aos poucos se abrindo:

Perdi o fôlego:

Mas recuperei rapidamente ao ver um casal de alemães se aproximar. Pedi-lhes mais uma foto:

Isso tudo ficava aos arredores daquele castelo, que cobrava meus poucos €uros para acessá-lo.
Resistí-lo foi fácil, já que o que me interessava mesmo estava do lado de fora dessas muralhas e meu bolso não estava tão cheio assim. Mas não resisti ao pedido educado de um senhor britânico, oferecendo-se para tirar uma foto minha. Caprichei no “th” do thank you e fiz pose de turista:

Resolvi descer até o centro tomando um outro caminho.
Perguntei para um jovem guardinha como chegar até a Praça do Comércio e a resposta pareceu vir numa língua que eu nunca ouvira na vida.
Pensei que o cara estava falando alemão, depois pensei ser grego ou russo, mas era o incompreensível português cheio de gíria de Portugal.
Limpei meus ouvidos novamente e pedi para o guardinha repetir em slow motion, apertando a tecla SAP.
Então, ele me deu um sorrisão e falou: “-Brasileiro…” Quando dei por mim já estava dentro de uma lojinha de lembrancinhas comprando um galinho para minha mãe. Santas moedinhas!

Descer foi fácil.
Bastou seguir o trilho do bondinho que não havia como errar:

Eu ia descendo, encontrando turistas, tirando fotos:

O sol também ia descendo o horizonte. Se tivéssemos combinados, não estaríamos tão sincronizados:

Os caminhos dourados brilhavam aos meus olhos:

Apesar da temperatura máxima de 16°C refrescar-me o passeio inteiro, aquele sol surreal manteve o meu coração aquecido o tempo todo e fez minha tarde render:

Vi o sol atingir em cheio uma das tantas igrejas de Lisboa. Não poderia ser mais sagrado:

E foi assim que eu cheguei aquela praça principal e encontrei meus amiguinhos indonesianos esperando o Shuttle Bus (ônibus gratuito do navio).
E foi assim que eu economizei mais alguns €uros.

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15- Gibraltar (Reino Unido)

Dezembro 23, 2007 · 2 Comentários

A terra que divide a Europa da África, representa também um extraordinário ponto estratégico para a velha Europa. A velhíssima coroa britânica que durante anos quis manter a própria liderança sobre essa pequena península, situada logo abaixo da famosa península Ibérica, é importante por ser a porta de entrada do Mediterrâneo.

Todos nós desde pequenos sempre ouvimos falar do estreito de Gibraltar. Poder conhecer esse lugar me fez voltar às aulas de geografia.

As primeiras horas do dia 28 de Novembro ainda revelavam um céu escuro. Eu tinha acabado de tomar o meu café e voltei pra minha cabine, apanhei e vesti minha cyber jaqueta à prova de balas e subi ao deck 11º para encontrar Rinaldi Mohamed, Zaldi, Edie, Joseph, Sumatra, Gusti, Pasek, Gedi, Agus, meus companheiros indonesianos.
O navio ainda estava navegando. A madrugada ainda sem sol, estava com um vento tão arrebatador, que era impossível permanecer de pé.
O sol demora pra aparecer nas manhãs européias e o frio que faz nesse meio tempo é mortal para nós brasileiros.

Estávamos fazendo o setup das cadeiras e espreguiçadeiras, quando o primeiro raio laranja de um sol tímido se ergueu lá no horizonte rasgando aquele céu ainda negro. Os momentos a seguir vão ficar gravados pra sempre na minha mente: um show de cores em menos de cinco minutos.
O mesmo sol que ilumina o Brasil surgia manhoso lá na linha que separa o oceano do céu, iluminando com a força de um bilhão de explosões nucleares o meu dia…

Vi surgir ao lado direito do navio o farol de Punta Europa e uma cidade inteira cheia de luzinhas coloridas numa montanha inacreditável. Havia um castelo lá em cima, que com o nascer do dia se mostrou ser uma fortaleza: o castelo de Moresco, construído em meados de 750 pelos árabes, cuja torre domina toda a cidade.
O próprio nome Gibraltar origina-se do árabe Jabal al-Tariq (Montanha de Tarique), antes chamada pelos fenícios de Calpe, uma das Colunas de Hércules. O “fim” do mundo conhecido para o “começo” do mundo a ser descoberto, a insegurança à curiosidade.
Colunas de Hércules é o nome dos promontórios que existem à entrada do estreito de Gibraltar, um em África (o monte Hacho) e outro na Europa (o rochedo de Gibraltar).
Conta-se que Hércules, para realizar um de seus doze trabalhos, teria necessidade de transpor um estreito marítimo. Dispondo de pouco tempo, resolveu abrir o caminho com seus ombros ligando, assim, o Mar Mediterrâneo ao Oceano Atlântico. De um lado, ficou um grande rochedo, mais tarde chamado Gibraltar (monte Calpe) e do outro lado o monte Hacho (Abília), a leste de Ceuta.

Acompanhar o sol chegar à cidade do mais alto deck do navio foi um presente dos deuses. Aquela vista aliviava o cansaço.

Sacrifiquei mais um almoço para correr até a riquíssima cidade. Aproveitei a companhia da minha impecável mineirinha Michele do spa e fomos dar um perdido em Gibraltar:

A Michele foi outro anjo que eu encontrei na minha vida a bordo.
Quem me apresentou a guria foi o anjo Pasek, o meu grande amigo indonesiano. Ele falava da Michele a cada cinco minutos. Eu precisava conhecer aquela garota!
Finalmente no meu terceiro dia, eu pude comprovar o quanto essa mineirinha era especial. Não foi à toa que ela conquistou os corações de todos os indonesianos com sua simpatia e gentileza.
A garota do spa precisava ser muito bonita e sofisticada para trabalhar ali, mas o que ninguém contava, era que a Michele além de ter todas essas qualidades, era também uma pessoa simples e dona de um coração do tamanho daquele navio:

Desci meio anestesiado. Málaga ainda estava piscando na minha mente.

Gibraltar foi uma surpresa. Uma surpresa ao me deparar com aquele ar britânico e ver aqueles ônibus vermelhos de dois andares passando a todo instante pelas ruas, encontrar em cada esquina aquelas famosas cabines telefônicas ou comprar o Häagen-Dazs e ter que desembolsar €5 por não ter £2:

O postal que nunca chegou, eu comprei na lojinha de um britânico confiável, que só queria saber de me mostrar as estupendas câmeras digitais a precinho de banana. Ele prometeu colocar na caixinha do correio. Sabe-se lá Deus o porquê do postal ainda não ter aparecido por aqui! Será que ele foi parar na Inglaterra? God save the Queen!

Voamos a pé pela cidade. Ruas gostosas pra se caminhar, bem arborizadas, o vento do Mediterrâneo de um lado e a brisa do Atlântico de outra, o solzão em sua totalidade, um clima de cidade mediterrânea com aquele charme britânico… E os filhos da puta dos minutos voando no meu relógio!

A Gibraltar que vi, eu vi passar com a velocidade da luz:

Quando voltei para o navio, o Enviroment Officer, o oficial mais bacana de todos me contou essas histórias sobre Gibraltar. Fiquei imaginando poder subir no Moresco, visitar as conservadas muras ou até mesmo conseguir ver as grutas de San Michele de longe, mas… Acho que fiquei um pouco frustrado quando o navio às 13hs navegou para Lisboa e deixou o desenho daquela cidade marcado apenas na minha mente.

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14- Savona (Itália) – Málaga (Espanha)

Dezembro 18, 2007 · 8 Comentários

Dry Dock é o nome que se dá para o período de manutenção de um navio. É quando ele fica no estaleiro, completamente sem água, pra reparos, reformas, revisão…
Geralmente trabalha-se muito nesse período, pois o navio literalmente troca de pele.

Cheguei no Victoria em dia de Dry Dock. Encontrei o navio sendo lixado, pintado, montado, arrumado, encarpetado, polido…

Dizem os tripulantes que Dry Dock é prova de fogo.
Para eu e meus amigos que caímos de pára-quedas lá no navio, Dry Dock ou não, tudo já era um grande desafio.

O primeiro dia ainda estava longe de terminar.
Os olhos já não funcionavam direito, o corpo já não respondia.

Sem descanso, encontrei o 6º deck e fui apresentado para a minha equipe de trabalho. Uns dez indonesianos marombados me mediram com seus olhares distantes. Meu chefe, um indiano com o sotaque mais incompreensível do mundo me deu as boas vindas.
Toda noite após finalizar o trabalho, esticávamos nossos corpos nas cadeiras confortáveis do spa esperando o chefe trazer a lista de assinaturas. Eu e meus amigos literalmente desmontávamos nas cadeiras:

Essas fotos retratam a grande amizade que esses queridos indonesianos tinham por mim. No começo eu fiquei bem receoso. A minha primeira experiência com limpeza foi um desastre. Fomos todos fazer o setup da recepção. Um mundo de cadeiras e mesas precisavam ser libertadas de seus plásticos protetores. O silêncio imperava no ambiente. Fizemos esse trabalho nas próximas duas horas e então nos reunimos com o chefe novamente.
Fiquei sabendo que ajudaria um dos indonesianos no spa e na academia. Mal sabia eu que essa seria a minha rotina diária na parte da noite:

Pasek foi o primeiro indonesiano a falar comigo.
Lembro-me do meu pânico. Eu evitava ficar no mesmo ambiente que o amigo, com medo que ele puxasse assunto.
Por mais que eu não conseguisse me expressar, com o passar dos dias a comunicação se torna mais fácil.
Bastaram apenas alguns dias para que eu entendesse a magnitude desses indonesianos na minha vida.
Felizmente eu tenho uma sorte incrível com amigos. O Pasek foi um irmão. Ensinou-me o serviço, me contou histórias da sua distante Bali… Falava com tanta calma que era possível entendê-lo perfeitamente:

Com o passar dos dias, pude perceber que os outros nove indonesianos tinham a mesma luz do Pasek.
Aquela primeira impressão que eu tive deles na primeira reunião, de serem caras durões, impessoais e que não se importariam comigo me surpreendeu.
Todos eles eram incríveis professores, todos eles tinham essa calma ao falar. Eu os compreendia e eles me compreendiam.

E esses foram os meus companheiros nessa árdua jornada.
Aprendi tudo com esses pequenos príncipes. Se por um lado eu perdi pela falta de brasileiros, do outro lado eu ganhei pelo excesso de gentilezas, de atenção, disposição e paciência. Sem contar que dias depois, eu já estava contando minhas histórias em inglês.

O trabalho era muito árduo e era difícil eu acompanhar os guris. O mais fraquinho entre eles tinha um muque de fazer inveja para pitboy nenhum botar defeito.

Uma vez que eu me propus a fazer esse tipo de trabalho, e isso eu tinha bem definido pra mim, eu era capaz de fazer de tudo.
Claro que no final do dia eu era só o pó da rabiola, mas se meus amigos me conquistaram pela gentileza, eu os conquistei pelo meu trabalho.

Por mais difícil que fosse lavar as mil cadeiras de sol, varrer todo o convés, polir o infinito corrimão do deck principal, lavar todas as jacuzzis, cobrir as piscinas, enrolar, distribuir e coletar as milhares de toalhas, montar as mesas, carregar cadeiras, limpar os equipamentos da academia, lavar parede, remover os restos de carpete, lavar as sacadas de todas as cabines superiores, limpar cinzeiros, jogar lixo nas caçambas, preparar os produtos de limpeza, fazer o setup das áreas das piscinas… Eu conseguia sorrir no final do dia.
O trabalho nunca foi problema, pelo contrário, ele sempre foi a solução. Ele era tão intenso que te destruía de uma forma, que bastava deitar na cama para adormecer num sono profundo acordando apenas no outro dia.

Ainda estávamos em Dry Dock. O navio ainda estava paradinho, paradinho e eu já me sentia enjoado.
Nos meus horários de folga eu tentava me adaptar a rotina do tripulante.
A todo instante eu olhava pelas janelinhas do navio para ver se eles estavam enchendo de água o Dry Dock.
Eu estava doido para dar notícias para meus pais, mas era impossível sair do navio nesses dias.

Voltei novamente para a interminável fila de uniformes para pegar uma jaqueta show de bola – depois de um tempo descobri que o motivo dela ser tão gigantesca e pesada é que ela era duas, uma conectada internamente à outra – e senti o Dry Dock enchendo de água.

Lembro-me de estar preocupado demais, pois faltava pouco para o navio navegar até Savona, onde pegaríamos finalmente os passageiros para dar início ao cruzeiro.
Naquela noite, antes do jantar, fui na recepção e peguei as famosas pastilhas que evitam o enjôo.
O navio faria uma navegação teste de dez minutos pela região do porto de Gênova.

A sensação de navegação me amoleceu as pernas. Trabalhar com aquele vai e vém não iria prestar. A dor não tardou a invadir a parte de trás da minha cabeça. Foi quase impossível trabalhar nesse dia.
Mesmo sem vontade, jantei muito nessa noite, seguindo as recomendações do treinamento: barriga cheia evita enjôo.
Comi muito pão, arroz, mas bebi pouco.
Confesso que a sede era algo quase insuportável. Mas como disseram que o inimigo número um do mareado eram os líquidos, evitei tomar qualquer coisa aquela noite.

Fui dormir com medo de passar mal.
Apanhei meu saquinho de bolachas e o escondi debaixo do travesseiro. As bolachas forravam o estômago, inchando-o em questão de minutos. Isso garantia um sono tranqüilo.

Acordei em Savona.
Como explicar Savona com palavras, já que não pude registrar fotograficamente?
Savona vai sempre habitar minha mente. Uma cidade inteira num imenso morro. Medieval, com o sol nascente iluminando seus muros e suas árvores com um dourado sagrado.
Gaivotas, ciclistas e uma linda marina cheia de veleiros e barquinhos coloridos.

Nessa manhã descobri os decks mais elevados do navio. O 12º e o 14º. Acho que o 13º não existe por motivo de superstição.
Um frio cortante lutava contra os fracos raios daquele sol preguiçoso.
Trabalhamos até o sol atingir o meio dia.
O navio ainda estava um caos e os passageiros já entravam…

Esses dias se arrastaram com dificuldades. O fato de não poder dar notícias para a família me deixou muito mal.
O trabalho era a fuga, era a ocupação que me mantinha na linha para não pirar. O resto era sonho que se tornava pesadelo. Com o passar dos dias vi o quão desorganizada, complicada e confusa era essa companhia. Sentir na pele que a companhia só precisa de vc para poder entrar no país – já que para o navio entrar no Brasil é preciso ter 15% de tripulação brasileira – faz com que vc entenda o pouco caso que os italianos fazem de vc.

Mas falemos de coisas boas.
Málaga na Espanha foi o primeiro lugar que eu desci.
A primeira impressão é que vc está entrando num porto colossal, com aqueles guindastes robóticos a perder-se de vista:

É impossível esconder a excitação.
O navio dança em todas as direções para atracar-se.

Descobrir que eu teria apenas uma hora para conhecer os lugares foi uma facada no coração.
Eu trabalhava das 7hs às 11hs, tinha uma hora de almoço, voltava a trampar das 12hs às 15hs, tinha duas horas de descanso, voltava a trampar às 17hs até às 18hs, uma hora pra jantar, voltava a trampar das 19hs até quase às 23hs.
Como disse anteriormente, era muito difícil trabalhar tantas horas por dia, mas isso era uma constante, eu sabia que seria assim. A facada foi descobrir que essas horas de folga não podiam ser conectadas para formar uma longa hora de folga…
Como o navio atracava de manhã e partia lá pelo meio-dia, era quase impossível ter mais que uma hora em cada parada.

Pensei seriamente em abrir mão do passeio em Málaga, mas aproveitei a companhia da Beatriz – a anja que havia me salvado na noite passada – e junto com uma turma de brasileiros fomos passear pela cidade.

Descer do navio para conhecer essas cidades foi maravilhoso:

Só não tirei mais fotos, pois minha máquina estava com dor de barriga e desligava-se a cada clique:

Málaga é uma cidade cosmopolita, muito florida e cheia de montanhas ao fundo, árvores coloridas e muitas lojas:

Os brasucas desciam para comprar laptop.

Passeamos por calçadões e avenidas imponentes:

O barato aqui era atravessar uma rua. Os carros paravam quase que automaticamente.
Fomos direto àquelas cabines telefônicas e ligamos para o Brasil. A minha sorte fez ouvir a minha gravação na secretária eletrônica de casa e tudo o que eu consegui foi deixar um sinal de que eu estava vivo. Conectamos 15 minutos de internet – pra quem tem uma hora de visitação, 15 minutos é uma eternidade – e fomos procurar postais e um correio.
Não achamos os postais, mas acabamos achando o prédio dos correios, que também não vendiam postais. Aproveitei para tirar uma foto pra minha mãe:

Então fomos a um desses grandes shoppings. Santo Deus, imaginem um shopping center que só vende coisas fantasticamente européias por um precinho de 25 de março! Assim era o comércio nesse shopping.
Passei por todas essas ofertas e promoções com muita classe… Hehehehe… Fomos até um Mc Donald´s.

Não me lembro de muita coisa além disso. Lembro-me que quando estava começando a ficar bom, já estávamos no táxi rumo ao porto.

Olhar para aquele gigante branco quietinho lá no horizonte e saber que lá dentro é aquela confusão de gente indo e vindo é terrivelmente engraçado:

Como primeiro destino, voltar são e salvo para o navio era por si só uma conquista:

Por termos voado em Málaga, sacrificado o horário de almoço, andado quilômetros num pique de maratonista, voltar ao trabalho aquele dia não foi moleza.
E foi exatamente na hora de voltar para o navio que eu vi uma cena que ficou gravada na minha cabeça: o desembarque de um grupo grande de tripulantes desesperados que não agüentavam ficar mais um minuto a bordo.

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13- São Paulo (Brasil) – Milão (Itália) – Gênova (Itália)

Dezembro 17, 2007 · 8 Comentários

“E eis que começo o relato da minha aventura transatlântica. Tentarei contar um pouco das alegrias e decepções dessa experiência incrível que eu vivi nesses últimos dias. Da despedida no aeroporto de Guarulhos com meus pais, passando pelos primeiros amigos conquistados, a longa viagem aérea até Milão, a conexão até Gênova, o encontro com o Costa Victoria no Dry Dock, o atribuladíssimo primeiro dia que durou quase 48 horas, a vida a bordo, os portos, o trampo, as cidades, o crossing, as dificuldades, as felicidades… e os principais fatores que me fizeram abrir mão dessa vida para voltar pra casa. Como já disse para poucos, é preciso ter muita coragem para abrir mão de tanto investimento e decidir voltar pra casa. Tentarei aqui nesses próximos posts, expôr um pouco do que é a companhia, do que me foi oferecido e do que eu encontrei, assim como falarei das curiosidades, das conquistas e do que tudo isso causou, causa e causará na minha vida.”

Ir ao aeroporto sem carro já é sempre um mau começo. A sorte é que meus pais não foram trabalhar, ou seja, me acompanharam em todos os aspectos.
O azar se deu no caminho até Guarulhos, após descermos no metrô Tatuapé e tomarmos o micro ônibus com destino ao aeroporto. Um filho da puta de um senhor suspeito desceu num dos pontos com a bagagem de uma senhora. Na hora, a pobre senhora se desesperou. Mas como se tudo fosse matematicamente combinado com o motorista do micro ônibus, o ladrão conseguiu uma enorme vantagem, já que o motorista dirigia a toda velocidade, pouco se importando com o desespero da senhora.

Após muito desespero, a pobre senhora foi ajudada pelos funcionários do aeroporto e se dirigiu à delegacia.
Apanhamos as minhas duas malas e fomos fazer check in.
Santas 5 rodinhas das minhas malas de giro 360! O que seria de mim sem elas?

Eu estava aéreo. Aquele frio na barriga não vinha. Eu sentia falta daquele nervosismo que antecedia as viagens. Sempre fui do tipo que não dormia um dia antes da viagem. Mas lá estava eu, uma muralha. Inabalável. Estranhei demais essa minha falta de nervosismo.

Se por um lado estava tranquilo, do outro estava ansioso. Mas era uma ansiedade sem nervosismo.
Foi duro despedir-se de meus pais. Vê-los tão deslocados, tão sozinhos e tão nervosos me cortou o coração.

Encontrei dois amigos que fizeram o treinamento comigo: o Alisson e a Amandita.
Após esperar naquelas enormes salas de embarque, subimos ao airbus.
Para minha surpresa o Cacá da seleção sentou-se muito próximo a mim. Eu havia conseguido lugar na saída de emergência e estava bem próximo a primeira classe.

A viagem é cansativa mesmo estando no melhor lugar da classe econômica. Não pelo fato do lugar ser apertado, pelo contrário, sentar-se na saída de emergência foi certamente a melhor opção, mas pelo fato de na minha frente haver uma enorme tv de lcd, que nunca se desligava, mostrando num mapa detalhado, todo o percurso da viagem.
A tela da tv era tão brilhante, que precisei transformar o meu cobertor em um tapa olhos improvisado.
14 horas, 15 horas e nem sinal do sono. Na tela da lcd, acompanhei todo o plano de vôo. Vi o aviãozinho deixar o rastro desenhado no mapa por onde sobrevoava. De São Paulo voamos em direção a Campos do Jordão, e fomos sobrevoando Minas, Bahia, até começarmos a sobrevoar o interminável Atlântico. Enquanto o sol imperava no horizonte, fui contemplando o jardim de nuvens que se desenhava ao horizonte:

O avanço do avião no mapa me lembrou um download de filme através de uma conexão discada. O avião se movia no mapa como uma formiga se moveria entre a linha de metrô Tucuruvi – Jabaquara. Após horas sobrevoando a escuridão do Atlântico, finalmente entramos na pontinha da África. O mapa se alternava. Horas mostrava as cidades principais, horas mostrava as cidades mais próximas. Passei por lugares impronunciáveis que eu nem imaginava existir.
Entramos em Dakar e sobrevoamos todo o deserto do Saara até finalmente, depois de muitas olhadas no mapa, atingirmos o Mediterrâneo.
Incrível como esse sistema de informação te deixa impaciente. A viagem já é longa, mas olhar de cinco em cinco minutos para essas terríveis lcds, fazia com que a longa viagem se tornasse ainda mais longa.
Após ter Casablanca, Barcelona, Atenas, Jiddah e Moscow na mesma tela da lcd, finalmente Milão entrou no mapa. Impressionante como tudo é perto: Palmas de Mallorca, Roma, Marseille, Veneza, Paris…
Demorou mais algumas horas até a gente chegar numa Milão debaixo de chuva.
Chegamos na escuridão da manhã, um frio cortante.

Passar pela imigração foi insignificante. O tiozinho perguntou pra onde eu ia. Eu disse que iria trabalhar no navio e ele me liberou carimbando a passagem pelo aeroporto de Malpensa no meu passaporte.
Com as meninas a situação foi um pouco diferente. Quase que elas voltam pro Brasil. O mesmo tiozinho exigiu das meninas um visto. As gurias explicaram pra mim mais tarde, que é por causa das brasileiras que entram no país para trabalhar no mercado sexual. Claro que era só antipatia por parte dos italianos. As gurias precisaram apenas mostrar o contrato e tudo se resolveu.
Abaixo uma foto antes de deixar meus pais em Guarulhos e já no aeroporto de Milão, os amigos:

A nossa conexão atrasou. Isso garantiu um pouco mais de caminhada pelo aeroporto. Conferimos os Duty Free, fomos comer num restaurante italiano que tinha uns sandubas muito loucos e ficamos tirando sarro da variedade de pessoas do mundo todo que ali se encontravam.
Finalmente entramos no ônibus que nos levou para o meio da pista do aeroporto. Ultrapassamos todos os gigantescos airbus e para nossa surpresa, paramos na frente de um micro avião, daqueles de filme de aventura:

A viagem nesse pequenino foi incrível. Passamos por uma turbulência do cão. Pra vcs terem uma idéia, havia apenas uma fileira de cadeiras do lado esquerdo, o corredor e duas fileiras do lado direito.
Eu amei a viagem. Foi quase uma constante montanha-russa, mas a paisagem de Gênova sob nossos pés fez valer qualquer enjôo:

Gênova é cheia de portos, containers, navios militares, navios de cruzeiro, marinas:

Numa grande volta que o pequeno avião deu, eu consegui ver o Costa Victoria no seu Dry Dock. Ele era imponente mesmo a distância. O frio na barriga imperou.
O pequenino pousou deliciosamente. Descemos na pista e fomos andando até o saguão do aeroporto. Lá, encontramos uma italianada maluca que nos esperava com plaquinhas da Costa.
Povo doido, ninguém abriu a boca pra nos desejar boas vindas, apenas mandaram a gente se agrupar e esperar as malas.
Apanhamos as nossas malas e eu constatei que as minhas estavam com os cadeados estourados, e a italianada nos empurrando pra fora do aeroporto.

Tomamos o ônibus da empresa para merecidamente descansarmos no hotel. Pelo menos essa hospedagem iria cair como uma luva. Os olhos quase não abriam de tanta canseira.

A primeira impressão de Gênova se deu através da janela panorâmica do ônibus em movimento. Gênova é uma cidade bem antiga, com construções que relembram o nosso centro de São Paulo. Prédios antigos em todos os lugares, grandes encostas montanhosas e mais prédios pendurados nessas ladeiras. Parece que toda a população de Gênova mora nesses edifícios amarelados.
Não é agradável de se apreciar, mas também não posso dizer que é feio. Dá a sensação de uma cidade medieval feita de prédios descascados.

O tráfego é caótico, mas não no sentido de engarrafamento e sim no sentido geométrico da palavra. As vias elevadas e as estradas são sinuosas e se contorcem em subidas e descidas, curvas fechadas e grandes retornos que entram dentro de construções, túneis e, acreditem, edifícios amarelos…
Claro que se de um lado tem as montanhas, do outro tem o mar. E é esse contraste que faz da cidade um lugar único.
Os navios, os barcos, os transatlânticos, as balsas, os veleiros, os cargueiros… É muita informação lado a lado… Sem contar o sistema rodoviário, ônibus lindos indo e vindo, pessoas esquisitas nas ruas, a vida acontecendo…

Paramos numa enorme praça, cheia de vida, de cores e de possíveis sabores.
Avistamos um enorme hotel de paredes amarelas. Já nos preparávamos para descer, mas o motorista chamou apenas os indianos que estavam com a gente.
Pensamos que a companhia havia reservado um hotel para os indianos e um outro hotel para os brasileiros… Então veio a primeira grande decepção.
O motorista nos levou ao porto e minutos depois, estávamos todos arrastando as nossas pesadas malas para dentro do porto. O Costa Victoria nos esperava:

A longa viagem de avião, a conexão, a falta de sono, a falta de um banho, as malas, as novidades e a certeza de que não nos levariam para o Hotel foi quase um tapa na cara.
Entramos no navio nos arrastando.
Não conseguimos captar nada de bom.

Eu estava com duas malas, com a pasta de documentos, com a mochila nas costas, tentando acompanhar os outros que iam na frente…
Me perdi do pessoal.
Após percorrer a via principal do navio até o fim, com as duas malas, com a mochila e com a pasta de documentos na mão, encontrei alguns anjos da guarda e reencontrei o meu povo. Eles estavam todos no crewbar entregando os exames médicos e o contrato.

Numa mistura de medo e de decepção, apanhei a chave da cabine, peguei o livro de informações, encontrei a cabine depois de duas horas, me troquei, voltei para o mesmo local após achá-lo depois de mais duas horas, conheci o meu companheiro de quarto, entreguei-lhe as havaianas para causar uma boa impressão, fiz o primeiro treinamento de segurança, voltei pra cabine para tentar tomar um banho, mas fui chamado para começar a trabalhar. Achei a minha estação de trabalho, mas como não tinha uniforme precisava ir até um supervisor para solicitar uma solicitação para pegar as roupas de trabalho. Depois de muito tempo encontrei todo mundo na fila do uniforme, depois de mais duas horas peguei o básico. Uma anja bahiana me ajudou a achar minha cabine para me trocar. Dirigi-me a estação de trabalho. Tive que voltar, pois precisava pegar roupa de cama, ou iria ficar sem lençóis, toalhas e cobertores… Voltei, fui, andei, cambaleei e finalmente fui trabalhar…

Eu não consigo me lembrar como esse dia terminou.

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12- Churrascada Dos Brito

Dezembro 15, 2007 · 1 Comentário

E não dá pra começar a falar da viagem, sem antes falar da despedida que meus parentes prepararam pra mim.

Família Brito em peso reunida aqui no meu quintal. Tios, avó, pais, primos, criançada… Macarronada da mama, salada do papi, churrasquinho do tio… e claro, muiiita bagunça…

Mas não há nada mais valioso do que saber que a sua família te apóia, seja qual for a situação.

Ter uma criançada dessa iluminando a vida da gente, não é pra qualquer um não.

Enquanto todos se divertem, a matriarca Vinciguerra está lá como sempre, guardando toda a família debaixo da sua grande asa de anjo.

Fazia tempo que a gente não reunia os primos pra jogar UNO.

Família italiana que se preze é bagunceira, divertida e saber fazer barulho.

Apesar do pouco espaço e da família grande, os Brito sabem como fazer uma simples churrascada tornar-se uma grande comemoração. As risadas, os abraços, as histórias e a energia de cada um, fazem um dia comum se tornar um dia memorável.

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11- Tô Voltando!

Dezembro 10, 2007 · 14 Comentários

Galera, acabei de chegar ao Brasil e já tô voltando pra casa… Dia 13 tô de volta. Estou bem, não se preocupem.

Sim, sim, estou de volta a minha velha vida. Deixo pra trás o mar, o balanço, a Europa, os amigos conquistados e recomeço do zero.

Arrependimentos? Nenhum. Mas se eu pudesse começar de novo, certamente não iria para trampar na mesma função.

Experiência de vida? Total. Depois dessa, qualquer parada é fichinha.

Ps: Ainda não voltei à realidade, tô meio anestesiado. Depois de botar o sono em dia e a cabeça no lugar, compilarei as idéias e atualizarei o blog. Adianto apenas que esses meus últimos vinte dias mais pareceram vinte meses, e que nesse período, por mais que meus dias de vida a bordo tenham se transformado em eternas segundas-feiras e a certeza de desembarcar definitivamente em Santos fosse constantemente repensada, levo dessa experiência, uma das lições mais importantes da minha vida.

Categorias: Travel
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